Bem-Vindo à Casa dos Espíritos
Capítulo 133
Isto é o que Marina Yaganishna faz em uma reunião do AA:
Ela se apresenta a todos.
Tenta agir como se não soubesse tudo sobre a mulher-com-cabelo-
tingido-de-vermelho-e-fofoqueira Cathy, ou sobre a Miss-Nova-York-
religiosa Laura, ou sobre o cara-que-parece-Art-Garfunkel-que-
apanhava-com-o-desentupidor-de-privada Jim, ou sobre o advogado-do-
Lexus Jim, ou sobre o santo Bob, ou sobre qualquer um deles.
Ela come metade de uma rosquinha, dá a Anneke a outra metade,
observa-a comer mais duas.
Anneke engordou um pouco, mas está bem.
Está feliz.
Quando Chancho fala, Marina diminui as luzes fluorescentes
presbiterianas acima das telas amarelas presbiterianas, e então volta a
torná-las mais fortes, parando antes de alguma delas estourar. Chancho
olha para ela, mas ela só o encara com aqueles olhos azuis calmos e
puxados dela.
Chancho fala.
— Eu costumava me envolver em muitas coisas ruins, no Texas, no
México. Desde a infância, bebia cerveja e raicilla, que é feita de agave,
mas não como a bebida que dão pros turistas experimentar, mas coisas
que a gente fazia em casa. Sempre com problemas. Em sua maioria, os
rapazes da minha família querem armas e drogas, e eu também queria,
no começo. Coisa ruim, ruim. Você vê no jornal hoje como ficou ruim,
mas nunca foi bom. Eu saí de Matamoros, fui para Houston, me misturei
muito, beber Shiner até passava, mas a cocaína, a tequila e o uísque... eu
me ferrei. Fui preso. Fui para Austin e comecei a ficar limpo, trabalhei
em uma oficina, mas ainda estava perto de tudo. Conheci minha esposa,
Consuela, casei com ela, quase fiquei feliz, mas o vício não deixa ninguém ser feliz. Bati nela não uma vez, mas duas, e ela não deveria ter
ficado, mas eu agradeço a Deus todos os dias por ter ficado. Disse que
tinha conhecidos no Norte e me perguntou por que não nos mudávamos
para cá, para escapar de tudo aquilo. Eu disse ok. Foi bom. Estou sóbrio
há oito anos, mas sei que nunca termina. Minha família veio, alguns
ainda dentro da vida que eu levava. Era difícil dizer não a algumas
coisas que eles queriam que eu fizesse. Mas eu disse. Eu falei: “Minha
casa é sua e fiquem o tempo que quiserem, mas não tragam isso pra cá”.
Alguns ficaram em um hotel. Talvez eu devesse alertar vocês, se vocês
fossem ficar no Days Inn em Oswego, a não dizer a ninguém para
abaixar o volume da música quando ouvirem acordeões ou alguém
cantando sobre corazón. Todas as músicas mexicanas têm a palavra
corazón. Acho que é uma lei. De qualquer modo, a tentação continuava
em mim, principalmente perto de meu primo Julio, que recebia coisa
boa, a melhor em Chihuahua, e que é um cara divertido também. Aí eu
estava descendo a 104 para o Days Inn, pensando que talvez só mais
essa vez porque eu já não via aqueles muchachos desde muito tempo, e
Consuela nunca vai saber, você sabe como é a música, e assim que
pensei naquele homem, BAM!, aparece um cachorro, e eu quase bati nele,
ele olhou para o pneu. Ele é um cachorro velho também, o veterinário
acha que tem entre oito e dez anos. Está sozinho há um bom tempo, todo
sujo, tem um pouco de sarna e pulgas, muitas pulgas. Mas eu ainda não
sabia disso... se soubesse quanto ele me custaria no veterinário, talvez
nem pegasse. Então, parei e peguei aquele cachorro chingado e levei pro
hotel comigo, e todos os caras estavam bebendo, fumando, rindo e
mexendo nas orelhas dele. Ele parecia um beagle, com uma mancha
branca na cara, como uma máscara. E se você disser uuuuuuu na cara
dele, ele uiva de volta. Bem, acho que Deus me mandou aquele cachorro
para me lembrar. Então fiquei com ele. Meu amigo An.... Marina...
Minha amiga Marina, vocês a conheceram hoje, é uma amiga de
Andrew, ela disse que acha que o nome dele era Gaspar, por causa da
mancha branca. Mas quero chamá-lo de Ocho porque ele me lembra de
não estragar meus oito anos. Mas o danado atende quando a gente diz Gasparzinho, acho que Marina estava certa. Mas eu chamo das duas
coisas. O nome dele é Gaspar Ocho Morales. Um bom nome para um
guerreiro. Um bom nome para um cachorro.