Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Christopher Buehlman · Capítulo 21 de 134

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Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Capítulo 20

 

Noite.

Andrew abre os olhos na escuridão quase total de sua casa, dois dos

três pavios da vela na lateral da cama ainda acesos, quase afogados na

cera vermelha.

Seu exemplar de O Barão nas Árvores está aberto, virado para baixo

sobre o travesseiro.

Algo está o observando.

Andrew sabe disso.

Também sabe que são três da manhã.

É quando a coisa costuma vir.

— Ichabod.

A entidade não responde.

— Ichabod, diga algo.

— Algo.

Ela escolheu uma voz de menininha.

— Manifeste-se em uma forma que eu não considere inadequada.

— Ja, mein capitão — diz a entidade.

Um brilhante Katzenjammer Kid, o loiro, aparece e se senta na

cadeira de couro de Andrew, com as pernas cruzadas na altura dos

joelhos. Andrew aprecia a novidade de ver o pequeno menino alemão

dos quadrinhos em 3-D: é um tanto perturbador. Talvez falte bem

pouquinho para ser inadequado.

Ichabod tem a precisão de um atirador de elite no que diz respeito a

causar desconforto.

Ichabod não é o nome dele, claro, como também não é o nome

comprido sumeriano cujas três primeiras sílabas pareciam, vagamente,

Ichabod.

— Você tocou meu pé?

— Só estava brincando de dedinhos.

— Não gosto disso.

— Parecia a maneira mais suave de acordá-lo.

— Não faça isso de novo.

— É uma ordem?

— Sim. Você vai insistir nas formalidades?

— Não desta vez. Parece um pedido simples. Lembrete para mim

mesmo: não tocar os dedinhos do mestre Andrew. Certo. Mais alguma

coisa?

Andrew se senta e se cobre com o lençol.

— Diga por que está aqui.

— O quê, aqui? — pergunta a entidade, e agora o Katzenjammer Kid

está sentado na cama ao lado de Andrew, com as mãos no joelho,

parecendo uma criança que quer ouvir uma história. Libera frio como

um presunto recém-tirado da geladeira. A entidade escolheu ser pesada

— faz a cama abaixar.

Andrew se contém para não se retrair.

— Volte para a cadeira e fique ali até eu mandar.

A entidade pisca os grandes olhos de desenho duas vezes.

Andrew respira fundo para começar a ordem formal, mas Ichabod

aparece na cadeira de couro, sentado na posição de lótus.

— E então?

— E então o quê? — responde a criatura, com uma voz

incongruentemente masculina.

— Diga por que está aqui.

— Não posso fazer uma visita? Estou me sentindo sozinho em casa.

Não tem muito o que fazer lá.

— Então volte de onde veio.

— E perder o resto de sua vida? Nem sonhando.

Andrew suspira com ansiedade.

Ichabod volta a falar, usando a voz de intelectual petulante.

— Estou muito preocupado com você, capitão. Mestre. Mestre

Andrew, o Comandante.

— Diga por quê.

— Você sabe por quê.

— Não sei.

— Está na hora.

— Não sei do que você está falando.

— Só porque não quer saber. Mas precisa.

— Simplesmente diga o que tem para dizer e saia.

— Você deveria ter permitido que eu destruísse sua rusalka. Quando

eu sugeri pela primeira vez.

— Não quero que ela seja destruída.

— Mas agora é tarde demais.

— Para quê?

— Aquele russo que ela afogou era uma espécie extraordinária.

— Não me diga.

Com a demonstração de ódio de Andrew, a criança dos quadrinhos

cora, como se alguém tivesse derrubado sangue nas suas faces, e começa

a tremeluzir.

Torna-se uma lula por um milésimo de segundo e volta a ser um

Katzenjammer Kid.

— Algumas pessoas veem a mão de Deus como coincidência. Você é

um desses casos?

Andrew ferve de ódio.

— Apenas...

A entidade o interrompe.

— Peça a coleira do cachorro para a sua rusalka.

— Por quê?

— Você vai querer pesquisar o dono dele.