Bem-Vindo à Casa dos Espíritos
Parte Três
54
Michael Rudnick dirige sua velha caminhonete até a casa de Anneke,
seguindo um pequeno pintassilgo dourado, que pousa na árvore perto
das curvas que Michael deve fazer, voa por ali e parte para a próxima
curva. Os pássaros que Michael atrai para guiá-lo ficam atrás do carro
nas rodovias, mas não precisa deles ali: os mapas funcionam direitinho
naquele lugar. Só chama uma ave-guia em estradas rurais perto das quais
tantos usuários norte-americanos decidem viver. Os usuários são uma
raça solitária: são mais gatos grandes que lobos, no fim das contas.
— Andy tinha razão. Você parece um leão mesmo. Sou Michael
Rudnick. Pode me chamar de Mike.
Anneke fica de pé na varanda da frente, perplexa.
Ela só recebeu a mensagem de manhã.
ANDREW B-SHIP
O CARA QUE ESCREVEU O LIVRO DE PEDRA ESTÁ INDO AJUDÁ-LA.
DEIXE ENTRAR. ELE É LEGAL.
Mike Rudnick estende a mão grande e áspera, e Anneke estica a dela.
As mãos de Mike são ásperas e cheias de calosidades, com pequenas
unhas grossas.
Mãos de trabalhador, não de leitor.
Além disso, o cara tomou tanto sol que a parte branca da barba
praticamente toda grisalha quase brilha. Parece um Hemingway à
vontade, mais rígido e mais esguio. Michael Rudnick é o último
indivíduo para quem você olharia e pensaria: usuário. Ele se porta como
um fazendeiro ou talvez um funcionário do circo — alguém que trabalha
com animais grandes e que garante que façam o que ele quer porque só
existe essa maneira.
Parece ter setenta anos.
— Ninguém chama ele de Andy — comenta ela.
Michael ignora isso, mas sorri. De modo paternal, divertindo-se, de
certo modo. Ela não sabe se foi com a cara dele.
Também não sabe se não foi.
Mas ainda assim.
Um pássaro canta.
O que diabos Andrew estava pensando ao mandar para cá um velho
como uma espécie de pai substituto?
Ela sabe que é rabugenta, sabe que a bebida faz isso. Sente-se bem e
rabugenta.
A caminhonete para.
A ressaca batuca com a participação especial do pintassilgo que canta
e da caminhonete que estala.
— Quer dizer que você é boa com minerais.
— Eu faço esculturas.
— Que bacana. É bacana, sim. Eu também faço esculturas. Posso
ver?
— Hum.... não está...
— Argila também, certo? Canecas, copos.
— Olha, não sei se isso vai dar certo. É um momento difícil para
mim.
— Na verdade, é um bom momento.
Ela pisca duas vezes.
Esse cara que se foda!
— Quem disse?
— O pesar é um empurrão para a magia. Crescemos quando somos
feridos: quanto maior a ferida, mais rápido é o crescimento. Mas isso
tudo depende do esforço, é claro.
Anneke o encara, sua boca abrindo levemente, mas sem dizer nada.
Os dentes dela ainda estão escuros pelo vinho de ontem à noite e há um
resquício de merlot e cabernet seco ao redor de seus lábios.
Ela parece durona e sabe disso.
Lembra-se de ter vomitado no vaso sanitário ontem à noite, o vômito
quase preto de tabaco e vinho.
Ele pega a mão dela outra vez. Ela quase chega a puxar, mas desiste
da ideia. Com a outra mão, Michael saca um par de óculos de leitura do
bolso da camisa. Olha para a mão dela, à procura de calosidades, como
se fosse uma ferramenta que pudesse comprar se o preço estivesse bom.
— Vou embora — diz ele, virando e soltando a mão dela, mas
pegando a outra. Agora, olha para ela, por cima dos óculos. — Mas não
vou voltar.
Anneke olha para ele, sem piscar.
— Olha, senhor...
Ela não se lembra.
— Rudnick — diz ele, sem se ofender.
O rosto dele está sério, bronzeado, com sulcos profundos ao redor da
boca e dos olhos.
— Ninguém me perguntou sobre isso. Fico feliz que você tenha vindo
aqui.
Ele só observa.
O pássaro gorjeia.
Ele balança uma mão para a ave, um gesto sutil, e o pintassilgo voa
para longe, para sempre.
— Mas acabei de perder meu pai, dias atrás, e não consigo me focar
em nada no momento. Só consigo virar peças, jogar Sudoku e... só isso.
Sudoku e só.
Ele observa.
Não sabe e nem quer saber o que é Sudoku.
— Entendo que o senhor é o melhor professor que posso ter, se eu
quiser mesmo seguir em frente com isso. Li seu livro. Consigo fazer
algumas daquelas coisas. Mas se você tiver apenas este momento para
mim, tenho que dizer não.
Essa era a deixa para ele agradecer, apertar a mão dela e voltar para a
caminhonete.
Ou mandá-la para a casa do caralho, virar-se e voltar para a
caminhonete.
Mas ele não sai do lugar.
Apenas observa, como se estivesse esperando que ela percebesse que
está fazendo merda, o que a deixa um pouco irritada. Até mesmo Karl
Zautke sabia que não deveria mandar nela: aprendeu isso quando a filha
não passava de uma menina. Uma pessoa pode discordar de Anneke
Zautke, mas não deve tratá-la como uma tola.
Grande erro, velho.
— Bem, tenha um bom dia — diz ela, fechando a porta.
Ela não bate, mas não fecha como quem se desculpa.
Fecha como fecharia se não houvesse ninguém ali.
Sim, um pouco grosseira.
Ela respira por um minuto, ainda olhando para a porta, sabendo que
ele está de pé ali. Não acha que ele seja perigoso, mas se pergunta se
está cometendo um erro. O que ela deve fazer além de entregar canecas
para o festival e se distrair até dormir? Além do mais, quer chorar pelo
pai, beber e chorar mais um pouco. Ela faz menção de abrir a porta, mas
se lembra do meio sorriso espertinho e confiante dele e se irrita de novo.
Vira-se de modo decisivo, de costas para a porta.
Diz Ahhh!
Ela foi encurralada. Por suas próprias peças. Todas as canecas, tigelas
e travessas que terminou, que não terminou, que comprou, tudo está
empilhado à sua frente. Do chão ao teto. Uma cascata congelada de
peças de porcelana. Todas empilhadas mal e porcamente, algumas nos
cantos, a coisa toda prestes a desmoronar. Se tirar uma xícara, vai cair
como dinamite. Em cima dela. O trabalho árduo de um mês
completamente destruído. Olhos roxos, machucados, talvez até coisa
pior, sem falar na gigantesca bagunça de cacos e pó de argila em vez da
metade da renda de um verão.
A mulher de vários piercings que cuida do estande de Anneke no
festival Renaissance, Kat, chega amanhã em sua van cheia de adesivos
no para-choque com as rosas secas no painel para pegar as peças finalizadas. Com a doença do pai, Anneke desmarcou com Kat várias
vezes e agora seu estande tem prateleiras vazias. Se tudo isso cair, não
vai sobrar nada além de prateleiras vazias.
Foda-se aquele velho.
Ela respira com dificuldade.
Ela se vira para abrir a porta.
Não consegue.
Está trancada, com concreto enfiado na fechadura, nas dobradiças.
Uma língua de pedra sai da fechadura destruída. A única parte da casa
que não foi coberta com concreto é a abertura de cartas na porta. Que se
abre. Anneke dá meio passo para trás, que é só o que consegue se afastar
caso não queira derrubar a parede de peças.
Um chocolate Snickers e uma caixinha de passas escorregam por ali,
caem no chão.
— Que MERDA! — diz ela. — Me deixa sair daqui, seu velho FILHO
DA PUTA. TÁ ME OUVINDO, PORRA?
A parede de peças estremece, um pires quase cai, não desencadeando
a avalanche por um triz.
— Calma — sugere ele. — Faça uma pergunta de modo civilizado e
eu responderei.
Ela faz um barulho nada civilizado.
Amassa o chocolate e empurra pela abertura.
O chocolate volta.
— Procure não amassar sua refeição. Você vai sentir fome.
Provavelmente, muita fome. Depende do seu comportamento e da sua
disposição para ouvir. Vou dizer como abrir essa parede, se quiser saber.
Mas não vai usar as mãos. Terá que começar de cima.
Ela está irada.
Ele espera.
— E se eu não conseguir?
— Daqui a um ou dois dias, deixarei você sair, se tiver que fazer isso.
— Faça isso agora.
— Desculpa. Você estava pronta para desperdiçar meu tempo ao me
mandar embora. Não vou desperdiçar o seu. Se conseguir derrubar essa
parede, ensinarei mais coisas a você. Se não conseguir, bem, foi um
prazer.
Ela está irada, mas se acalma.
— Vou sentir sede antes de sentir fome.
Silêncio.
— E então?
Silêncio.
A mangueira do jardim passa pela abertura, fica pendurada ali.
Espera.