Bem-Vindo à Casa dos Espíritos
Capítulo 13
Testemunhas de Jeová aparecem assim que a tempestade passa. O ar está
úmido e as nuvens escuras que se afastam para leste fazem o branco de
suas camisas brilharem, à medida que eles sobem a trilha entre os bordos
jovens. Vestindo a jaqueta de couro, Andrew fica de pé na varanda da
frente, sabendo que parece e tem cheiro de pecador, penteando os
cabelos que descem até a cintura e exalam tabaco e mirra. Franze o rosto
ao ver um fio de cabelo branco novo, arranca e o enrola em um dos
dedos.
Eles vão levar um tempinho para subir a ladeira.
Andrew percebe que está prestes a suspirar, reconhece a impaciência
como um sinal de apego, pensa que deveria ler outro livro sobre
budismo e tenta meditar. Tem um compromisso com ser budista, mas
ainda não chegou lá.
E lá vêm dois dos guerreiros de Deus, uma dupla de afro-americanos,
um já em seus sessenta anos, outro com cerca de vinte.
Pelo menos, tenho que admitir que estão sendo sinceros. Costumam
usar bastante a sandália de couro fazendo o que Jesus lhes dissera para
fazer. Nada de Natal. Nada de Halloween. Mas isso é meio como doces
e travessuras. Eles comem doces? Eu tenho doces?
O homem mais velho atrasa a caminhada.
Aquele cara não precisa de doce nenhum.
Isso não foi muito budista de minha parte. E ele nem é gordo, só tem
um pouco de barriga, e provavelmente é avô, então dá um tempo.
Talvez seja o avô do outro cara?
O mais velho ergue uma das mãos e estampa um sorriso vencedor.
— Que caminho você tem aqui! — comenta ele. — Deve estar em
boa forma!
— Eu estaria se saísse. Sou um ermitão. A única coisa que faço neste
lugar é conversar com Deus e esperar que desconhecidos cheguem para
eu poder lhes contar sobre os planos que Deus têm para a vida deles.
Ninguém alertou vocês a meu respeito no Salão do Reino?
— Bem, eles disseram...
— Cadê a Barbara?
— Ela se mudou para Syracuse.
— Mais agito na cidade grande. Uma plantação farta de pessoas sem
Deus no coração, posso garantir.
— Algo assim.
Ele fica de pé com as mãos na cintura, inclinando-se um pouco para a
frente, os cotovelos para fora do casaco aberto, da Sears, cor cinza-vovô.
A gravata é de um tom de tijolo vivo. Ele está sorrindo e ofegante,
recuperando o fôlego.
— Você está bem? — pergunta Andrew.
Ele assente, ainda ofegante.
O mais jovem percebe que deveria dizer algo, mas é tímido. Distrai-
se mais do que deveria com o jardim de pedras e com os carros
enferrujados empilhados no quintal da frente de Andrew. O Mustang
1965 que ele arruinou, um Chevy antigo, um Dodge Dart: todos
cercados com grandes e belos pedregulhos e árvores novas. Seu senso
estético pende mais para a arte do que para o ferro-velho.
O rapaz está fascinado com aquilo, sobretudo com o crânio de um
touro com chifres longos que coroava o conjunto, os dentes secos
amarelando nas pontas, os enormes chifres revestidos de couro na base,
levemente tortos.
Ele sabe que tem mais coisa ali do que parece.
Sabe que é quem deve quebrar o silêncio, então começa a falar.
— Que... que tempestade, não?
— É mesmo — diz Andrew.
Os dois trocam um olhar.
O rapaz olha para o crânio do touro de novo e então inclina a cabeça
um pouco para o mago, como um cão tentando processar um som estranho.
Caramba, esse cara é iluminado?
Um iluminado natural?
Andrew sorri mais ainda.
Ele é, sim. Andando por aí com uma pilha de revistas A Sentinela
debaixo do braço, enquanto murmura receptividade à magia. Anneke
também é um pouco receptiva, mas esse cara é como eu era.
Pronto para explodir.
Um livro de feitiços prestes a explodir, longe de uma vida de...
O quê?
Agora, o homem mais velho se levanta.
— Arthur. Arthur Madden — diz ele, estendendo a mão. — E esse
bonitão é Marcus Madden Jr. Não temos parentesco. Brincadeira.
— Andrew Blankenship.
— Prazer em conhecê-lo, sr. Blankenship.
Esse cara é bom de verdade. Vou deixar isso registrado.
É difícil manter a traquinagem longe da voz.
— Gostariam de entrar?
Os dois partem vinte minutos depois.
Não é a conversa sobre a confiabilidade dos evangelhos, nem o
campo minado socrático de perguntas de Andrew, ou tampouco sua
afirmação de que, se Deus pretendesse que o sexo fosse usado apenas
para a procriação, Ele não teria feito nem tornado o clitóris compatível
com a língua. (“Deve ser bom estar tão perto do lago”, comentou Arthur,
para mudar de assunto, apesar de Andrew gostar do simbolismo não
intencional, assim como gosta de ver que o idoso, perfeitamente
educado, prefere comentar a respeito do cheiro de peixe que deixa a casa
impregnada.)
É Marcus.
Marcus vê demais.
Primeiro, está distraído demais, olhando para o lago pelas janelas
escuras.
— Tem alguma coisa mais interessante do que a gente aí fora, jovem?
— Eu... pensei ter visto um... golfinho.
— Não há golfinhos em lagos — corta Arthur.
— Temos uns peixes bem grandes aqui — ameniza Andrew.
O rapaz olha para ele de modo hesitante.
— Bem grandes — repete Andrew.
Eles voltam a debater se a homossexualidade é um pecado ou um
estado natural do ser. Marcus sempre deixa para Arthur (seu tio-avô, na
verdade) o campo das perguntas, mas Andrew consegue arrastá-lo de
vez em quando.
— Vamos, Marcus... Você viu rapazes gays.
Marcus quase ri com o comentário e Arthur direciona a conversa
outra vez para a capacidade de Deus perdoar, referindo-se claramente a
Andrew.
As opções literárias das testemunhas de Jeová são contrapostas às
ofertas de livros budistas, taoistas ou confucionistas.
Recusa mútua.
— Ou, caso você queira voltar outra hora, tenho uma biblioteca de
referência que pode ser de seu interesse.
Ele diz isso a Marcus, tentando não parecer assustador nem demente.
Quando Salvador traz a prensa francesa e serve o café para Andrew, o
jovem fica pálido, olha para Arthur e o observa assentir ao empregado e
não entende por que seu tio-avô também não está morrendo de medo.
É porque Arthur vê um jovem espanhol que tem uma leve semelhança
com John Leguizamo. Já você vê a falsa forma humana brilhar de vez
em quando e é quando enxerga a palha que forma o rádio e a ulna dele,
o modo estranho, mas delicado, com que as mãos articuladas de seu
artista tiram uma colher da bandeja ou apertam a alavanca da prensa
de café. Você vê o vapor sobre o retrato. Você vê fantasmas, também, e
ouve vozes. Às vezes, você acha que é louco, outras vezes, que está
possuído. Mas, na verdade, você só está acordado.
Que azar.
— Quero ir embora, tio.
Arthur ergue uma sobrancelha para o rapaz, sugerindo que uma
conversa sobre educação acontecerá na volta. Só que então olha para o
relógio, um Timex grande, estilo anos 1970, com uma pulseira prateada.
Salvador oferece café aos dois.
Arthur recusa educadamente.
Ele vira um pouco o pulso para checar o relógio outra vez.
Andrew percebe que Arthur não tem celular e o adora por isso.
Marcus fica olhando, repentinamente tranquilo, como se conformado
com o problema mental que está tendo.
— Bem, acho que a sra. Simpson vai chegar com o carro em breve, e
é melhor não a deixarmos esperando. Obrigado pela hospitalidade, sr.
Blankenship.
— Agradeço pela conversa.
Os três homens se levantam.
Salvador está de pé entre eles, na porta da frente, então Marcus se
dirige até a porta lateral, depois de sair da cozinha.
— Ah, não! — fala Andrew. — As escadas ali são perigosas. É
melhor voltar por onde veio.
Salvador dá um passo para o lado, em leve reverência.
Esta é a minha casa e você deve sair pelo mesmo lugar por onde
entrou.
— Não se esqueça do que eu falei sobre a biblioteca — diz ele a
Marcus. — Isso pode explicar um pouco as coisas.
— Obrigado — disse o jovem baixinho, mas ele só quer ir embora.
Ele não volta a olhar nos olhos de Andrew.
Controla-se para não sair correndo à frente de seu ponderado tio, não
descer correndo o caminho ladeado por árvores e entrar no SUV quente
onde a sra. Simpson cantarola músicas dos anos 1950 junto com o rádio,
e Jesus e os anjos ainda se defendem do mundo cruel e confuso do
demônio.