Um Curso de Cálculo, Volume 1
9.2 Intervalos de Crescimento e de Decrescimento
Antes de passarmos à próxima seção vamos relembrar as seguintes
definições. Sejam f uma função e A um subconjunto do domínio de f. Dizemos que f é estritamente crescente (estritamente decrescente) em A se, quaisquer que sejam s e t em A,
s < t ⇒ f(s) < f(t) (f(s) > f(t)).
Por outro lado, dizemos que f é crescente (decrescente) em A se, quaisquer que sejam s e t em A,
s < t ⇒ f(s) ≤ f(t) (f(s) ≥ f(t)).
9.2 Intervalos de Crescimento e de Decrescimento
Como consequência do TVM temos o seguinte teorema.
Teorema. Seja f contínua no intervalo I.
a) Se f′(x) > 0 para todo x interior a I, então f será estritamente crescente
em I.
b) Se f′(x) < 0 para todo x interior a I, então f será estritamente decrescente
em I.
Demonstração
a) Precisamos provar que quaisquer que sejam s e t em I, s < t ⇒ f(s) < f(t).
Sejam, então, s e t em I, com s < t.
Da hipótese, segue que f é contínua em [s, t] e derivável em ]s, t[; pelo
TVM existe tal que
De pois está no interior de I, e de t − s > 0 segue
f(t) − f(s) > 0 ou f(s) < f(t).
Portanto,
b) Fica como exercício.
■
(Observação: x interior a I significa que x ∈ I, mas x não é extremidade de I.)
Exemplo 1
Determine os intervalos de crescimento e de decrescimento de 3 f ( x ) = x
− 2 2 x + x + 2. Esboce o gráfico.
Solução
f 2 ′( x ) = 3 x − 4x + 1
Então,
Antes de esboçar o gráfico de f vamos calcular os limites de f para x →
+∞ e x → −∞.
Exemplo 2
Seja Estude f com relação a crescimento e
decrescimento. Esboce o gráfico.
Solução
Como (1 + 3 2 2 x ) > 0 para todo x, o sinal de f′ é o mesmo que o do
numerador.
f é estritamente crescente em ]−∞, −1] e em
f é estritamente decrescente em
Temos
Exemplo 3
Determine os intervalos de crescimento e de decrescimento de
Esboce o gráfico.
Solução
Então,
Segue que
Cuidado: f não é estritamente crescente em ]−∞, 0]!!!
Temos
Os limites laterais de f em 1 e −1 fornecem-nos informações sobre o
comportamento de f nas proximidades de 1 e −1. Vamos então calculá-
los.
Exemplo 4
Suponha f′′(x) > 0 em ]a, b[ e que existe c em ]a, b[tal que f′(c) = 0.
Prove que f é estritamente decrescente em ]a, c[ e estritamente crescente
em ]c, b[.
Solução
f′ é estritamente crescente em ]a, b[, pois, f′′(x) > 0 em ]a, b[. Assim,
Segue que
Exemplo 5
Prove que 3 2 g ( x ) = 8 x + 30 x + 24x + 10 admite uma única raiz real a,
com −3 < a < −2.
Solução
Vamos estudar g com relação a crescimento e decrescimento.
g 2 ′( x ) = 24 x + 60x + 24
24 2 x + 60x + 24 = 0 ⇔ x = −2 ou
Como g estritamente decrescente em e
estritamente crescente em segue que g (x) > 0 para todo x ≥
−2. Por outro lado, como e g estritamente crescente em ]
−∞, −2], resulta que g admite uma única raiz neste intervalo. Tendo em
vista que g (−3) = −8 e g (−2) > 0, segue que a única raiz está contida no
intervalo [−3, −2].
Exemplo 6
a) x Mostre que, para todo x ≥ 0, e > x.
b) Mostre que, para todo
c) Conclua de (b) que
Solução
a) x Consideremos a função f ( x ) = e − x. Temos
f(0) = 1.
Se provarmos que f é estritamente crescente em [0, +∞[, seguirá que,
para x ≥ 0,
e x x − x ≥ 1 > 0 ou e > x.
Como x f ′( x ) = e − 1, para x > 0
f′(x) > 0
e, portanto, f é estritamente crescente em [0, +∞[.
b) Seja Temos
g x ′( x ) = e − x.
Pelo item (a) g′(x) > 0 para todo x ≥ 0. Assim, g (x)é estritamente
crescente em [0, +∞[; como g (0) = 1, segue que para todo x ≥ 0
c) Pelo item (b), para todo x > 0
Como resulta
Para x x → +∞, e tende a +∞ mais rapidamente que x.
Vamos mostrar, a seguir, que, x para x → +∞, e tende a +∞ mais
rapidamente que qualquer potência de x.
Seja α > 0 um real dado. Observamos que
Temos, agora,
Assim,
Para x x → +∞, e tende a +∞ mais rapidamente que qualquer potência de x.
Exemplo 7
Suponha g derivável no intervalo aberto I = ]p, q[, com g′(x) > 0 em I, e
tal que Nestas condições, prove que, para todo x em I, tem-
se g (x) > 0.
Solução
Consideremos a função G, definida em [p, q[ e dada por
Como g é derivável no intervalo aberto I, g é contínua neste intervalo.
Logo, G é, também, contínua em I. Por outro lado
ou seja, G é contínua em p = 0. Logo, G é contínua em [p, q[. Para x ∈ I,
G′(x) = g′(x) > 0. De G (p) = 0, segue G (x) > 0 para todo x ∈ I, ou seja,
g (x) > 0 para todo x ∈ I.
Na Seção 9.4, vamos estabelecer as regras de L’Hospital, que são
ferramentas poderosas e que se aplicam ao cálculo de limites que apresentam indeterminações dos tipos Para demonstrar tais regras, vamos precisar
dos dois exemplos que apresentaremos a seguir.
Exemplo 8
Sejam f e g duas funções deriváveis no intervalo aberto I = ]p, q[, com g′
(x) > 0 em I, e tais que
Suponha, ainda, que existam constantes α e β tais que, para todo
Nestas condições, mostre que, para todo x em I,
tem-se, também,
Solução
Pelo exemplo anterior, temos, para todo x ∈ I, g(x) > 0. Por outro lado,
para todo x em I,
Segue que, para todo x em I,
para todo x em I. Logo, para todo x em I,
Exemplo 9
Sejam f e g deriváveis no intervalo aberto I = ]m, p[, com g′(x) > 0 em I,
e tais que
Suponha, ainda, que existam constantes α e β tais que, para todo x em I,
Nestas condições, mostre que existem constantes M, N e
s, com s ∈ ]m, p[, tais que, para todo x ∈ ]s, p[,
Solução
De segue que existe s ∈ ]m, p[tal que, para todo x ∈ ]s,
p[, tem-se g (x) > 0. Por outro lado, para todo x ∈ I, tem-se
e
Segue que, para todo x ∈ ]s, p[, tem-se
e
Fazendo M = f(s) − αg (s), N = f(s) − βg (s) e lembrando que g (x) > 0 em
I, resulta, para todo x ∈ ]s, p[,
Exercícios 9.2
1. Determine os intervalos de crescimento e de decrescimento e esboce o
gráfico (calcule para isto todos os limites necessários).
2. 3 2 Prove que a equação x − 3 x + 6 = 0 admite uma única raiz real.
Determine um intervalo de amplitude 1 que contenha tal raiz.
3. 3 2 Prove que a equação x + x − 5x + 1 = 0 admite três raízes reais
distintas. Localize tais raízes.
4. Determine a, para que a equação
x 3 2 + 3 x − 9x + a = 0
admita uma única raiz real.
5. Calcule.
6. Determine os intervalos de crescimento e de decrescimento e esboce o
gráfico (para isto, calcule todos os limites necessários).
7. Seja
a) Calcule f′(0), pela definição
b) Determine f′
c) Esboce o gráfico, calculando, para isto, todos os limites necessários
8. n Seja n ≥ 2 um natural dado. Prove que x − 1 ≥ n(x − 1) para todo x ≥ 1.
( n Sugestão : Verifique que f ( x ) = [ x − 1] − n(x − 1) é estritamente crescente em [1, +∞[.)
9. Prove que, para todo x > 0, tem-se
10. Mostre que, para todo x > 0, tem-se
11. Mostre que, para todo x > 0, tem-se
(Sugestão: Utilize o item (b) do Exercício 10 e o item (a) acima.)
12.
a) Mostre que, para todo x > 0,
b) Mostre que, para todo x ≠ 0,
Generalize tal resultado.
13. Suponha que f tenha derivada contínua no intervalo I e que f′ nunca se
anula em I. Prove que f é estritamente crescente em I ou estritamente decrescente em I.
14. Seja
a) Verifique que f′ é contínua em R
b) Verifique que f′(x) ≠ 0 em R
c) Tendo em vista que f′(0) > 0, conclua que f é estritamente crescente
(Sugestão: Veja Exercício 13.)
15. Seja f uma função tal que f′′′(x) > 0 para todo x em ]a, b[. Suponha que
existe c em ]a, b[tal que f′′(c) = f′(c) = 0. Prove que f é estritamente crescente em ]a, b[.
16. Suponha f derivável no intervalo aberto I. Prove que, se f for estritamente
crescente em I, então f′(x) ≥ 0 para todo x em I.
17. Suponha f derivável no intervalo I. A afirmação: “f é estritamente
crescente em I se e somente se f′(x) > 0 em I ” é falsa ou verdadeira? Justifique.
18. Suponha f derivável no intervalo I. Prove: f crescente em I ⇔ f′(x) ≥ 0 em
I.
(Lembrete: f se diz crescente em I se quaisquer que sejam s e t em I, s < t ⇒ f(s) ≤ f(t).)