Bem-Vindo à Casa dos Espíritos
Capítulo 115
Moroz vai para o lado direito da casa, onde as duas grandes janelas da
sala de estar tem vista para a mata.
As janelas de onde o Ladrão o viu.
Agora, outro rosto o espia por uma delas.
Um velho.
O guerreiro de pedra.
Forte, embora mais fraco que o Ladrão.
Ele não pode matar o Ladrão — esse prazer é da bruxa —, mas esse
homem é um alvo fácil.
Vamos ver se você é forte!
Moroz se aproxima da janela, sabendo que está horrível.
O homem velho apenas observa.
O gelo se formou no parapeito.
Moroz escreve ali com o dedo.
VOCÊ ESTÁ PRONTO
Antes de conseguir escrever o resto, o velho coloca um palito de dentes
na boca — um palito! — e se afasta. Caminha até a janela do outro lado
da lareira.
Moroz se mistura à neve da qual é feito e aparece na frente da outra
janela.
PARA MORRER CONGELADO ?
escreve ele mas, quando termina o ponto de interrogação, o velho mago
desaparece. Moroz sente algo às suas costas, recompõe-se virado para
trás. O rapaz americano hospedeiro que ele habita morre um pouco mais cada vez que Moroz abusa do corpo dessa forma, mas seu trabalho aqui
está quase concluído.
Não é o velho mago que ele vê.
Agora, vê uma figura popular na União Soviética.
Uma figurinha com orelhas grandes, supostamente uma criatura da
floresta tropical não identificada afeita a laranjas.
Quantas vezes havia assistido a canais infantis pela janela e visto
aquela coisinha?
Como era mesmo o nome?
— Cheburashka! — diz ele, com uma voz infantil, em russo, comendo
uma laranja. — Você deixou isso aqui muito, muito frio — afirma com
tristeza, abaixando a cabeça. — Mas pode realmente me matar
congelado?
Moroz sorri, e as árvores atrás de Cheburashka formam gelo fino. Um
esquilo tenta fugir de seu buraco e range ao congelar, caindo do galho.
— Muito triste — diz Cheburashka. — Mas é só um esquilo. Você
precisa se esforçar mais se quiser ser meu amigo. Você quer? — Em um
movimento que lembra stop motion, ele oferece sua laranja a Moroz.
Alguma coisa ali é familiar a Moroz, mas ele nunca sabe quais
lembranças são suas e quais são do morador de rua.
Moroz inspira.
Solta o ar com força.
Gelo, neve e pedacinhos de gelo saem de sua boca.
As árvores ficam tão frias que formam uma camada fina de gelo.
Os galhos caem.
Os animais estalam e morrem.
— Acho que não podemos ser amigos — diz a criaturinha com
tristeza, largando a laranja e pegando um cachimbo, que acende com um
dedo. — Isto é de um crocodilo. Gena. Ele é meu amigo, ainda que você
não seja.
Moroz não consegue congelar a fera.
Mas talvez possa rasgá-la.
Só que primeiro precisa parar a nevasca.
Cheburashka pega o cachimbo, que resplandece um brilho animado.
Moroz tenta fechar a boca e parar de soprar gelo, mas descobre que
não consegue.
A boca de Moroz está aberta.
A criaturinha está tirando neve dela!
Enquanto Cheburashka suga, a essência de Moroz começa a sair.
Ele vomita neve, tanta neve que cobre o quintal do lado.
Ainda assim, a criatura fuma, rindo um pouco, bem feliz.
Luzes da rua brilham na Willow Fork Road.
A neve cai sem parar. Moroz estremece, quase vazio.
Não está mais azul.
Seus cabelos estão pretos de novo.
É um rapaz, na maior parte agora, mas uma parte suficiente de Moroz
ainda pode ser ouvida.
Cheburashka aponta o cabo do cachimbo para ele, erguendo uma
sobrancelha.
Sua voz está diferente agora.
É a voz de Stálin.
— Você e eu somos parecidos porque respeitamos nossos limites.
Você não é páreo para o mago. Eu não sou páreo para a bruxa. Mas
ninguém disse nada sobre você.
Moroz reconhece agora.
Eles já se viram.
Moroz diz seu nome real.
Cheburashka fuma mais uma vez.
Solta o ar.
O cachimbo brilha e está quente na boca do menino.
A sombra de uma lula na neve atrás dele.
Moroz deixa de existir.