Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Christopher Buehlman · Capítulo 37 de 134

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Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Capítulo 38

 

 

Anneke se vê dentro de um banheiro pintado de verde da metade para

baixo e de branco da metade para cima. Está sentada no vaso e a tampa,

felizmente, está abaixada. Um jovem assustado, um branquelo com

cabelo afro, estava lavando as mãos na pia. Sua mente não consegue

lidar com a ideia de que ela simplesmente apareceu, então ele faz um

tipo de correção de emergência.

— As pessoas costumam bater antes de entrar, sabia? Termino em um

minuto.

Ela também está em choque, mas só olha para ele.

Ele tenta imaginar se ela machucou a cabeça.

— Você está bem?

Ela assente.

O papel higiênico acabou, então o jovem seca as mãos na calça.

Nem ocorre a ele que precisa puxar a travinha para abrir a porta,

porque ninguém entrou depois dele.

— Quer que eu feche? — pergunta ele.

Cara bonzinho.

Ela assente.

Ela se levanta com as pernas trêmulas e tranca a porta de novo, para

se recompor. Recosta-se. Um aquecedor de água domina o banheiro

cheio e há um adesivo amarelo mostrando a ela que gasolina não deve

ser guardada perto dali, pois a luz pode causar incêndios. As paredes

estão tomadas por objetos de um programa de mafiosos da TV a cabo.

Ela pensa em entrar no vaso e voltar para casa, mas a dúvida a

acomete. A peça parece mais dura, de certo modo, mais real do que

aquela por onde se lançou na casa de Andrew. Ela imagina a si mesma

quebrando a cabeça no cômodo velho. O branquelo de cabelo afro diria aos médicos que ela parecia confusa, deu um encontrão nele, não parecia

muito bem.

E lá está ela, rolando em uma festa LGBT em uma cadeira de rodas.

— Como você ficou paralisada?

— TC.

— Ah, traumatismo crani...

(Ela interrompe a interlocutora imaginária que se parece com Shelly

Bertolucci.)

— Toalete cretino.

Ela não sabe quanto tempo passa olhando para o vaso (que precisa ser

limpo), mas uma batida tímida faz com que abandone seus devaneios.

— Só um minuto.

— Sem problema — diz uma garota.

Seja lá onde estiver, as pessoas até que são bacanas.

 

Ela sai do banheiro com os joelhos bambos, entra em um lugar

iluminado — uma cafeteria — repleta de alunos estudando, hippies

velhos falando de política, uma mulher com cara de brava na fila,

cruzando e descruzando os braços, impaciente para pedir sua bebida

rebuscada. Um caminhão vermelho reluzente passa na rua e o lugar todo

recebe uma luz vermelha. Anneke abre a porta, o sino acima dela toca e

o homem afável que está fazendo a máquina de cappuccino emitir um

som sibilante diz:

 

— Volte sempre.

— Obrigada — diz ela, chegando à calçada.

Onde estou?

Como volto?

Vou mesmo pular em uma privada?

Sim, vou.

Então é melhor entrar e fazer isso porque quanto mais tempo passar

pensando, pior será.

Ela olha para trás, para a janela na cafeteria, e vê um jornal

abandonado em uma mesa. A porta faz ding-dong de novo. Anneke olha

para o jornal. USA Today. Não ajuda. De onde veio? Ela avista a

prateleira, perto do balcão, e se aproxima enquanto uma mulher de

braços cruzados olha para ela, suspeitando que ela possa tentar cortar a

fila.

The New York Times.

USA Today.

Ah!

The Dayton Daily News.

Essa cidade parece pequena e limpa demais para ser Dayton.

Ela vê uma pequena prateleira do outro lado da fila do café e vira a

cabeça para olhar. A mulher se vira para pedir licença, mas o carinha

simpático do balcão a interrompe com um: “Posso ajudá-la?”.

Anneke pede licença atrás da mulher, pega um jornal e olha para ele.

The Yellow Springs News.

Yellow Springs, Ohio.

Jesus Cristo, é real!

Eu tenho que sair daqui.

Eles estão esperando.

Estão?

Isso está acontecendo em tempo real?

Ela pensa em entrar no banheiro de novo, mas o tipo poeta de barba

cheia entra e fecha a porta.

Merda.

Não estou pronta para entrar na privada, não mesmo.

Ela entra na fila do café.

Olha para trás, pela janela da frente.

Um bar do outro lado da rua, antigo e de madeira.

Ah, era disso que eu precisava, porra.

Era EXATAMENTE disso que eu preciso, porra.

Coragem.

Ela sente que começa a suar.

Permanece na fila e pega um chocolate quente com o dinheiro no

bolso da frente.

Beberica o chocolate quente devagar, olhando para o banheiro e então

para o salão. Tamborila os dedos na mesa.

Certo, não é culpa sua. Você está em uma situação delicada. Tem que

fazer isso.

Uau, você é sagaz.

Você acabou de passar por um portal mágico. Independente do que

aconteça aqui, não vai fazer diferença.

[Bocejo] Nossa! Você é incrível.

Você já sabe que vai fazer. Ou faz, ou compra uma passagem de

ônibus para Rochester. Só está perdendo tempo. O seu, o de Andrew e o

da porra do peixe.

Certo, essa foi forte.

Momento de força maior.

Eu não tive um momento assim.

Sou uma farsa no AA.

Desde minha última recaída, apenas seis meses se passaram.

O que são seis meses?

Durante a meia hora seguinte, Anneke usa os dez dólares que restam

no bolso para pedir mais um chocolate e um latte descafeinado com

essência de avelã. Mexe os lábios enquanto fala sozinha. Depois de ir ao

banheiro pela terceira vez, para ver o fundo do vaso, ela diz:

— Foda-se.

E sai pela porta.

Ding-dong!

E entra no bar do outro lado da rua, onde pede três doses de Jack

Daniel’s, mas fica sabendo que eles não servem destilado. Ela pergunta

quem serve. Caminha o quarteirão e meio até o Dayton Street Gulch,

irritada por isso.

Então, pede suas três doses.

— Quinze dólares — diz o atendente de lábios muito vermelhos e

barba de um loiro desbotado.

Ela enfia a mão no bolso.

Está sem dinheiro.

Ela se vê enfiando a carteira embaixo do banco da frente de seu

Subaru.

Minha carteira não está aqui!

O atendente se vira para a geladeira, pega uma cerveja para um

homem negro de chapéu fedora que estava limpando a mesa de bilhar

com um estudante universitário usando uma camisa de mecânico

engraçadinha com uma etiqueta com o nome dele escrito. Anneke vira a

primeira dose. Vai ao banheiro (só para urinar). Volta para o bar. Vira a

segunda dose. Assiste à televisão sem som: um julgador de um

programa de auditório repreende uma mulher com um cabelo estranho.

Em seguida, uma série de comerciais:

Detergente com uma MILF e sorridente, e bebês mais sorridentes

ainda.

Uma fita de autoajuda para ficar rico através da fé, apresentada por

um hipócrita sorridente estranhamente familiar.

Fraldas.

Mais bebês.

Que merda é a televisão durante o dia.

Ela vira a terceira dose.

— Qual é a sua marca de fraldas preferida? — pergunta ela ao jovem

atendente barbudo.

— Não tenho preferência.

— Muito diplomático de sua parte — diz ela.

Ele sorri.

Ela costumava conseguir beber mais do que os homens, mas agora

anda fraca para a bebida. O uísque envolve seu coração com os dedos

peludos.

É bom.

Aí vem o barato.

É muito bom.

Talvez ele me sirva mais duas.

Vou perguntar, primeiro, se eles aceitam Visa, para ele pensar que

estou numa boa.

Eu quero as doses.

Mas, se beber, vou ficar bêbada.

A magia é bem perigosa estando sóbria, hein, brujo?

É agora ou nunca.

Anneke sai pela porta, por um triz não é atropelada por uma van,

corre pelo estacionamento do posto de gasolina, quase bate em um

carrinho de bebê, passa correndo pelo bar, entra na cafeteria,

Ding-dong!

e encontra a porta do banheiro trancada!

Olha para a janela.

Vê a cabeça do atendente entre os caminhões e por cima dos carros.

Ela poderia ter agido com mais calma, como se estivesse indo até o

carro, mas foi invadida pela adrenalina. Ele parece atento. Vai entrar

quando houver uma brecha no trânsito.

Anneke diz:

— Porra!

E chuta a porta do banheiro para abri-la. A travinha cai no chão,

fazendo um tilintar.

— Porra! — repete um tipo skinhead calmo com alargadores do

tamanho de moedas grandes nas orelhas.

Anneke arranca o cara da frente do vaso antes de ele começar a urinar

e o empurra para dentro da cafeteria, com o pau espetado com um

piercing para fora.

— Que porra é essa, cara! — fala ele.

O atendente vê o empurrão e começa a dizer:

— Ei!

Antes de conseguir terminar, o atendente e o cara veem Anneke pular

no vaso e desaparecer.

Para ser mais exato, ela pula na direção do vaso, mas nenhuma parte

de seu corpo toca a privada.

Seus sapatos vermelhos meio rachados são a última coisa a

desaparecer se agitando.

Os dois homens se esquecem dela no mesmo instante.

Quando o atendente surpreso abre a porta da cafeteria — ding-dong!

—, o rapaz do balcão pergunta se aconteceu alguma coisa.

O atendente coça a barba.

— Desculpa — diz ele, percebendo que abriu a porta com força, mas

se esquecendo totalmente do motivo.

Ele disfarça.

— Você tem notas de cinco?