Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Christopher Buehlman · Capítulo 12 de 134

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Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Capítulo 11

 

 

— É que eu estava nadando e ouvi alguém falando russo. Não consegui

resistir. Adoro falar russo — comentou Nadia.

No dia seguinte.

Na casa de Andrew.

— O que você fez com ele?

— Levei para o navio, claro, com os outros.

O homem enrola os cabelos escuros e longos em um coque,

prendendo-o com um ramo de cerejeira com duas forquilhas, no estilo

dos samurais.

— Pensei que você tivesse concordado em só fazer isso mais longe.

Ela assente com seriedade, brincando com o colar de três camadas de

conchas, ao qual adicionou a medalha da coleira do cão.

Ajude-me a chegar em casa!

— Estamos em junho, entende? — diz ela. Andrew sabe que Nadia

está se referindo ao festival de Rusal’naya, quando as irmãs dela dançam

nos campos e nas estradas polonesas que levam aos montes Urais,

atraindo jovens para mortes insípidas. — Não posso responder por mim.

— Não consigo, você quer dizer. E a questão do russo não é desculpa.

Eu falo russo. Você deveria falar comigo.

— Não — corrige ela, erguendo um dedo pálido —, você lê em russo.

Quando começa a falar, acontece de modo involuntário. Com um fedor

de Ohio.

Ele sorri ao ouvir aquela palatalização eslava do h.

— O que você sabe sobre Ohio?

— Conheço Geneva-on-the-Lake. Conheço o lago Erie.

— Isso fica na Pensilvânia.

— É a mesma coisa.

Ele se levanta do sofá e vai até a janela com vista para o lago, virando

as costas para ela, os ombros rígidos, como se o roupão japonês antigo

estivesse pendurado em um cabide de madeira inclinado. Ela não

consegue ver o rosto de Andrew, mas sabe que ele está sorrindo para a

escuridão no horizonte. Uma tempestade se aproxima, e ele gosta de

tempestades, sobretudo daquelas rajadas de vento de junho que se

formam tão depressa que chegam a envergonhar os meteorologistas. A

tempestade vai chegar à orla dentro de uma hora, trazendo consigo o ar

canadense, e ele irá até a varanda vestindo a jaqueta de couro.

A jaqueta com os cigarros no bolso.

— Não é a mesma coisa — diz ele, imitando o sotaque dela.

— Me dá um cigarro? — pede ela.

— Você sabe onde está o maço.

— Eu sei. Só queria ver se você havia se tornado um cavalheiro. Mas

você continua sendo de Ohio.

Ela se levanta, procura no bolso da jaqueta de couro pendurada perto

da porta e puxa o maço amarelo de American Spirits, batendo-o contra a

própria mão para facilitar a retirada dos cigarros. Não importa que ele já

tenha feito isso. Ela refaz tudo para mostrar que pode ser melhor. Ela

retira e acende um, franzindo a testa, como se não conseguisse acreditar

que algo que vive (ou existe, se preferir) no fundo de um lago pudesse

precisar de tabaco.

— Eu sinto sua... desaprovação — diz ela. — Tem mais alguma coisa

a dizer?

— Você sabe muito bem o que seria.

— Que você odeia quando afogo eles.

— E você vai responder que nada lhe dá mais prazer do que afogar

alguém, e que esse prazer vai durar por mais de um mês. E que, além

disso, faz parte de sua natureza.

— E você vai me mandar ir até Oswego para fazer isso. Ou até

Rochester. Ou até o Canadá.

— Mas o Canadá é looonge demais para nadar e vou sentir saudade

— diz ele, imitando o sotaque dela de novo.

Andrew pega o cigarro dos lábios dela e traga, ignorando o gosto de

peixe, como aprendeu a fazer tão bem em outras situações. Ela puxa o

cigarro de volta e apanha a garrafa cheia de água do lago, umedecendo

os dreadlocks ruivos até pingar.

— Então você vai perguntar — continua ela, lançando cada uma das

palavras com a baforada do cigarro — O. Que. Você. Fez. Com. O.

Cachorro?

— Você não comeu o coitadinho.

— Eu queria. Ele era velho mas gorducho, com um bom naco de

carne nas coxas. No entanto, eu sabia que você ficaria chateado.

— Então, você comeu o cão e decidiu mentir para mim a respeito.

— Não consigo mentir para você.

— Você não conseguiria mentir para mim e sair impune.

— É a mesma coisa.

— Não é a mesma coisa. É questão de intenção.

— Eu deixei o bicho no mesmo lugar. A porta estava aberta. Ele pode

ficar do lado de fora, pode ficar do lado de dentro, depende dele.

Alguém vai encontrá-lo. Quem sabe até você... Por acaso você não quer

a porra de um cachorro velho?

— Salvador não gostaria dele.

— Não — concorda ela.

Ele acende o próprio Spirit, dá uma longa tragada e exala devagar,

lábios fechados, olhos fechados, deixando a fumaça sair de seu nariz de

modo sofisticado.

Veneno.

Tudo de que gosto está ligado à morte.

— Você já teve a sensação de que algo aconteceu, algo fora de seu

controle e talvez de sua compreensão, algo que vai desencadear uma

série de acontecimentos que acabarão levando a uma tragédia terrível? E

a uma grande perda?

Ela pensa. Puxa a fumaça com dificuldade porque molhou o filtro.

Deixa sair pelo nariz, como ele fez.

— Sim.