Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Christopher Buehlman · Capítulo 129 de 134

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Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Capítulo 133

 

Isto é o que Marina Yaganishna faz em uma reunião do AA:

Ela se apresenta a todos.

Tenta agir como se não soubesse tudo sobre a mulher-com-cabelo-

tingido-de-vermelho-e-fofoqueira Cathy, ou sobre a Miss-Nova-York-

religiosa Laura, ou sobre o cara-que-parece-Art-Garfunkel-que-

apanhava-com-o-desentupidor-de-privada Jim, ou sobre o advogado-do-

Lexus Jim, ou sobre o santo Bob, ou sobre qualquer um deles.

Ela come metade de uma rosquinha, dá a Anneke a outra metade,

observa-a comer mais duas.

Anneke engordou um pouco, mas está bem.

Está feliz.

Quando Chancho fala, Marina diminui as luzes fluorescentes

presbiterianas acima das telas amarelas presbiterianas, e então volta a

torná-las mais fortes, parando antes de alguma delas estourar. Chancho

olha para ela, mas ela só o encara com aqueles olhos azuis calmos e

puxados dela.

Chancho fala.

— Eu costumava me envolver em muitas coisas ruins, no Texas, no

México. Desde a infância, bebia cerveja e raicilla, que é feita de agave,

mas não como a bebida que dão pros turistas experimentar, mas coisas

que a gente fazia em casa. Sempre com problemas. Em sua maioria, os

rapazes da minha família querem armas e drogas, e eu também queria,

no começo. Coisa ruim, ruim. Você vê no jornal hoje como ficou ruim,

mas nunca foi bom. Eu saí de Matamoros, fui para Houston, me misturei

muito, beber Shiner até passava, mas a cocaína, a tequila e o uísque... eu

me ferrei. Fui preso. Fui para Austin e comecei a ficar limpo, trabalhei

em uma oficina, mas ainda estava perto de tudo. Conheci minha esposa,

Consuela, casei com ela, quase fiquei feliz, mas o vício não deixa ninguém ser feliz. Bati nela não uma vez, mas duas, e ela não deveria ter

ficado, mas eu agradeço a Deus todos os dias por ter ficado. Disse que

tinha conhecidos no Norte e me perguntou por que não nos mudávamos

para cá, para escapar de tudo aquilo. Eu disse ok. Foi bom. Estou sóbrio

há oito anos, mas sei que nunca termina. Minha família veio, alguns

ainda dentro da vida que eu levava. Era difícil dizer não a algumas

coisas que eles queriam que eu fizesse. Mas eu disse. Eu falei: “Minha

casa é sua e fiquem o tempo que quiserem, mas não tragam isso pra cá”.

Alguns ficaram em um hotel. Talvez eu devesse alertar vocês, se vocês

fossem ficar no Days Inn em Oswego, a não dizer a ninguém para

abaixar o volume da música quando ouvirem acordeões ou alguém

cantando sobre corazón. Todas as músicas mexicanas têm a palavra

corazón. Acho que é uma lei. De qualquer modo, a tentação continuava

em mim, principalmente perto de meu primo Julio, que recebia coisa

boa, a melhor em Chihuahua, e que é um cara divertido também. Aí eu

estava descendo a 104 para o Days Inn, pensando que talvez só mais

essa vez porque eu já não via aqueles muchachos desde muito tempo, e

Consuela nunca vai saber, você sabe como é a música, e assim que

pensei naquele homem, BAM!, aparece um cachorro, e eu quase bati nele,

ele olhou para o pneu. Ele é um cachorro velho também, o veterinário

acha que tem entre oito e dez anos. Está sozinho há um bom tempo, todo

sujo, tem um pouco de sarna e pulgas, muitas pulgas. Mas eu ainda não

sabia disso... se soubesse quanto ele me custaria no veterinário, talvez

nem pegasse. Então, parei e peguei aquele cachorro chingado e levei pro

hotel comigo, e todos os caras estavam bebendo, fumando, rindo e

mexendo nas orelhas dele. Ele parecia um beagle, com uma mancha

branca na cara, como uma máscara. E se você disser uuuuuuu na cara

dele, ele uiva de volta. Bem, acho que Deus me mandou aquele cachorro

para me lembrar. Então fiquei com ele. Meu amigo An.... Marina...

Minha amiga Marina, vocês a conheceram hoje, é uma amiga de

Andrew, ela disse que acha que o nome dele era Gaspar, por causa da

mancha branca. Mas quero chamá-lo de Ocho porque ele me lembra de

não estragar meus oito anos. Mas o danado atende quando a gente diz Gasparzinho, acho que Marina estava certa. Mas eu chamo das duas

coisas. O nome dele é Gaspar Ocho Morales. Um bom nome para um

guerreiro. Um bom nome para um cachorro.