Bem-Vindo à Casa dos Espíritos
Capítulo 48
Andrew abre a porta do quarto 373 do Brass Key Apartments, levando a
mão esquerda a um interruptor na parede, as narinas se dilatando para
respirar o ar úmido. Quente e pesado. Tem cheiro de meias de náilon e
sêmen, o kit do adultério, mas como seria diferente? Adultério faz parte
de seu negócio também.
Ele atravessa o quarto até o ar-condicionado sob a janela e gira o
botão, satisfeito ao ouvir o aparelho ligar. O ar que escapa da saída com
grades é quente como o hálito de um cão e, mesmo virando o botão meio
solto da temperatura ao máximo, o aparelho esfria muito pouco. Uma
gota de suor meio esbranquiçada de sal desce por seu nariz e desaparece
na abertura do aparelho.
Ele tenta abrir a janela, que está emperrada, e então toma fôlego e
empurra com força. Bem fechada. Um jovem casal na rua solta uma
gargalhada, e ele também ri, imaginando-se metendo a mão no vidro
para chamar a atenção como um cão preso dentro de um carro abafado.
Sua camisa guayabera está começando a grudar nas costas de novo.
Do outro lado da rua, um homem calvo com suspensórios e uma
camisa ensopada de sangue está atrás de uma janela imunda, abanando-
se com um chapéu fedora. Seu olhar sugere leve curiosidade,
incompatível com sua garganta recentemente cortada. Um fantasma. Há
tantos deles aqui. Andrew controla a vontade de acenar e dá as costas
para a janela.
Os letreiros dos bares na St. Louis iluminam o quarto com uma luz
vermelha que lembra a sala de máquinas de um submarino da Segunda
Guerra Mundial, apesar das cortinas finas. Andrew se senta no futon e
busca o puxador da luminária até encontrar o botão, arrependendo-se de
ter acionado no mesmo instante. Agora, vê diante de si a parede roxa e
dourada, com a fleur-de-lis de praxe. Agora, vê a marca de porra na capa do futon, grande como o mapa de Cuba. Tem a impressão de que a porra
veio de um jogador de beisebol, mas não faz ideia de como isso lhe
ocorreu.
Ele vê um cinzeiro transparente de vidro perto da luminária e decide
tentar abrir a janela de novo.
Toma fôlego.
Empurra com força.
A janela continua fechada.
Gota de suor no olho.
E uma ideia.
Está relutante em incomodar Haint de novo, já que o deixou no Tin
Shack para ouvir a segunda parte do show de violino. Só que Haint é o
melhor homem que ele conhece para resolver esse problema: o melhor,
não, o único. A srta. Mathilda, que entregou a chave a Andrew, já deve
estar se preparando para dormir, já deve ter lido uma reportagem da
Scientific American ou da Popular Science para sua filha autista.
Ele envia uma mensagem de texto a Haint com uma foto da janela:
Emperrada. O quarto está mto quente. E agora?
Menos de um minuto depois, começa a tocar “Ring of Fire” e ele vê
Haint na tela. Ele liga a câmera. Haint está mais bêbado do que nunca,
segurando um gato morto pelo pescoço com uma das mãos. Na outra,
está usando uma mão com garras. Haint faz um gesto com a mão com
garras pedindo para Andrew virar a câmera do telefone para a janela.
“Tap-tap”, emite o telefone, e Andrew bate duas vezes com ele no
vidro da janela.
Uma lasca com uma rachadura aparece na janela, como se uma
pedrinha tivesse sido jogada. Uma rachadura atravessa a parede,
descascando a tinta, traçando um quadrado em volta da moldura, como
se a janela estivesse se abrindo com um zíper, como se uma mão muito
forte estivesse segurando uma faca invisível. A estrutura toda estremece e a janela se abre, cedendo dois centímetros. Andrew empurra com a
mão livre e a janela corre como se estivesse lubrificada nas dobradiças.
O ar entra, não frio, mas fresco.
Andrew vira a tela do telefone na própria direção para agradecer a
Haint, mas o homem está ocupado demais em seu apartamento,
dançando à luz de velas com o gato mole e beijando sua boca morta,
segurando a Mão da Glória na outra. Etta James toca baixinho pelo alto-
falante do telefone.
— Boa noite, Haint — diz Andrew, e o homem enfia a mão na mão
dele duas vezes, como resposta.
Andrew desliga e se senta no futon, longe do mapa de Cuba. No
celular, confere a hora: 00h22.
Acende um Spirit e traga com prazer, soprando lentamente a nuvem
de fumaça em direção à janela, que mostra a noite subtropical do outro
lado do quarto.
Althea.
Ela vai chegar em oito minutos, se cumprir a promessa, mas ela
nunca cumpre suas promessas.
— Você vai a uma reunião? — pergunta ela, enquanto estão deitados na
cama úmida.
Ele ainda está ofegante. Ela já está procurando, com os pés, a
calcinha no amontado de lençóis, para vesti-la outra vez. São quase três
da manhã e ela quer receber seu homem em casa quando ele voltar do
trabalho. E então dormir da manhã até quase cinco da tarde, quando vai
preparar uma salada esquisita com damascos, ou morangos, ou sementes
de romã e sairá correndo para dar três horas de aula de Kundalini, Hatha
e hot yoga, se ainda conseguir.
— Desta vez, não — diz ele. — Não vou ficar na cidade por muito
tempo. Só um dia.
— Mas você foi recentemente? A uma reunião?
— Ontem à noite.
— Ótimo. Então está se sentindo forte?
— Não comece — diz ele, arrependendo-se na mesma hora.
Pedir a Althea para não fazer alguma coisa é como pisar no
acelerador para parar um carro. Ela pega uma garrafa pequena de Jack
Daniel’s da bolsa e beberica, curvando-se para beijar os lábios dele.
Andrew vira a cabeça.
— Vamos — comenta ele —, não tem graça.
— Quem disse que tinha? — pergunta ela, virando a garrafa de novo
para encher a boca, para tentar espirrar a bebida entre os lábios.
Ele passa os polegares sob as axilas dela e faz cosquinhas, levando
Althea a rir, tossir, e cuspir o uísque, que escorre pelo queixo. Tenta
salvá-lo com a mão em concha.
Satisfeita, ela se curva para beijá-lo. Desta vez, Andrew deixa e é
envolvido pelos cabelos encaracolados e castanhos dela, assim como por
seu cheiro de leito de rio, enquanto o gosto proibido da bebida passa
pela língua de Althea e entra em sua boca.
E assim ele desperta de novo.
O eletrizante animal que carrega dentro de si e não entende a palavra
não.
Você está em apuros.
Andrew respira forte, querendo tomar a garrafa de uísque e beber até
uma poça quente envolver seu coração, mas se concentra na língua dela.
É uma língua suja, sempre coberta com alguma coisa: como a pele de
alguém fica quando toma um banho com água morna, sempre
escorregadia, sempre encapada.
A garrafa de Jack Daniel’s está na cama, com o belo rótulo e a
sensação de formigamento que causa na mão por estar a centímetros do
alcance.
Você tem que sair dessa, porra.
Andrew olha para baixo, para além dos bicos dos seios de Althea,
onde a barriga, pálida acima dos pentelhos escuros, começa a criar uma
dobrinha conforme ela se aproxima dos seus quarenta anos.
Ele começa a ficar duro de novo, encostando a cabeça do pênis no
corpo nu dela.
— Hum — geme ela, descendo para ele, mas Andrew a tira de cima,
segurando-a na cama. Ela serpenteia as pernas ao redor dele, até as
costelas, e se remexe, esperando.
Com certeza ainda ensina yoga.
Ele endurece mais um pouco.
Fecha os olhos e pensa em Anneke.
Desejando-me, nua e a fim.
Mas Anneke já me ama.
Não apenas sexualmente, mas “como uma esposa ama um marido”.
Ou o bico do corvo a mataria.
Assim como o câncer está matando o pai dela.
Pare de cortar o clima, você precisa disso.
Por quê?
O que acontece quando você fica velho demais para trepar?
E é só você com você.
Andrew abre os olhos, vê a bela mulher embaixo dele. Abre as
narinas e sente o cheiro forte do sexo excitado dela. Althea tem um
cheiro forte, mas leve e doce em comparação ao da rusalka. Ele volta a
fechar os olhos.
Karl Zautke está morrendo.
Anneke está tendo recaídas.
Ela precisa de você, e você está aqui.
Abre os olhos.
— Você não me ama, não é?
Sua voz o surpreende.
Althea controla uma risada e então balança a cabeça devagar e de
modo travesso.
— Eu amo meu marido — diz ela.
E ama. Ama muito o marido, de verdade, a ponto de amarrá-lo
quando ele chegar do bar e de contar os detalhes da transa sem
camisinha com seu amante de Nova York. Ele vai querer ser galopado
por ela enquanto ainda está repleta do rival, e Althea vai emasculá-lo até
ele quase chorar. E então, quando acabar, cuidará dele como se fosse sua mamãe, limpando e ninando o grandalhão até o sol raiar. Nunca
ninguém olharia para o grande leão de chácara, com cara de perigoso e
calvo, com bíceps enormes e pensaria Esse cara só fica de pau duro
quando está sendo humilhado — mas é isso aí.
— Eu sei. Só quero ouvir.
— Cale a boca — diz ela.
Ele cala a boca.
Andrew coloca uma moeda entre os olhos dela, o que lhe permite
pensar coisas dentro da mente dela. Ele mostra um sonho em que ela
está estuprando homens em uma galé persa de escravos — Althea grita
tanto no fim que um dos vizinhos acompanha os vocais dela batendo na
parede.
Alguém lá fora aplaude.