Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Christopher Buehlman · Capítulo 113 de 134

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Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Capítulo 115

 

Moroz vai para o lado direito da casa, onde as duas grandes janelas da

sala de estar tem vista para a mata.

As janelas de onde o Ladrão o viu.

Agora, outro rosto o espia por uma delas.

Um velho.

O guerreiro de pedra.

Forte, embora mais fraco que o Ladrão.

Ele não pode matar o Ladrão — esse prazer é da bruxa —, mas esse

homem é um alvo fácil.

Vamos ver se você é forte!

Moroz se aproxima da janela, sabendo que está horrível.

O homem velho apenas observa.

O gelo se formou no parapeito.

Moroz escreve ali com o dedo.

 

VOCÊ ESTÁ PRONTO

 

Antes de conseguir escrever o resto, o velho coloca um palito de dentes

na boca — um palito! — e se afasta. Caminha até a janela do outro lado

da lareira.

Moroz se mistura à neve da qual é feito e aparece na frente da outra

janela.

 

PARA MORRER CONGELADO ?

 

escreve ele mas, quando termina o ponto de interrogação, o velho mago

desaparece. Moroz sente algo às suas costas, recompõe-se virado para

trás. O rapaz americano hospedeiro que ele habita morre um pouco mais cada vez que Moroz abusa do corpo dessa forma, mas seu trabalho aqui

está quase concluído.

Não é o velho mago que ele vê.

Agora, vê uma figura popular na União Soviética.

Uma figurinha com orelhas grandes, supostamente uma criatura da

floresta tropical não identificada afeita a laranjas.

Quantas vezes havia assistido a canais infantis pela janela e visto

aquela coisinha?

Como era mesmo o nome?

 

— Cheburashka! — diz ele, com uma voz infantil, em russo, comendo

uma laranja. — Você deixou isso aqui muito, muito frio — afirma com

tristeza, abaixando a cabeça. — Mas pode realmente me matar

congelado?

Moroz sorri, e as árvores atrás de Cheburashka formam gelo fino. Um

esquilo tenta fugir de seu buraco e range ao congelar, caindo do galho.

— Muito triste — diz Cheburashka. — Mas é só um esquilo. Você

precisa se esforçar mais se quiser ser meu amigo. Você quer? — Em um

movimento que lembra stop motion, ele oferece sua laranja a Moroz.

Alguma coisa ali é familiar a Moroz, mas ele nunca sabe quais

lembranças são suas e quais são do morador de rua.

Moroz inspira.

Solta o ar com força.

Gelo, neve e pedacinhos de gelo saem de sua boca.

As árvores ficam tão frias que formam uma camada fina de gelo.

Os galhos caem.

Os animais estalam e morrem.

— Acho que não podemos ser amigos — diz a criaturinha com

tristeza, largando a laranja e pegando um cachimbo, que acende com um

dedo. — Isto é de um crocodilo. Gena. Ele é meu amigo, ainda que você

não seja.

Moroz não consegue congelar a fera.

Mas talvez possa rasgá-la.

Só que primeiro precisa parar a nevasca.

Cheburashka pega o cachimbo, que resplandece um brilho animado.

Moroz tenta fechar a boca e parar de soprar gelo, mas descobre que

não consegue.

A boca de Moroz está aberta.

A criaturinha está tirando neve dela!

Enquanto Cheburashka suga, a essência de Moroz começa a sair.

Ele vomita neve, tanta neve que cobre o quintal do lado.

Ainda assim, a criatura fuma, rindo um pouco, bem feliz.

Luzes da rua brilham na Willow Fork Road.

A neve cai sem parar. Moroz estremece, quase vazio.

Não está mais azul.

Seus cabelos estão pretos de novo.

É um rapaz, na maior parte agora, mas uma parte suficiente de Moroz

ainda pode ser ouvida.

Cheburashka aponta o cabo do cachimbo para ele, erguendo uma

sobrancelha.

Sua voz está diferente agora.

É a voz de Stálin.

— Você e eu somos parecidos porque respeitamos nossos limites.

Você não é páreo para o mago. Eu não sou páreo para a bruxa. Mas

ninguém disse nada sobre você.

Moroz reconhece agora.

Eles já se viram.

Moroz diz seu nome real.

Cheburashka fuma mais uma vez.

Solta o ar.

O cachimbo brilha e está quente na boca do menino.

A sombra de uma lula na neve atrás dele.

Moroz deixa de existir.