Bem-Vindo à Casa dos Espíritos
Epílogo
São Petersburgo, Rússia.
Novembro.
Singer Café, segundo andar da livraria Dom Knigi, na Nevsky
Prospekt.
Três mulheres com o fuso horário alterado estão sentadas na sala
quente e verde. Do lado de fora, o céu ameaça cuspir neve outra vez,
como ocorreu no caminho do aeroporto de Pulkovo naquela manhã.
— Não estamos aqui pela magia — diz Marina Yaganishna.
— Eu sei. Mas e daí? Vamos deixá-lo aqui? — pergunta Anneke,
enfiando o último pedaço de sanduíche de atum na boca.
A garota ruiva com o nariz e o rosto marcados olha pela janela, olha
para a catedral de Kazan ali embaixo. Ela falou pouco desde que tomou
o avião no aeroporto internacional de Nova York. Saiu do estupor
pesado de Xanax e vodca o suficiente para trocar de avião em Moscou.
Ela odiou andar de avião, odiou tudo no voo, deixou claro que preferiria
ter uma overdose a estar acordada sabendo que sobrevoava o oceano.
Ela não gosta de água agora.
Nem de frutos do mar.
Quase vomitou na primeira vez em que viu um mexilhão.
— Acho que já estive nessa igreja — diz ela em russo, apontando
para a catedral, que tem mais do que uma simples semelhança com a
Basílica de São Pedro em Roma.
— Fale em inglês, por favor — pede Marina.
— Por quê? Você disse que fala russo.
— Eu falo.
— Como uma dona de casa de Ohio — diz ela, em inglês.
— E você, quando fala russo, parece uma czarina mimada que precisa
de umas chicotadas.
Nadia sorri ao ouvir aquilo.
Ela olha para Anneke, mexendo o chocolate quente com chili. O
chocolate é tão grosso que mal sai da colher.
— Fui a uma igreja — diz ela em inglês. — Há estátuas de generais
da inversão de Napoleão.
— Acho que você quis dizer invasão — corrige Anneke.
— Foi um pouco de inversão — comenta Marina.
— Obrigada por me incluir — diz Anneke a Nadia, tentando não
parecer uma espertalhona: ela percebe que pode estar falando com a
última pessoa viva que viu São Petersburgo antes da revolução, mas
precisa convencer Andrew (ela tem dificuldade em chamá-la de
Marina). Ela olha para Marina Yaganishna. — Mas o livro. É sério que
vamos deixar aqui?
As três olham para o livro agora.
Parece um livro da era soviética sobre árvores, com capa de plástico
engordurada e desenhos de folhas e crianças soviéticas felizes brincando
na mata, apesar de a brincadeira sempre parecer uma construção ou
marcha. Andrew vê além do disfarce do livro imediatamente. Anneke
pisca algumas vezes. Nadia não consegue ver o que é. Ainda não.
Andrew lê o título outra vez.
— Jardins Mágicos: Como Fazer Qualquer Coisa Crescer em
Qualquer Lugar. Com uma Discussão sobre Ervas que Curam e
Venenos. 1913.
É um livro escrito a mão, com capa de couro marrom e costura
amarela.
— Não consigo ver o problema em comprar isso e levar para os
Estados Unidos.
Marina olha para Anneke por cima dos óculos.
— Você não vê problema porque não teve que sair da União Soviética
com livros mágicos depois de ser brutalizado por uma bruxa.
— Fui brutalizada por uma bruxa.
— Você foi levemente brutalizada por uma bruxa por um período
bem curto. E isso não teve nada a ver com livros.
— A menopausa está afetando você, sr. Blankenship.
Marina ri, apesar de tudo.
— Pegue o maldito livro se quiser. Você é adulta.
— Eu ia fazer isso. Como está o chocolate?
— Uma delícia. Experimente.
A colher de Anneke flutua para baixo.
Nadia também dá uma colherada, e um perfume caro invade o nariz
de Anneke.
Não posso mais dizer que ela fede a peixe. O cheiro dela é melhor
que o meu agora.
Marina agora também olha para a catedral.
— Quando eu vivia aqui, aquele era um museu do ateísmo.
— Você está de brincadeira — diz Anneke.
— Não. Havia uma estátua grande de Lênin, cadeira de penitência
para monges, muitas frases antirreligiosas. Um dos guias me disse que o
local foi amenizado atualmente. Costumavam ter um quadro chamado
Cristo, o Opressor. Anéis de ferro e todas essas coisas também, mas não
pegava bem com os visitantes.
— Lênin era um porco. Não acredito que chegaram a batizar essa
cidade com o nome dele — diz Nadia.
A voz dela está diferente agora. Mais suave, mesmo quando diz
coisas duras. Ela vive com Marina e Anneke há dois meses, enquanto as
duas tentam entender o que são umas para as outras: Anneke e Marina
são namoradas com mais frequência de quando Andrew era Andrew,
mas ainda há um quê de cautela e reserva na relação. Elas demoraram
mais de um mês para dar um beijo.
Nadia tem um namorado, um funcionário bonito e barbudo de
Chancho: Gonzo. Não tão esperto quanto Nadia, mas muito bonito.
Tem voz doce.
Ela o conheceu enquanto trabalhava como barman no Rave da Bridge
Street, em Oswego.
Ela não é iluminada, mas Anneke está ensinando mágica mesmo
assim, esperando que ela tenha inteligência e persistência para abrir seu
caminho na magia.
É um processo lento, muito lento.
— Bem, talvez ervas e coisas assim sejam uma boa. Ela não está
entendendo a coisa da pedra e da rocha.
— Odeio feitiços com pedras. Sinto como um galo bicando uma
pérola — diz Nadia.
Então, ela se anima e se senta.
— Precisamos ir para os jardins de verão! — comenta, os olhos
arregalados. — Tem uma estátua ali. Krylov, o escritor infantil. Meu pai
lia fábulas para mim sob a estátua dele, fazendo vozes de animais! “O
Gato e o Cozinheiro!”
Ela está animada como nunca na Rússia.
É por isso que as três vieram.
— Eu lembro — diz ela.
Então, segura uma mão de Marina e outra de Anneke, olhando para
uma e para a outra.
Apesar de ocupar a mesma casca, Nadia está irreconhecível como o
monstro que afogou Mikhail Dragomirov e muitos outros.
Ela é uma mulher de sangue quente, um pouco mais do que uma
garota.
Quando fala, as outras duas mulheres não sabem se ela se refere a
elas ou a São Petersburgo.
Poderia ser a elas.
Elas se tornaram uma família estranha.
Um tipo esquisito de conciliábulo.
Nadia chora ao dizer:
— Estou em casa.