Um Curso de Cálculo, Volume 1
7.16 Problemas Envolvendo Reta Tangente e Reta Normal ao Gráfico de uma Função
Relacione a velocidade de Q com a velocidade de P.
7.16 Problemas Envolvendo Reta Tangente e Reta
Normal ao Gráfico de uma Função
Seja f uma função derivável em p. Já vimos que, por definição, f′(p) é o coeficiente angular da reta tangente ao gráfico de f no ponto de abscissa p e que
é a equação da reta tangente em (p, f(p)).
A reta que passa por (p, f(p)), e que é perpendicular à reta tangente anterior,
denomina-se reta normal ao gráfico de f em (p, f(p)). Se f′(p) ≠ 0, a equação da reta normal no ponto de abscissa p será
Lembrete. Você aprendeu na geometria analítica que, se y = mx + n e y = m x 1 + n são retas perpendiculares, então os seus coeficientes angulares satisfazem 1
a relação
Assim, como f′(p) é o coeficiente angular da reta tangente em (p, f(p)), a
reta normal, neste ponto, terá coeficiente angular desde que f′(p) ≠ 0.
Se f′(p) = 0, a equação da reta normal em (p, f(p)) será x = p.
Exemplo 1
Seja 2 f ( x ) = x − x. Determine as equações das retas tangente e normal no
ponto de abscissa 0.
Solução
Reta tangente no ponto de abscissa 0:
y − f(0) = f′(0)(x − 0)
Substituindo na equação acima vem
y − 0 = −1(x − 0) ou y = −x.
Assim, y = −x é a equação da reta tangente ao gráfico de f no ponto de
abscissa 0.
Reta normal no ponto de abscissa 0:
Como f(0) = 0 e f′(0) = −1, resulta
y = x
que é a equação da reta normal no ponto de abscissa 0.
Exemplo 2
Seja f(x) = 2x + 1. Determine a equação da reta tangente ao gráfico de f
no ponto de abscissa 3.
Solução
A equação da reta tangente em (3, f(3)) é:
y − f(3) = f′(3)(x − 3)
Assim, y − 7 = 2(x − 3) ou y = 2x + 1, é a equação da reta tangente
em (3, f(3)). Observe que a reta tangente ao gráfico de f em (3, f(3))
coincide com o gráfico de f!!
Observação. A nossa de nição de reta tangente não exige que a reta tangente “toque” a curva em um único ponto.
Exemplo 3
r 3 é uma reta que passa por (1, −1) e é tangente ao gráfico de f ( x ) = x −
x. Determine r.
Solução
Supondo que r seja tangente ao gráfico de f em (p, f(p)), a equação de r
será
y − f(p) = f′(p)(x − p)
e, portanto, 3 2 y − p + p = (3 p − 1)(x − p). O problema, agora, consiste
em achar p. Como r passa por (1, −1) (observe: x = 1 ⇒ y = −1)
−1 − 3 2 p + p = (3 p − 1)(1 − p)
ou
2 3 2 p − 3 p = 0
e, assim, p = 0 ou p = . Portanto, a equação de r será
ou seja,
Pelo ponto (1, −1) passam duas retas que são tangentes ao gráfico de
f.
Exemplo 4
Determine a equação da reta tangente ao gráfico de 2 f ( x ) = x + 3x e
paralela à reta y = 2x + 3.
Solução
Supondo que a reta procurada seja tangente ao gráfico de f no ponto de
abscissa p, sua equação será
y − f(p) = f′(p)(x − p).
Pela condição de paralelismo, devemos ter
f′(p) = 2 ou 2p + 3 = 2
e, portanto, p = . A equação da reta pedida será então
ou
ou seja,
Exercícios 7.16
1. Determine as equações das retas tangente e normal ao gráfico da função
dada, no ponto dado.
2. 2 Seja f ( x ) = x . Determine a equação da reta que é tangente ao gráfico de f
e paralela à reta y = x + 3.
3. 3 Sabe-se que r é uma reta tangente ao gráfico de f ( x ) = x + 3x e paralela à
reta y = 6x − 1. Determine r.
4. Determine a equação da reta que é perpendicular à reta 2y + x = 3 e
tangente ao gráfico de 2 f ( x ) = x − 3x.
5. Sabe-se que r é uma reta perpendicular à reta 3x + y = 3 e tangente ao
gráfico de 3 f ( x ) = x . Determine r.
6. 2 A reta s passa pelo ponto (3, 0) e é normal ao gráfico de f ( x ) = x no
ponto (a, b).
a) Determine (a, b).
b) Determine a equação de s.
7. Sabe-se que r é uma reta que passa pela origem e que é tangente ao gráfico
de 3 2 f ( x ) = x + 2 x − 3x. Determine r.
8. 4 3 2 Determine todos os pontos ( a , b ) sobre a curva y = x + 2 x − 2 x + 8x
+ 12 tais que a reta tangente em (a, b) seja paralela à reta 8x − y + π = 0. 9. Determine todos os pontos (a, b) sobre o gráfico da função dada por y =
4 3 2 x + x − 4x − 1 tais que a reta tangente em (a, b) seja paralela ao eixo x.
10. Sabe-se que r é uma reta que passa pelo ponto (0, 2) e que é tangente ao
gráfico de 3 f ( x ) = x . Determine r.
11. Determine a equação de uma reta, não vertical, que passa pelo ponto
e que seja normal ao gráfico de 3 y = x .
12. 2 Determine todos os pontos ( a , b ) de R tais que por (a, b) passem duas
retas tangentes ao gráfico de 2 f ( x ) = x .
13. 2 Sejam A e B os pontos em que o gráfico de f ( x ) = x − αx, α real,
intercepta o eixo x. Determine α para que as retas tangentes ao gráfico de f, em A e em B, sejam perpendiculares.
14. 3 Determine β para que y = βx − 2 seja tangente ao gráfico de f ( x ) = x − 4x.
15. 2 Sabe-se que r é uma reta tangente aos gráficos de f ( x ) = − x e de g(x) =
+ 2 x . Determine r.
Exercícios do Capítulo
1. Calcule, pela definição, a derivada da função dada, no ponto dado.
i) x y = x em p = 1 (Sugestão: Veja Exemplo 3-6.3.)
2. Calcule a derivada
3. Expresse em termos de x e de y, em que y = y(x) é uma função
derivável, dada implicitamente pela equação dada.
a) 3 y + sen xy = 1
b) y e + xy = x
c) x 2 y + x = y
d) x cos y + y cos x = 2
4. Seja y = f(x) definida e derivável num intervalo contendo 1 e suponha que f
seja dada implicitamente pela equação 3 2 y + x y = 130. Determine as equações das retas tangente e normal ao gráfico de f, no ponto de abscissa 1.
5. Determine uma reta que seja paralela a x + y = 1 e que seja tangente à
curva 2 2 x + xy + y = 3.
6. 2 2 Determine uma reta que seja tangente à elipse x + 2 y = 9 e que
intercepta o eixo y no ponto de ordenada .
7.
Mostre que a reta é tangente à curva no
ponto (x , y ). 0 0
Determine uma reta paralela a 3 3 x + y = 1 e tangente à curva y + xy + x =
8. 0 em um ponto (x , y ), com x < 0 e y < 0. 0 0 0 0
9. Os lados x e y de um retângulo estão variando a taxas constantes de 0,2
m/s e 0,1 m/s, respectivamente. A que taxa estará variando a área do retângulo no instante em que x = 1 m e y = 2 m?
10. A altura h e o raio r da base de um cone circular reto estão variando a
taxas constantes de 0,1 m/s e 0,3 m/s, respectivamente. A que taxa estará variando o volume do cone no instante em que h = 0,5 m e r = 0,2 m?
11. O volume V e o raio r da base de um cone circular reto estão variando a
taxas constantes de 0,1 π m 3 /s e 0,2 m/s, respectivamente. Expresse
em termos de r e h, em que h é a altura do cone.
12. Num determinado instante, as arestas de um paralelepípedo medem a, b, c
(m) e, neste instante, estão variando com velocidades v , v e v (m/s), a b c respectivamente. Mostre que neste instante o volume do paralelepípedo estará variando a uma taxa de 3 v bc + av c + abv (m /s).
a b c
13. O raio r e a altura h de um cilindro circular reto estão variando de modo a
manter constante o volume V. Num determinado instante h = 3 cm e r = 1 cm e, neste instante, a altura está variando a uma taxa de 0,2 cm/s. A que taxa estará variando o raio neste instante?
14. Uma piscina tem 10 m de largura, 20 m de comprimento, 1 m de
profundidade nas extremidades e 3 m no meio, de modo que o fundo seja formado por dois planos inclinados. Despeja-se água na piscina a uma taxa de 0,3 m 3 /min. Seja h a altura da água em relação à parte mais profunda. Com que velocidade h estará variando no instante em que h = 1 m?
15. Num determinado instante e está variando, neste instante, a uma
taxa de 0,01 radiano por segundo (veja figura). A que taxa estará variando o ângulo α neste instante?
16. Com relação ao exercício anterior, supondo em
termos de θ e
17. 2 2 Considere as funções dadas por y = ax e y = − x + 1. Determine a para
que os gráficos se interceptem ortogonalmente. (Os gráficos se
interceptam ortogonalmente em (x , y ) se as retas tangentes aos 0 0 gráficos, neste ponto, forem perpendiculares.)
18. 2 2 2 2 Determine a para que as circunferências x + y = 1 e ( x − a ) + y = 1
se interceptem ortogonalmente.
19. 2 2 2 Mostre que, para todo a , as curvas y = ax e x + 2 y = 1 se interceptam
ortogonalmente.
20. 2 2 Suponha f : R → R derivável e considere a função dada por y = x f ( x +
1).
21. 2 Seja ϕ a função dada por ϕ ( x ) = x + 1. Calcule.
a) ϕ′(ϕ(x))
b) (ϕ(ϕ(x)))′
22. Calcule ϕ′(ϕ(x)) sendo ϕ dada por
a) ϕ(x) = sen x
c) 2 ϕ ( x ) = ln( x + 1)
23. Para cada ϕ do exercício anterior, calcule (ϕ(ϕ(x)))′.
24. Dê exemplos de funções ϕ que satisfazem a condição ϕ′(ϕ(x)) = (ϕ(ϕ(x)))′,
para todo x no domínio de ϕ.
25. Considere uma partícula que se desloca sobre o eixo x com função de
posição x = cos 3t.
a) Verifique que a aceleração é proporcional à posição.
b) Calcule a aceleração no instante em que a partícula se encontra na
posição x = .
26. Considere uma partícula que se desloca sobre o eixo x com função de
posição
a) Verifique que a aceleração é proporcional ao cubo da posição.
b) Qual a aceleração no instante em que a partícula se encontra na
posição 27. a Seja f : R → R derivável até a 2 ordem e seja h dada por h(t) = f(cos 3t).
a) Expresse h′′(t) em termos de t, f′(cos 3t) e de f′′(cos 3t).
28. Suponha que y = y(t) seja uma função derivável tal que para todo t no seu
domínio
29. Seja y = y(x) definida e derivável num intervalo I e tal que, para todo x em
I, = x + sen y.
30. a Seja f : R → R derivável até a 2 ordem e tal que, para todo x,
f′′(x) + 4 f(x) = 0.
Mostre que, para todo x,
31. a Sejam f : R → R derivável até a 2 ordem e h dada por h(x) = f(f(x)).
Verifique que, para todo 2 x , h ′′( x ) = f ′′( f ( x ))( f ′( x )) + f′(f(x)) f′′(x).
32. Considere o polinômio
P 2 3 ( x ) = A + A ( x − x ) + A ( x − x ) + A ( x − x )
0 1 0 2 0 3 0
em que A , A , A , A e x são números reais fixos. Mostre que 0 1 2 3 0
33. 2 3 Considere o polinômio P ( x ) = a + a x + a x + a x em que a , a , 0 1 2 3 0 1
a e a são reais fixos. Seja x um real dado. 2 3 0
a) Mostre que existem constantes A , A , A e A tais que 0 1 2 3
P 2 3 ( x ) = A + A ( x − x ) + A ( x − x ) + A ( x − x ) .
0 1 0 2 0 3 0
(Sugestão: Faça x = (x − x ) + x .) 0 0
b) Conclua que
(Dizemos que a é o desenvolvimento de Taylor do polinômio P(x) em potências de x − x .) 0
34. 3 Determine o desenvolvimento de Taylor de P ( x ) = x + 2x + 3, em
potências de (x − 1).
35. Generalize o resultado do Exercício 33.
36. 4 2 Determine o desenvolvimento de Taylor de P ( x ) = x − 3 x + x + 1 em
potências de
a) x − 2
b) x + 1
37. Sejam P(x) e Q(x) polinômios tais que P(x ) = 0, Q (x ) = 0 e Q′(x ) ≠ 0. 0 0 0
Mostre que
(Sugestão: Desenvolva P(x) e Q(x) em potências de x − x e simplifique.) 0
38. Sejam P(x) e Q(x) polinômios tais que P(x ) = P′(x ) = 0, Q(x ) = Q′ 0 0 0
(x ) = 0 e Q′′(x ) ≠ 0. Mostre que Generalize. 0 0
39. Utilizando os Exercícios 37 e 38, calcule.
40. Sejam f e g deriváveis em p e tais que f(p) = g(p) = 0. Supondo g′(p) ≠ 0,
mostre que
41. Utilizando o Exercício 40, calcule.
42. Seja f definida em R e derivável em p. Suponha f′(p) > 0. Prove que existe
r > 0 tal que
f(x) > f(p) em ]p, p + r[
e
f(x) < f(p) em ]p − r, p[.
(Sugestão: Lembre-se da definição de derivada e utilize a conservação do sinal.)
43. Seja f definida e derivável em R e sejam a e b raízes consecutivas de f.
Mostre que
f′(a) · f′(b) ≤ 0.
44. Suponha f derivável no intervalo I. Prove que se f for estritamente
crescente em I, então f′(x) ≥ 0 em I.
45. Suponha f derivável em [a, b] e tal que f′(a) · f′(b) < 0. Prove que existe p
em ]a, b[tal que f(x) ≤ f(p) para todo x em [a, b] ou f(x) ≥ f(p) para todo x em [a, b]. Interprete geometricamente.
46. Suponha f derivável em [a, b] tal que f′(a) · f′(b) > 0 e f(a) = f(b). Prove
que existem x , x ∈ ]a, b[tais que, para todo x em [a, b], f(x ) ≤ f(x) ≤ 1 2 1 f(x ). Interprete geometricamente. 2
47. Seja f : R → R uma função tal que quaisquer que sejam x e t
Calcule f′(x).
48. Sejam f e g definidas em R, com g contínua em 0, e tais que, para todo x,
f(x) = xg(x). Mostre que f é derivável em 0.
49. Suponha f definida em R, derivável em 0 e f(0) = 0. Prove que existe g
definida em R, contínua em 0, tal que f(x) = xg(x) para todo x.
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17.1 Quadratura da Parábola: Método de Arquimedes
Um dos criadores do Cálculo Diferencial e Integral foi o grande matemático grego Arquimedes, que viveu no século 3 a.C. em Siracusa. Uma de suas inúmeras descobertas foi a fórmula para o cálculo da área de um segmento de parábola. Nosso objetivo aqui é obter tal fórmula seguindo o raciocínio rigoroso de Arquimedes. Vamos então considerar o segmento de parábola limitado pela parábola 2 y = x e pela corda AB.
Lembrando que em um trapézio o segmento que liga os pontos médios
dos lados não paralelos é a semissoma das bases, resulta que a ordenada de M é .
Pela figura,
Ou seja,
(OK?)
A altura do triângulo AMN em relação à base MN é m. Também, a altura do triângulo BMN em relação à base MN é m. Como
MN 2 = m
e
altura em relação à base MN = m
segue-se que a soma das áreas dos triângulos AMN e BMN é:
Portanto, a área do triângulo 3 ANB é m . Vamos destacar este resultado
Vamos então ao cálculo da área do segmento parabólico. A seguir,
suporemos A coincidindo com a origem do sistema de coordenadas.
Na figura, o valor de 3 m é b /2. Assim, a área T do triângulo ANB é ( b /2) =
b 3 /8.
A área do triângulo ANB é uma primeira aproximação para a área do
segmento parabólico ANB. Vamos melhorar esta aproximação. Vamos somar a esta área as áreas dos triângulos AN N e NN B (veja a figura a 1 2 seguir).
Observe que a soma das áreas dos triângulos AN N e NN B é 1 2
exatamente um quarto da área T do triângulo ANB.
Assim,
é uma segunda aproximação, e melhor, para o nosso segmento parabólico.
Dividindo, agora, o intervalo [0, b] em 8 partes iguais e somando-se as
áreas dos novos triângulos obtidos, verifica-se que a soma dessas novas áreas é 3 b /128, que é exatamente um quarto da área anteriormente acrescentada, que era de 3 b /32.
Assim,
é uma terceira aproximação, e melhor, para o nosso segmento parabólico.
Continuando o raciocínio acima, é razoável esperar que a fórmula para
o cálculo de tal área seja:
Então, para chegar à fórmula para a área do segmento parabólico, é só
calcular a soma da progressão geométrica infinita de primeiro termo 1 e razão que sabemos ser . (De acordo?) Só que Arquimedes não
trabalhava com limites infinitos. Para chegar à fórmula
Arquimedes primeiramente utilizou o seu MÉTODO de descoberta: verificou “por meio de uma balança” que o peso do segmento de parábola era exatamente quatro terços do triângulo ANB (veja referência
bibliográfica 1 no final do capítulo). Em seguida, admitiu que o valor da área era T e, por uma dupla redução ao absurdo, provou a sua veracidade.
É o que faremos a seguir. Temos
Continuando o raciocínio acima, obtém-se
Somando 3 aos dois membros, em seguida dividindo por 3 e por último multiplicando os dois membros por T, resulta
O objetivo é então provar que a área do segmento parabólico ANB é T. A
prova será feita em duas etapas: na primeira, prova-se que a área do segmento parabólico não pode ser menor que T, e na segunda, que a área
do segmento parabólico não pode ser maior que T. Indicando por S a área
do segmento parabólico, será provado então que S = T.
Para a prova da primeira etapa, Arquimedes utilizou o seguinte
postulado: “A diferença pela qual a maior de duas áreas excede a menor pode, sendo somada a si mesma repetidas vezes, exceder qualquer área finita dada”, cujo enunciado moderno é: “Dados os números reais x e y, com x > 0, existe um natural m tal que mx > y”, que nada mais é do que a nossa conhecida propriedade de Arquimedes.
Para a prova da segunda etapa, Arquimedes utilizou as duas seguintes
propriedades:
I. “Dadas duas grandezas distintas, se da maior subtrai-se mais que sua metade, do restante mais
que sua metade, e assim por diante, acabará restando uma grandeza menor que a menor das grandezas dadas.”
II. 2 “ A reta tangente à parábola y = x no ponto de abscissa a + m é paralela à corda de
extremidades 2 2 ( a , a ) e ( a + 2m , ( a + 2m ) ).” (Veri que.)
Observe que a área do triângulo XYZ é maior que a metade do segmento parabólico XYZ. (Você concorda?)
Prova da Primeira Etapa.
Suponhamos por absurdo que . Assim, . Pela
propriedade de Arquimedes, existe um natural n tal que
e, portanto,
Daí,
Ou seja,
que é contradição, pois para todo n
Prova da Segunda Etapa.
suponhamos, agora, . Das propriedades I e II acima, existe um
natural n tal que
e, portanto,
Segue que
que é uma contradição.
Se a área do segmento parabólico não pode ser maior e tampouco menor
que , resulta que tal área é exatamente . Em consequência, a área da
região limitada pela parábola 2 y = x , 0 ≤ x ≤ b, pelo eixo x e pela reta x = b é .
17.2 Pascal e o Cálculo de Áreas Pela fórmula de Arquimedes para a área de um segmento de parábola, segue, como vimos na seção anterior, que a área da região limitada pela curva 2 y = x , 0 ≤ x ≤ b, pelo eixo x e pela reta x = b é . Passados quase
dois mil anos dessa descoberta de Arquimedes, Bonaventura Cavalieri (1598-1647) interessou-se pelo cálculo da área da região limitada pela curva k y = x , 0 ≤ x ≤ b, pelo eixo x e pela reta x = b, com k ≥ 3 e natural. Utilizando o seu método dos indivisíveis, Cavalieri provou, para k de 3 até 9, a fórmula para a área de tal região e afirmou que a fórmula era
válida para todo k. Nesta seção, utilizando as ideias de Blaise Pascal (1623-1662), vamos mostrar como chegar rapidamente e de forma maravilhosa a esta fórmula, e na próxima seção veremos como Fermat brincou com esse problema.
Para se chegar à fórmula, divide-se o intervalo [0, b] em n partes iguais
e considera-se a soma S (n) das áreas dos retângulos de base e altura
, para i = 1, 2, …, n (veja a figura abaixo).
E, portanto,
Indicando por k k k k S a soma 1 + 2 + 3 + … + n , resulta
k
Para resolver o problema, basta determinar o limite de para n
tendendo a +∞. E isto se faz utilizando a identidade de Pascal, que estabelece uma relação entre as somas S , S , …, S e que será obtida a 1 2 k
seguir (veja p. 266 da referência bibliográfica 2 deste capítulo).
Primeiro, vamos relembrar a fórmula para o desenvolvimento do
binômio de Newton. Chamamos de binômio de Newton a expressão (A + B k ) . Observamos que, no tempo de Pascal, tal expressão não era, ainda, conhecida como binômio de Newton; aliás, na época em que Pascal estava pensando nesse assunto, Newton deveria estar com mais ou menos 12 anos de idade. Temos
e, de modo geral,
em que é o coeficiente binominal de ordem (k, p) e é dado por
Observamos que nada mais é do que o número de combinações de k
elementos tomados p a p. No final da seção, utilizando o princípio de indução finita, que foi praticamente estabelecido por Pascal (veja p. 265 da referência bibliográfica 2 deste capítulo), provaremos a fórmula para o desenvolvimento do binômio de Newton.
Para obter a identidade de Pascal, vamos trocar k por k + 1, fazer B = 1,
substituir A sucessivamente por 1, 2, 3, …, n e, em seguida, somar membro a membro as igualdades obtidas.
Somando membro a membro as igualdades acima e observando que (1 + 1) k + 1 k + 1 k + 1 na primeira linha e 2 , (2 + 1) (ambos na segunda linha) e 3 k + 1 k + 1 k + 1 na terceira linha, …, (( n − 1) + 1) na penúltima linha e n na última linha podem ser cancelados, resulta
que é a identidade obtida por Pascal.
Da identidade anterior segue que, para k = 1,
e, portanto (lembrando que ,
Para k = 2,
E assim por diante.
Logo, S é um polinômio de grau 2 na variável n. Observe que S 1 1
nada mais é do que a soma da progressão aritmética 1, 2, 3, …, n. Como S 1 é do grau 2, pela identidade acima, S será do grau 3 na variável n. Fica a 2 seu cargo verificar que S é um polinômio de grau 4 na variável n e, de 3
modo geral, S é um polinômio de grau k + 1 na variável n. Esta k
observação sobre o grau de S será fundamental no cálculo do limite de k
para n tendendo a infinito, e é esta observação que, para mim, torna
lindo o método de Pascal. Espero que você concorde comigo! Vamos, então, ao cálculo do limite mencionado acima.
Primeiro, vamos dividir os dois membros da identidade de Pascal por
n k + 1 . Temos
De
segue que
Como os graus de S , S , …, S e S são, respectivamente, k, k − k − 1 k − 2 2 1 1, …, 3 e 2, e o grau de k + 1 n é k + 1, segue que o limite, para n tendendo para infinito, de
é zero. (Você concorda?) Como , resulta
Conclusão:
Observamos que S (n) é uma aproximação por excesso da área da região
limitada pela curva k y = x , 0 ≤ x ≤ b, pelo eixo x e pela reta x = b. Por outro lado, (veja a figura abaixo) é uma aproximação por falta da área em questão. Procedendo-se de forma análoga, prova-se que
Fica assim estabelecida, pelo método de Pascal, a fórmula para o
cálculo da área acima mencionada.
A seguir, utilizando o princípio de indução finita, vamos provar a
fórmula para o desenvolvimento do binômio de Newton. Antes porém vamos estabelecer tal princípio. No que se segue, P (k) indicará uma proposição (que pode ser falsa ou verdadeira) associada ao natural k. Por exemplo,
são proposições associadas ao natural k. Qual o menor número possível de condições que devemos impor a P (k) para que P (k) seja verdadeira para todo natural k ≥ a (a natural)? Evidentemente, a primeira condição a impor é que P (k) seja verdadeira para k = a. Suponhamos, além disso, que para todo k ≥ a
P (k) ⇒ P (k + 1).
Sendo então P (a) verdadeira e como
P (a) ⇒ P (a + 1),
resulta que P (a + 1) será também verdadeira.
P (a + 1) ⇒ P (a + 2)
logo, P (a + 2) também será verdadeira. Prosseguindo com este raciocínio, é razoável que se conclua que P (k) seja verdadeira para todo k ≥ a. Quem nos garante que isto realmente acontece é o princípio de indução finita, cujo enunciado é o seguinte:
Princípio de indução nita (PIF). Sejam a um número natural dado e P (k) uma proposição associada a cada natural k, k ≥ a. Suponhamos que
(i) P (k) seja verdadeira para k = a; (ii) para todo natural k ≥ a
P (k) ⇒ P (k + 1).
Nestas condições, P (k) será verdadeira para todo natural k ≥ a.
Para a prova da fórmula do desenvolvimento do binômio de Newton,
vamos precisar, ainda, da seguinte propriedade dos coeficientes binomiais
e cuja verificação deixamos a seu cargo. Vamos então à prova de que para todo natural k, k ≥ 2, P (k) é verdadeira em que P (k) é a proposição
Para k = 2 a fórmula é verdadeira, pois,
Provemos então que P (k) ⇒ P (k + 1). Para isto, basta multiplicar os dois membros de P (k) por A + B. Multiplicando o segundo por A e, em seguida, por B e utilizando a propriedade dos coeficientes binomiais acima (e
lembrando que ) resulta:
cuja soma é exatamente o desenvolvimento do binômio de Newton (A + B k + 1 ) . Portanto, para todo k ≥ 2, P(k) ⇒ P(k + 1). Fica, assim, provada a fórmula do desenvolvimento do binômio de Newton para todo natural k, k ≥ 2.
17.3 Fermat e o Cálculo de Áreas
Vejamos como Pierre de Fermat (1601-1665) obteve a fórmula para o
cálculo da área limitada pela curva k y = x , 0 ≤ x ≤ b, pelo eixo x e pela reta x = b, k natural. Fermat procedeu da seguinte forma: considerou um número E, como 0 < E < 1, e dividiu o intervalo ]0, b] em infinitos subintervalos da forma
…, [ i i − 1 3 2 2 bE , bE ], …, [ bE , bE ], [ bE , bE], [bE, b].
Observe que 2 3 i − 1 i b , bE , bE , bE , …, bE , bE , … é uma progressão geométrica de razão i E e que E tende a zero para i tendendo a infinito, pois 0 < E < 1.
A área do retângulo i i − 1 i − 1 k R dado por bE ≤ x ≤ bE , 0 ≤ y ≤ ( bE ) é
i
área i − 1 k k (i − 1) k + 1 k + 1 i − 1 R = bE (1 − E ) b E = b (1 − E ) ( E ) , i = 1,
i
2, 3, …
Segue que as áreas dos retângulos R formam uma progressão geométrica i de primeiro termo k + 1 k + 1 b (1 − E ) e razão E . Antes de prosseguir, vamos relembrar as fórmulas para as somas dos termos da progressão geométrica finita e infinita de razão q e primeiro termo 1:
(verifique por indução finita) e para 0 < q < 1
Fazendo k + 1 q = E , a soma das áreas dos retângulos R é
i
De
resulta
Observamos que a soma das áreas dos retângulos é uma aproximação por excesso da área da região em questão e que quanto mais próximo de 1 estiver E melhor será a aproximação. Para E tendendo a 1 (em verdade, Fermat simplesmente substituiu E por 1 na soma acima), a soma acima tenderá a . Nada mudaria se em vez de considerarmos aproximação
por excesso considerássemos aproximação por falta.
Você gostou? Se gostou mesmo, verifique que o método de Fermat
continua válido mesmo quando k é um número racional! Mas se você gostou muito mesmo, utilizando a progressão geométrica 1, 2 3 E , E , E , …, com E > 1, e supondo k natural, k ≥ 2, mostre que a área da região limitada pelo gráfico de , pelo eixo x e pela reta x = 1 é dada pela
fórmula .
Bem, por volta de 1670, Sir Isaac Newton (1642-1727) já estava
calculando a área sob a curva m /n y = ax , para x de 0 a x, utilizando a primitiva da função. O Teorema Fundamental do
Cálculo estava nascendo, e o Cálculo Diferencial e Integral, nas mãos de Newton, se consolidando. (Veja referência bibliográfica 2, abaixo, p. 290.)
Referências Bibliográficas
1. Ávila, Geraldo, Arquimedes, o Rigor e o Método (1986), Matemática
Universitária da Sociedade Brasileira de Matemática, Número 4, 27-45.
2. Boyer, Carl B.; Uta C. Merzbach. História da Matemática, Tradução de
Helena Castro. São Paulo: Blucher, 2012.
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