Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Christopher Buehlman · Capítulo 132 de 134

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Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Epílogo

 

São Petersburgo, Rússia.

Novembro.

Singer Café, segundo andar da livraria Dom Knigi, na Nevsky

Prospekt.

Três mulheres com o fuso horário alterado estão sentadas na sala

quente e verde. Do lado de fora, o céu ameaça cuspir neve outra vez,

como ocorreu no caminho do aeroporto de Pulkovo naquela manhã.

— Não estamos aqui pela magia — diz Marina Yaganishna.

— Eu sei. Mas e daí? Vamos deixá-lo aqui? — pergunta Anneke,

enfiando o último pedaço de sanduíche de atum na boca.

A garota ruiva com o nariz e o rosto marcados olha pela janela, olha

para a catedral de Kazan ali embaixo. Ela falou pouco desde que tomou

o avião no aeroporto internacional de Nova York. Saiu do estupor

pesado de Xanax e vodca o suficiente para trocar de avião em Moscou.

Ela odiou andar de avião, odiou tudo no voo, deixou claro que preferiria

ter uma overdose a estar acordada sabendo que sobrevoava o oceano.

Ela não gosta de água agora.

Nem de frutos do mar.

Quase vomitou na primeira vez em que viu um mexilhão.

— Acho que já estive nessa igreja — diz ela em russo, apontando

para a catedral, que tem mais do que uma simples semelhança com a

Basílica de São Pedro em Roma.

— Fale em inglês, por favor — pede Marina.

— Por quê? Você disse que fala russo.

— Eu falo.

— Como uma dona de casa de Ohio — diz ela, em inglês.

— E você, quando fala russo, parece uma czarina mimada que precisa

de umas chicotadas.

Nadia sorri ao ouvir aquilo.

Ela olha para Anneke, mexendo o chocolate quente com chili. O

chocolate é tão grosso que mal sai da colher.

— Fui a uma igreja — diz ela em inglês. — Há estátuas de generais

da inversão de Napoleão.

— Acho que você quis dizer invasão — corrige Anneke.

— Foi um pouco de inversão — comenta Marina.

— Obrigada por me incluir — diz Anneke a Nadia, tentando não

parecer uma espertalhona: ela percebe que pode estar falando com a

última pessoa viva que viu São Petersburgo antes da revolução, mas

precisa convencer Andrew (ela tem dificuldade em chamá-la de

Marina). Ela olha para Marina Yaganishna. — Mas o livro. É sério que

vamos deixar aqui?

As três olham para o livro agora.

Parece um livro da era soviética sobre árvores, com capa de plástico

engordurada e desenhos de folhas e crianças soviéticas felizes brincando

na mata, apesar de a brincadeira sempre parecer uma construção ou

marcha. Andrew vê além do disfarce do livro imediatamente. Anneke

pisca algumas vezes. Nadia não consegue ver o que é. Ainda não.

Andrew lê o título outra vez.

— Jardins Mágicos: Como Fazer Qualquer Coisa Crescer em

Qualquer Lugar. Com uma Discussão sobre Ervas que Curam e

Venenos. 1913.

É um livro escrito a mão, com capa de couro marrom e costura

amarela.

— Não consigo ver o problema em comprar isso e levar para os

Estados Unidos.

Marina olha para Anneke por cima dos óculos.

— Você não vê problema porque não teve que sair da União Soviética

com livros mágicos depois de ser brutalizado por uma bruxa.

— Fui brutalizada por uma bruxa.

— Você foi levemente brutalizada por uma bruxa por um período

bem curto. E isso não teve nada a ver com livros.

— A menopausa está afetando você, sr. Blankenship.

Marina ri, apesar de tudo.

— Pegue o maldito livro se quiser. Você é adulta.

— Eu ia fazer isso. Como está o chocolate?

— Uma delícia. Experimente.

A colher de Anneke flutua para baixo.

Nadia também dá uma colherada, e um perfume caro invade o nariz

de Anneke.

Não posso mais dizer que ela fede a peixe. O cheiro dela é melhor

que o meu agora.

Marina agora também olha para a catedral.

— Quando eu vivia aqui, aquele era um museu do ateísmo.

— Você está de brincadeira — diz Anneke.

— Não. Havia uma estátua grande de Lênin, cadeira de penitência

para monges, muitas frases antirreligiosas. Um dos guias me disse que o

local foi amenizado atualmente. Costumavam ter um quadro chamado

Cristo, o Opressor. Anéis de ferro e todas essas coisas também, mas não

pegava bem com os visitantes.

— Lênin era um porco. Não acredito que chegaram a batizar essa

cidade com o nome dele — diz Nadia.

A voz dela está diferente agora. Mais suave, mesmo quando diz

coisas duras. Ela vive com Marina e Anneke há dois meses, enquanto as

duas tentam entender o que são umas para as outras: Anneke e Marina

são namoradas com mais frequência de quando Andrew era Andrew,

mas ainda há um quê de cautela e reserva na relação. Elas demoraram

mais de um mês para dar um beijo.

Nadia tem um namorado, um funcionário bonito e barbudo de

Chancho: Gonzo. Não tão esperto quanto Nadia, mas muito bonito.

Tem voz doce.

Ela o conheceu enquanto trabalhava como barman no Rave da Bridge

Street, em Oswego.

Ela não é iluminada, mas Anneke está ensinando mágica mesmo

assim, esperando que ela tenha inteligência e persistência para abrir seu

caminho na magia.

É um processo lento, muito lento.

— Bem, talvez ervas e coisas assim sejam uma boa. Ela não está

entendendo a coisa da pedra e da rocha.

— Odeio feitiços com pedras. Sinto como um galo bicando uma

pérola — diz Nadia.

Então, ela se anima e se senta.

— Precisamos ir para os jardins de verão! — comenta, os olhos

arregalados. — Tem uma estátua ali. Krylov, o escritor infantil. Meu pai

lia fábulas para mim sob a estátua dele, fazendo vozes de animais! “O

Gato e o Cozinheiro!”

Ela está animada como nunca na Rússia.

É por isso que as três vieram.

— Eu lembro — diz ela.

Então, segura uma mão de Marina e outra de Anneke, olhando para

uma e para a outra.

Apesar de ocupar a mesma casca, Nadia está irreconhecível como o

monstro que afogou Mikhail Dragomirov e muitos outros.

Ela é uma mulher de sangue quente, um pouco mais do que uma

garota.

Quando fala, as outras duas mulheres não sabem se ela se refere a

elas ou a São Petersburgo.

Poderia ser a elas.

Elas se tornaram uma família estranha.

Um tipo esquisito de conciliábulo.

Nadia chora ao dizer:

— Estou em casa.