Um Curso de Cálculo, Volume 1
17.2 Pascal e o Cálculo de Áreas
que é contradição, pois para todo n
Prova da Segunda Etapa.
suponhamos, agora, . Das propriedades I e II acima, existe um
natural n tal que
e, portanto,
Segue que
que é uma contradição.
Se a área do segmento parabólico não pode ser maior e tampouco menor
que , resulta que tal área é exatamente . Em consequência, a área da
região limitada pela parábola 2 y = x , 0 ≤ x ≤ b, pelo eixo x e pela reta x = b é .
17.2 Pascal e o Cálculo de Áreas Pela fórmula de Arquimedes para a área de um segmento de parábola, segue, como vimos na seção anterior, que a área da região limitada pela curva 2 y = x , 0 ≤ x ≤ b, pelo eixo x e pela reta x = b é . Passados quase
dois mil anos dessa descoberta de Arquimedes, Bonaventura Cavalieri (1598-1647) interessou-se pelo cálculo da área da região limitada pela curva k y = x , 0 ≤ x ≤ b, pelo eixo x e pela reta x = b, com k ≥ 3 e natural. Utilizando o seu método dos indivisíveis, Cavalieri provou, para k de 3 até 9, a fórmula para a área de tal região e afirmou que a fórmula era
válida para todo k. Nesta seção, utilizando as ideias de Blaise Pascal (1623-1662), vamos mostrar como chegar rapidamente e de forma maravilhosa a esta fórmula, e na próxima seção veremos como Fermat brincou com esse problema.
Para se chegar à fórmula, divide-se o intervalo [0, b] em n partes iguais
e considera-se a soma S (n) das áreas dos retângulos de base e altura
, para i = 1, 2, …, n (veja a figura abaixo).
E, portanto,
Indicando por k k k k S a soma 1 + 2 + 3 + … + n , resulta
k
Para resolver o problema, basta determinar o limite de para n
tendendo a +∞. E isto se faz utilizando a identidade de Pascal, que estabelece uma relação entre as somas S , S , …, S e que será obtida a 1 2 k
seguir (veja p. 266 da referência bibliográfica 2 deste capítulo).
Primeiro, vamos relembrar a fórmula para o desenvolvimento do
binômio de Newton. Chamamos de binômio de Newton a expressão (A + B k ) . Observamos que, no tempo de Pascal, tal expressão não era, ainda, conhecida como binômio de Newton; aliás, na época em que Pascal estava pensando nesse assunto, Newton deveria estar com mais ou menos 12 anos de idade. Temos
e, de modo geral,
em que é o coeficiente binominal de ordem (k, p) e é dado por
Observamos que nada mais é do que o número de combinações de k
elementos tomados p a p. No final da seção, utilizando o princípio de indução finita, que foi praticamente estabelecido por Pascal (veja p. 265 da referência bibliográfica 2 deste capítulo), provaremos a fórmula para o desenvolvimento do binômio de Newton.
Para obter a identidade de Pascal, vamos trocar k por k + 1, fazer B = 1,
substituir A sucessivamente por 1, 2, 3, …, n e, em seguida, somar membro a membro as igualdades obtidas.
Somando membro a membro as igualdades acima e observando que (1 + 1) k + 1 k + 1 k + 1 na primeira linha e 2 , (2 + 1) (ambos na segunda linha) e 3 k + 1 k + 1 k + 1 na terceira linha, …, (( n − 1) + 1) na penúltima linha e n na última linha podem ser cancelados, resulta
que é a identidade obtida por Pascal.
Da identidade anterior segue que, para k = 1,
e, portanto (lembrando que ,
Para k = 2,
E assim por diante.
Logo, S é um polinômio de grau 2 na variável n. Observe que S 1 1
nada mais é do que a soma da progressão aritmética 1, 2, 3, …, n. Como S 1 é do grau 2, pela identidade acima, S será do grau 3 na variável n. Fica a 2 seu cargo verificar que S é um polinômio de grau 4 na variável n e, de 3
modo geral, S é um polinômio de grau k + 1 na variável n. Esta k
observação sobre o grau de S será fundamental no cálculo do limite de k
para n tendendo a infinito, e é esta observação que, para mim, torna
lindo o método de Pascal. Espero que você concorde comigo! Vamos, então, ao cálculo do limite mencionado acima.
Primeiro, vamos dividir os dois membros da identidade de Pascal por
n k + 1 . Temos
De
segue que
Como os graus de S , S , …, S e S são, respectivamente, k, k − k − 1 k − 2 2 1 1, …, 3 e 2, e o grau de k + 1 n é k + 1, segue que o limite, para n tendendo para infinito, de
é zero. (Você concorda?) Como , resulta
Conclusão:
Observamos que S (n) é uma aproximação por excesso da área da região
limitada pela curva k y = x , 0 ≤ x ≤ b, pelo eixo x e pela reta x = b. Por outro lado, (veja a figura abaixo) é uma aproximação por falta da área em questão. Procedendo-se de forma análoga, prova-se que
Fica assim estabelecida, pelo método de Pascal, a fórmula para o
cálculo da área acima mencionada.
A seguir, utilizando o princípio de indução finita, vamos provar a
fórmula para o desenvolvimento do binômio de Newton. Antes porém vamos estabelecer tal princípio. No que se segue, P (k) indicará uma proposição (que pode ser falsa ou verdadeira) associada ao natural k. Por exemplo,
são proposições associadas ao natural k. Qual o menor número possível de condições que devemos impor a P (k) para que P (k) seja verdadeira para todo natural k ≥ a (a natural)? Evidentemente, a primeira condição a impor é que P (k) seja verdadeira para k = a. Suponhamos, além disso, que para todo k ≥ a
P (k) ⇒ P (k + 1).
Sendo então P (a) verdadeira e como
P (a) ⇒ P (a + 1),
resulta que P (a + 1) será também verdadeira.
P (a + 1) ⇒ P (a + 2)
logo, P (a + 2) também será verdadeira. Prosseguindo com este raciocínio, é razoável que se conclua que P (k) seja verdadeira para todo k ≥ a. Quem nos garante que isto realmente acontece é o princípio de indução finita, cujo enunciado é o seguinte:
Princípio de indução nita (PIF). Sejam a um número natural dado e P (k) uma proposição associada a cada natural k, k ≥ a. Suponhamos que
(i) P (k) seja verdadeira para k = a; (ii) para todo natural k ≥ a
P (k) ⇒ P (k + 1).
Nestas condições, P (k) será verdadeira para todo natural k ≥ a.
Para a prova da fórmula do desenvolvimento do binômio de Newton,
vamos precisar, ainda, da seguinte propriedade dos coeficientes binomiais
e cuja verificação deixamos a seu cargo. Vamos então à prova de que para todo natural k, k ≥ 2, P (k) é verdadeira em que P (k) é a proposição
Para k = 2 a fórmula é verdadeira, pois,
Provemos então que P (k) ⇒ P (k + 1). Para isto, basta multiplicar os dois membros de P (k) por A + B. Multiplicando o segundo por A e, em seguida, por B e utilizando a propriedade dos coeficientes binomiais acima (e
lembrando que ) resulta:
cuja soma é exatamente o desenvolvimento do binômio de Newton (A + B k + 1 ) . Portanto, para todo k ≥ 2, P(k) ⇒ P(k + 1). Fica, assim, provada a fórmula do desenvolvimento do binômio de Newton para todo natural k, k ≥ 2.