Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Christopher Buehlman · Capítulo 1 de 134

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Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Prólogo

O velho caminha do casebre até a varanda atrás, segurando o copo de

uísque e remexendo o gelo. Uma gota d’água pinga de seu dedo e cai na

cabeça do vira-lata com um quê de beagle perto de seus pés, distraindo o

cachorro que para e se abaixa, quase levando o velho a tropeçar. Ele diz

palavrões em um russo que poderia ser vociferado por Khrushchov e

então se desculpa no tom dos mais doces poemas de Pushkin. O cão

balança o rabo meio desanimado, mas caminha para a direita, a fim de

não ser chutado pelo dono. Como os pontapés não são frequentes nem

tão fortes, ele escapa devagar, evitando o chute. Um bom observador

perceberia como a interação é harmônica entre os dois, como uma dança

bem realizada por cada um.

Mas ninguém observa o velho e o animal.

Ainda não.

O homem dá um gole no uísque e se senta de frente ao pôr do sol.

O cachorro se encolhe a seus pés e começa uma caçada com

resmungos e mastigações a uma pulga que o mordeu perto da base de

seu rabo.

— Mate essa merda — diz o homem com um rosnado eslavo jovial,

coçando a parte inferior do mamilo esquerdo em solidariedade.

O sol já havia realizado seu mergulho noturno em câmera lenta para

dentro do lago Ontário: desceu atrás de seu véu azul como uma bola de

vidro derretido, de um modo tão lindo que um homem na praia

Fairhaven, uma cidade a oeste, decidiu pedir a namorada de menos de

seis meses em casamento e um grupo de atores na ribanceira McIntyre,

perto do santuário de aves a menos de dois quilômetros dali,

interrompeu o ensaio do dia e começou a aplaudir. Agora, o pós-

espetáculo está sendo finalizado: a superfície do lago voltou a assumir

uma cor brilhante, semelhante a madrepérola, um tom impossível de ser

reproduzido com aquarela, um tom de prata arroxeado e efêmero que nem mesmo a Kodak, cuja grande sede fica a uma hora dali, na cinzenta

Rochester, conseguiria copiar.

O vizinho mais próximo do velho russo, um ex-professor de religião

comparada que mora em um casebre quase idêntico ao dele, a cerca de

cem metros da montanha, disse, certa vez:

— Esse pôr do sol foi classificado o segundo mais bonito do mundo.

— Classificado? Quem classifica um pôr do sol? — perguntara o

russo.

— Os fotógrafos da National Geographic.

— Ah — anuíra ele, fazendo um bico e assentindo.

O professor, que tem um contrato de aluguel longo, pois está

realizando uma magnum opus ateísta, adora compartilhar esse

conhecimento com outros visitantes para vê-los primeiro rejeitar e então

aceitar a ideia de que um pôr do sol pode ser categorizado. Como havia

se sentido desapontado porque o russo não fez a pergunta que costumava

vir em seguida, respondeu mesmo assim.

— O pôr do sol mais bonito acontece no Mar do Japão, voltado para a

Rússia.

Agora, o lago espalha tinta de polvo sob o céu, como um hematoma

luminoso. O russo quer um cigarro, mas é um desejo fraco, que só surge

quando ele bebe e desaparece se ignorado. Ele olha para o cão, para a

parte branca de sua cara, que se destaca da preta e do corpo marrom

como uma máscara de fantasma de plástico barata.

— Vá buscar um maço de Marlboro, Gasparzinho. Gasparzinho, o

fantasminha filho da puta.

Ele pensa na esposa.

Ela dera o nome de Gasparzinho ao cão. Ela havia feito o marido

parar de fumar e o ensinado a dizer filho da puta corretamente,

separando e enfatizando o puta, quando antes ele sempre dizia as

palavras juntas com ênfase no filho.

Essa vontade de uma mulher morta será mais difícil de afastar do que

a vontade de nicotina.

Que problema!

A noite está linda demais para se entregar à melancolia de novo.

Talvez o professor concorde em jogar uma partida de xadrez? Essa ideia

faz com que se sinta entediado: aquele homem sabe conversar, mas não

consegue perceber uma armadilha, é preguiçoso demais para pensar

além de dois lances e não sabe nada sobre poupar esforço — fala sem

parar sobre os Upanixades ou sobre a estupidez de cristãos evangélicos e

avança os peões longe demais. Sem falar que a luz brilha em sua careca,

em sua barba cheia ortodoxa, e que ele cruza e descruza as pernas

dizendo “huh” como se estivesse surpreso ao ver que o centro do

tabuleiro, que pensou ter dominado, está se transformando em um

matadouro.

Além disso, o velho está aproveitando a brisa da noite e não está a

fim de ir a lugar algum.

Pensa em ligar o computador e procurar uma companhia, mas a

conexão é lenta, para dizer o mínimo, e esperar até que as fotos do site

de acompanhantes carreguem seria um calvário. Além do mais, depois

de escolher uma, supondo que possa convencê-la a participar de um

encontro em cima da hora num local distante e com um cliente

desconhecido, ela terá de vir de Syracuse ou Rochester, o que demoraria

duas horas, talvez três. Quem sabe não há prostitutas em Oswego, meia

hora a leste, mas ele sente calafrios pensando em como elas podem ser:

o perfil, tão mal escrito que até um russo conseguiria corrigir, o levará a

uma garota pálida e de rosto comum criada à sombra de uma usina

nuclear e engordada com pizza. Ele consegue imaginá-la com as

tatuagens feias e os cabelos duros e castanhos, despindo-se de modo

desajeitado, fazendo perguntas sobre sua vida e interrompendo as

respostas com “aham”. Então, depois de dez minutos de uma transa sem

graça, ela enfiaria uma das garrafas de bebida na mochila, enquanto ele

descartaria o preservativo e se esforçaria para urinar depois do coito.

Oswego tem asas de frango e cerveja.

Oswego não tem garotas bonitas.

Não que ele seja bonito, com a camisa aberta sobre a barriga dura,

redonda e bronzeada pelo sol da Flórida, ou com as unhas dos pés que mal se encaixam no cortador, mas um homem não precisa ser um cavalo

para comprar outro.

Seu pai dizia essas coisas.

Seu pai viajara sem camisa para Berlim em um tanque e pagara o

salário de um mês pelo privilégio de cagar no bunker de Hitler.

Se seu pai estivesse ali, ele chamaria a acompanhante de Rochester e

a prostituta de Oswego e mandaria a mãe dele comprar cigarros.

E por isso ainda sente amor e ódio trinta anos depois de sua morte.

Ele não vai chamar acompanhante nenhuma.

— Gasparzinho, cachorro filho da puta. Vá nos arranjar uma mulher.

Gasparzinho fecha os lábios negros e geme baixinho, como costuma

fazer quando a palavra de ordem vá é seguida por algo que ele não

entende.

O cão remexe o focinho.

O russo também sente o cheiro.

Podre e forte, como se algo tivesse sido tirado do lago.

Ele estava dizendo como estava agradável a brisa da noite, e agora

essa merda.

Será que uma baleia encalhou?

— Não há baleias em lagos — diz ele a Gasparzinho, apontando-lhe

com seriedade um dedo gordo. Como o cachorro pareceu não

compreender, ele repete a mesma coisa em russo.

Agora, Gasparzinho olha na direção do lago.

Ele balança o rabo um pouco, como faz, em vez de latir, quando um

desconhecido se aproxima.

— Pensei ter ouvido russo — diz uma mulher, em russo.

A luz do casebre ilumina a área da varanda até os corrimãos, no alto

da escadaria que leva até a praia.

Como se o mundo terminasse com aqueles corrimãos.

À frente, existe lago e noite, tão negros quanto o negro atrás de uma

estrela.

— Ha! — diz ele, e então, em russo: — Você ouviu. E eu também.

Suba a escada para me cumprimentar.

— Já, já — diz ela, num inglês carregado. — Estou me trocando.

Pela voz, ela parece jovem.

Ele experimenta a leve emoção que um homem sente quando tem

certeza de que está prestes a ver uma mulher bonita. Claro que é

possível se decepcionar com tais ideias, assim como ela se decepcionará

caso pense que ele é bonito, com base em sua voz grossa e grave.

Aquele cheiro de novo.

— Gosta de uísque? — pergunta ele, combinando com o inglês dela,

suprimindo o resmungo de velho que costuma emitir quando se levanta.

— Ah, muito — responde a mulher. — É escocês?

— Oban. Você conhece?

— Não, mas o cheiro é bom.

— Consegue sentir acima desse... — não adiantaria dizer besteiras

antes de conhecer a personalidade dela — ...outro cheiro?

— Consigo. Tem cheiro de turfa e alga queimada.

— Gelo?

— Por favor.

Ele entra na casa e prepara dois copos, satisfeito com o rumo que a

noite está tomando. Olha para o próprio reflexo quase transparente na

cristaleira, pensando que não tem uma aparência muito boa. Mas até que

não está ruim para seus quase setenta. Caminha para fora de novo,

abrindo a porta de tela com mais dificuldade, por estar carregando dois

copos cheios.

Ainda não apareceu nenhuma mulher.

Os corrimãos de madeira se destacam, muito iluminados contra a

escuridão detrás.

O velho olha para baixo para ver se Gasparzinho ainda está

balançando o rabo para ela.

Mas o cachorro sumiu.

Ele apoia os copos e assovia.

Caminha até a escada bamba e desce até a praia, deixando para trás a

varanda iluminada, que a cada passo fica mais distante. Pisa na areia que

logo abre espaço para pedras, com os olhos se ajustando à escuridão. Tenta apurar o ouvido para escutar o som da coleira de Gasparzinho, o

tilintar da medalha — com o nome do cão, a informação sobre o dono e

a inscrição Ajude-me a chegar em casa! —, mas só ouve o sussurro

lânguido do lago Ontário e uma brisa suave sobre os bordos e as bétulas

às suas costas.

A sandália no pé acaba dentro de uma poça, que uma parte pré-

civilizada de seu cérebro registra como incorreta — a maré não sobe

tanto e não choveu —, mas ele segue andando.

— Garota, você não pegou meu cachorro, não é? — pergunta ele, em

russo.

Nada. Avança ainda mais para a praia, para perto da água, as pedras

lisas contra a sola da sandália.

— Garparzinho? — chama ele, cada vez mais preocupado com o

animal, uma preocupação misturada com raiva. Será que a vaca com

sotaque do Leningrado pegou seu cão? Existiria um mercado em Nova

York para velhos vira-latas que peidam como mães moribundas?

Que problema, pensa ele.

Agora, o homem escuta o tilintar da coleira às suas costas.

Será que o safado está subindo a escada sozinho em vez de gemer

para ser carregado?

O velho se lembra do cheiro do uísque e fica feliz por estar voltando

a ele.

Sobe, ouvindo o tilintar da coleira dentro da casa.

— Seu safado — diz ele, sorrindo.

A luz quente se derrama vinda das janelas e da porta do casebre.

Ele procura o uísque e só encontra duas marcas molhadas de copo

sobre a mesa.

Isso não está certo.

Mais um som parece incorreto, apesar de familiar.

O chuveiro está ligado.

Um sorriso astuto desponta em seu rosto.

A garota. Que brincadeira ela está fazendo? Aquela noite poderá ser

muito boa ou muito ruim, mas pelo menos renderá uma história.

Era o tipo de coisa que seu pai dizia.

Ele tira as sandálias, abre a porta de tela e entra. Encontra o chão

molhado. Caminha até o corredor e permanece de pé diante da porta

fechada do banheiro — Deus do céu, o fedor do lago está ali —, antes de

girar a maçaneta. O chuveiro está aberto, e a cortina afastada, mostrando

o aparelho enferrujado e o reboco malfeito.

Mas não tem vapor.

A água está fria.

Ele fecha a torneira.

Há um copo vazio dentro da pia, com um fio de cabelo ruivo

comprido perto dele. O velho tira o cabelo da pia de porcelana branca e

olha para ele — é crespo!

Ao ouvir o tilintar da coleira de Gasparzinho, ele volta para o

corredor, com o coração acelerado.

Há uma mulher ali, pálida e nua, com pesados e molhados cabelos

castanho-avermelhados caindo pelos ombros e seios. Os olhos do velho

descem para a coxa e o umbigo dela: abaixo há um monte de pelos

encaracolados que levam ao tipo de embaraço que não se vê em jovens

hoje em dia, a não ser em sites especializados na internet.

O segundo copo de uísque pinga na mão dela.

Com o dedo indicador da outra mão, ela faz a coleira tilintar. Mais

precisamente a coleira de Gasparzinho, que ela usa no pescoço.

O homem alterna entre o choque, a preocupação, a raiva e a surpresa

agradável tão precipitadamente que, ao falar, parece velho e

transtornado:

— Onde está a porra do meu cachorro?

— Ajude-me a ir para casa — diz ela, mostrando dentes amarelados e

verdes que não combinam com uma menina de Primeiro Mundo. — Isso

é muito bom, Misha.

O cheiro que está impregnando sua casa vem dela, talvez daqueles

cabelos molhados e grossos, talvez até da boca ou da vagina. Como algo

tão bonito pode feder tanto?

Ele percebe como ela é cheia de cicatrizes e de músculos, como seus

membros são fortes.

— Você não o machucou, certo? — pergunta, em russo.

— Você vai me beijar agora, mesmo que eu tenha feito isso —

responde ela em inglês, aproximando a boca de dentes feios e lábios

belos.

Ele pensa em se afastar, mas não se afasta.

Algo naqueles olhos o deixa paralisado.

Eles são muito verdes.

Os lábios dela são frios.

Ele tenta se afastar, mas a mão dela já encontrou sua nuca,

controlando-a como quer. A boca do velho está preenchida por uma

língua fria, de modo que não consegue gritar.

Atrás dela, ele vê o cão sem coleira sair da cozinha, se espreguiçar e

balançar o rabo devagar, sem saber o que pensar da cena no corredor.

Quando ela arrasta o velho russo escada abaixo até o lago, o cachorro

segue, até mesmo na escada. Ainda assim, acompanha apenas até a beira

da água e fica andando de um lado para o outro enquanto a mulher, que

não tem cheiro de mulher, empurra a cabeça de seu dono para dentro da

água.

O velho se debate, mas ela o mantém submerso com facilidade.

O vira-lata tem um quê de beagle muito forte que o faz uivar.

Auuuuuuuu!

Ela uiva de volta de modo brincalhão até mergulhar na água e o

cachorro ficar sozinho.