Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Christopher Buehlman · Capítulo 26 de 134

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Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Capítulo 25

 

Ano de 1977.

Perto de Xenia, Ohio.

O último dia quente do ano.

— Não sou maricas — diz o motorista.

— Isso não é problema meu — responde Andrew Randolph

Blankenship, tentando entender por que um homem careca e barbudo,

que usa camisa desabotoada para mostrar a barriga redonda, diminuiria a

velocidade do espaçoso Impala azul para conversar com um adolescente

andando de bicicleta.

— Você sempre passa de bicicleta por essa casa.

O homem aponta para uma casa dos anos 1980, com dois andares,

tinta azul descascada e uma placa desbotada pelo sol: VENDE-SE.

Andrew não fala nada. Só franze a testa, como costuma fazer quando

está processando muitas informações.

Esse cara está me observando? É perigoso? Por acaso sabe por que

eu passo de bicicleta por aqui? Será que ele também vê?

— Você sabe que tem um fantasma aqui, certo?

Andrew sente seu coração batendo forte no peito.

Há um fantasma e ele me assusta pra caralho.

Caminho com a bicicleta na mão porque já a quebrei duas vezes, ao

saber que ela estava olhando para mim.

— Sim, senhor.

— Não me chame de senhor.

— Tá.

Andrew coça uma das costeletas, que começou a deixar crescer para

imitar seu irmão mais velho. Mas Charles logo vai raspar as que tem

porque elas parecem “diferentes” demais.

Mas esse cara.

Quem é esse cara?

— Ela se infla como um balão quando você passa de bicicleta pela

casa porque está a fim de você. Tinha dezessete anos quando morreu.

Essa é sua idade agora, se não me engano, certo?

— Sim, deze... Sim.

Andrew espia dentro do carro, que está mais perto agora. Fica

aliviado ao ver que o motorista está vestindo calça. Um macacão, para

ser preciso.

— Sabe por que não consegue vê-la?

Andrew balança a cabeça negativamente.

Uma buzina toca porque o homem mais velho deixou seu Impala

entre as duas pistas. Ele olha para a estrada de novo e corrige a direção,

quando um caminhão sujo de lama, com a caçamba aberta e cheia de

abóboras, passa, perdendo uma abóbora, com o motorista apontando um

dedo entortado pela artrite.

— Quer uma carona até depois da casa? Levo você até o Enon.

Andrew até queria uma carona.

Não queria ver a menina flutuando na janela e olhando para ele, com

a cabeça grande como um carro alegórico.

Também não queria passar quarenta minutos pedalando, sendo que

poderia aproveitar esse tempo num cochilo. Quase não dormiu na noite

passada, e a garota com quem fez amor na plantação de milho está de

castigo.

Valeu a pena.

O momento de amor, rápido e rasteiro, aconteceu depois de eles

mexerem nas letras da marquise da Igreja Batista Xenia, de modo que

ARREPENDA-SE, MEU POVO, O TEMPO DE VIVER NO PECADO ACABOU VIROU

ACABOU SENTADO NO PAU.

Agora, uma caminhonete bege com ferrugem por baixo, com a cor de

molho de espaguete, ultrapassou o Impala e o motorista gritou coisas

hostis pela janela aberta.

Os olhos do homem careca se fixaram em Andrew.

— E vou dizer por que você e eu podemos ver a garota morta e

aquele cara não pode.

O rapaz para.

Um urubu-de-cabeça-vermelha sobrevoa a área devagar.

— Tem espaço para a minha bicicleta?

— Sim.

O homem que vai ensinar o primeiro feitiço a Andrew para o carro na

frente do garoto. Ele abre o porta-malas enorme: o Impala mais parece

uma baleia abrindo a boca.

Sua boca é muito preta.

Sua língua, um pneu sobressalente.

Andrew passa a bicicleta Schwinn à baleia e se prepara para ir a

Nínive.