Bem-Vindo à Casa dos Espíritos
Capítulo 11
— É que eu estava nadando e ouvi alguém falando russo. Não consegui
resistir. Adoro falar russo — comentou Nadia.
No dia seguinte.
Na casa de Andrew.
— O que você fez com ele?
— Levei para o navio, claro, com os outros.
O homem enrola os cabelos escuros e longos em um coque,
prendendo-o com um ramo de cerejeira com duas forquilhas, no estilo
dos samurais.
— Pensei que você tivesse concordado em só fazer isso mais longe.
Ela assente com seriedade, brincando com o colar de três camadas de
conchas, ao qual adicionou a medalha da coleira do cão.
Ajude-me a chegar em casa!
— Estamos em junho, entende? — diz ela. Andrew sabe que Nadia
está se referindo ao festival de Rusal’naya, quando as irmãs dela dançam
nos campos e nas estradas polonesas que levam aos montes Urais,
atraindo jovens para mortes insípidas. — Não posso responder por mim.
— Não consigo, você quer dizer. E a questão do russo não é desculpa.
Eu falo russo. Você deveria falar comigo.
— Não — corrige ela, erguendo um dedo pálido —, você lê em russo.
Quando começa a falar, acontece de modo involuntário. Com um fedor
de Ohio.
Ele sorri ao ouvir aquela palatalização eslava do h.
— O que você sabe sobre Ohio?
— Conheço Geneva-on-the-Lake. Conheço o lago Erie.
— Isso fica na Pensilvânia.
— É a mesma coisa.
Ele se levanta do sofá e vai até a janela com vista para o lago, virando
as costas para ela, os ombros rígidos, como se o roupão japonês antigo
estivesse pendurado em um cabide de madeira inclinado. Ela não
consegue ver o rosto de Andrew, mas sabe que ele está sorrindo para a
escuridão no horizonte. Uma tempestade se aproxima, e ele gosta de
tempestades, sobretudo daquelas rajadas de vento de junho que se
formam tão depressa que chegam a envergonhar os meteorologistas. A
tempestade vai chegar à orla dentro de uma hora, trazendo consigo o ar
canadense, e ele irá até a varanda vestindo a jaqueta de couro.
A jaqueta com os cigarros no bolso.
— Não é a mesma coisa — diz ele, imitando o sotaque dela.
— Me dá um cigarro? — pede ela.
— Você sabe onde está o maço.
— Eu sei. Só queria ver se você havia se tornado um cavalheiro. Mas
você continua sendo de Ohio.
Ela se levanta, procura no bolso da jaqueta de couro pendurada perto
da porta e puxa o maço amarelo de American Spirits, batendo-o contra a
própria mão para facilitar a retirada dos cigarros. Não importa que ele já
tenha feito isso. Ela refaz tudo para mostrar que pode ser melhor. Ela
retira e acende um, franzindo a testa, como se não conseguisse acreditar
que algo que vive (ou existe, se preferir) no fundo de um lago pudesse
precisar de tabaco.
— Eu sinto sua... desaprovação — diz ela. — Tem mais alguma coisa
a dizer?
— Você sabe muito bem o que seria.
— Que você odeia quando afogo eles.
— E você vai responder que nada lhe dá mais prazer do que afogar
alguém, e que esse prazer vai durar por mais de um mês. E que, além
disso, faz parte de sua natureza.
— E você vai me mandar ir até Oswego para fazer isso. Ou até
Rochester. Ou até o Canadá.
— Mas o Canadá é looonge demais para nadar e vou sentir saudade
— diz ele, imitando o sotaque dela de novo.
Andrew pega o cigarro dos lábios dela e traga, ignorando o gosto de
peixe, como aprendeu a fazer tão bem em outras situações. Ela puxa o
cigarro de volta e apanha a garrafa cheia de água do lago, umedecendo
os dreadlocks ruivos até pingar.
— Então você vai perguntar — continua ela, lançando cada uma das
palavras com a baforada do cigarro — O. Que. Você. Fez. Com. O.
Cachorro?
— Você não comeu o coitadinho.
— Eu queria. Ele era velho mas gorducho, com um bom naco de
carne nas coxas. No entanto, eu sabia que você ficaria chateado.
— Então, você comeu o cão e decidiu mentir para mim a respeito.
— Não consigo mentir para você.
— Você não conseguiria mentir para mim e sair impune.
— É a mesma coisa.
— Não é a mesma coisa. É questão de intenção.
— Eu deixei o bicho no mesmo lugar. A porta estava aberta. Ele pode
ficar do lado de fora, pode ficar do lado de dentro, depende dele.
Alguém vai encontrá-lo. Quem sabe até você... Por acaso você não quer
a porra de um cachorro velho?
— Salvador não gostaria dele.
— Não — concorda ela.
Ele acende o próprio Spirit, dá uma longa tragada e exala devagar,
lábios fechados, olhos fechados, deixando a fumaça sair de seu nariz de
modo sofisticado.
Veneno.
Tudo de que gosto está ligado à morte.
— Você já teve a sensação de que algo aconteceu, algo fora de seu
controle e talvez de sua compreensão, algo que vai desencadear uma
série de acontecimentos que acabarão levando a uma tragédia terrível? E
a uma grande perda?
Ela pensa. Puxa a fumaça com dificuldade porque molhou o filtro.
Deixa sair pelo nariz, como ele fez.
— Sim.