Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Christopher Buehlman · Capítulo 14 de 134

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Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Capítulo 13

 

Testemunhas de Jeová aparecem assim que a tempestade passa. O ar está

úmido e as nuvens escuras que se afastam para leste fazem o branco de

suas camisas brilharem, à medida que eles sobem a trilha entre os bordos

jovens. Vestindo a jaqueta de couro, Andrew fica de pé na varanda da

frente, sabendo que parece e tem cheiro de pecador, penteando os

cabelos que descem até a cintura e exalam tabaco e mirra. Franze o rosto

ao ver um fio de cabelo branco novo, arranca e o enrola em um dos

dedos.

Eles vão levar um tempinho para subir a ladeira.

Andrew percebe que está prestes a suspirar, reconhece a impaciência

como um sinal de apego, pensa que deveria ler outro livro sobre

budismo e tenta meditar. Tem um compromisso com ser budista, mas

ainda não chegou lá.

E lá vêm dois dos guerreiros de Deus, uma dupla de afro-americanos,

um já em seus sessenta anos, outro com cerca de vinte.

Pelo menos, tenho que admitir que estão sendo sinceros. Costumam

usar bastante a sandália de couro fazendo o que Jesus lhes dissera para

fazer. Nada de Natal. Nada de Halloween. Mas isso é meio como doces

e travessuras. Eles comem doces? Eu tenho doces?

O homem mais velho atrasa a caminhada.

Aquele cara não precisa de doce nenhum.

Isso não foi muito budista de minha parte. E ele nem é gordo, só tem

um pouco de barriga, e provavelmente é avô, então dá um tempo.

Talvez seja o avô do outro cara?

O mais velho ergue uma das mãos e estampa um sorriso vencedor.

— Que caminho você tem aqui! — comenta ele. — Deve estar em

boa forma!

— Eu estaria se saísse. Sou um ermitão. A única coisa que faço neste

lugar é conversar com Deus e esperar que desconhecidos cheguem para

eu poder lhes contar sobre os planos que Deus têm para a vida deles.

Ninguém alertou vocês a meu respeito no Salão do Reino?

— Bem, eles disseram...

— Cadê a Barbara?

— Ela se mudou para Syracuse.

— Mais agito na cidade grande. Uma plantação farta de pessoas sem

Deus no coração, posso garantir.

— Algo assim.

Ele fica de pé com as mãos na cintura, inclinando-se um pouco para a

frente, os cotovelos para fora do casaco aberto, da Sears, cor cinza-vovô.

A gravata é de um tom de tijolo vivo. Ele está sorrindo e ofegante,

recuperando o fôlego.

— Você está bem? — pergunta Andrew.

Ele assente, ainda ofegante.

O mais jovem percebe que deveria dizer algo, mas é tímido. Distrai-

se mais do que deveria com o jardim de pedras e com os carros

enferrujados empilhados no quintal da frente de Andrew. O Mustang

1965 que ele arruinou, um Chevy antigo, um Dodge Dart: todos

cercados com grandes e belos pedregulhos e árvores novas. Seu senso

estético pende mais para a arte do que para o ferro-velho.

O rapaz está fascinado com aquilo, sobretudo com o crânio de um

touro com chifres longos que coroava o conjunto, os dentes secos

amarelando nas pontas, os enormes chifres revestidos de couro na base,

levemente tortos.

Ele sabe que tem mais coisa ali do que parece.

Sabe que é quem deve quebrar o silêncio, então começa a falar.

— Que... que tempestade, não?

— É mesmo — diz Andrew.

Os dois trocam um olhar.

O rapaz olha para o crânio do touro de novo e então inclina a cabeça

um pouco para o mago, como um cão tentando processar um som estranho.

Caramba, esse cara é iluminado?

Um iluminado natural?

Andrew sorri mais ainda.

Ele é, sim. Andando por aí com uma pilha de revistas A Sentinela

debaixo do braço, enquanto murmura receptividade à magia. Anneke

também é um pouco receptiva, mas esse cara é como eu era.

Pronto para explodir.

Um livro de feitiços prestes a explodir, longe de uma vida de...

O quê?

Agora, o homem mais velho se levanta.

— Arthur. Arthur Madden — diz ele, estendendo a mão. — E esse

bonitão é Marcus Madden Jr. Não temos parentesco. Brincadeira.

— Andrew Blankenship.

— Prazer em conhecê-lo, sr. Blankenship.

Esse cara é bom de verdade. Vou deixar isso registrado.

É difícil manter a traquinagem longe da voz.

— Gostariam de entrar?

 

Os dois partem vinte minutos depois.

Não é a conversa sobre a confiabilidade dos evangelhos, nem o

campo minado socrático de perguntas de Andrew, ou tampouco sua

afirmação de que, se Deus pretendesse que o sexo fosse usado apenas

para a procriação, Ele não teria feito nem tornado o clitóris compatível

com a língua. (“Deve ser bom estar tão perto do lago”, comentou Arthur,

para mudar de assunto, apesar de Andrew gostar do simbolismo não

intencional, assim como gosta de ver que o idoso, perfeitamente

educado, prefere comentar a respeito do cheiro de peixe que deixa a casa

impregnada.)

É Marcus.

Marcus vê demais.

Primeiro, está distraído demais, olhando para o lago pelas janelas

escuras.

— Tem alguma coisa mais interessante do que a gente aí fora, jovem?

— Eu... pensei ter visto um... golfinho.

— Não há golfinhos em lagos — corta Arthur.

— Temos uns peixes bem grandes aqui — ameniza Andrew.

O rapaz olha para ele de modo hesitante.

— Bem grandes — repete Andrew.

Eles voltam a debater se a homossexualidade é um pecado ou um

estado natural do ser. Marcus sempre deixa para Arthur (seu tio-avô, na

verdade) o campo das perguntas, mas Andrew consegue arrastá-lo de

vez em quando.

— Vamos, Marcus... Você viu rapazes gays.

Marcus quase ri com o comentário e Arthur direciona a conversa

outra vez para a capacidade de Deus perdoar, referindo-se claramente a

Andrew.

As opções literárias das testemunhas de Jeová são contrapostas às

ofertas de livros budistas, taoistas ou confucionistas.

Recusa mútua.

— Ou, caso você queira voltar outra hora, tenho uma biblioteca de

referência que pode ser de seu interesse.

Ele diz isso a Marcus, tentando não parecer assustador nem demente.

Quando Salvador traz a prensa francesa e serve o café para Andrew, o

jovem fica pálido, olha para Arthur e o observa assentir ao empregado e

não entende por que seu tio-avô também não está morrendo de medo.

É porque Arthur vê um jovem espanhol que tem uma leve semelhança

com John Leguizamo. Já você vê a falsa forma humana brilhar de vez

em quando e é quando enxerga a palha que forma o rádio e a ulna dele,

o modo estranho, mas delicado, com que as mãos articuladas de seu

artista tiram uma colher da bandeja ou apertam a alavanca da prensa

de café. Você vê o vapor sobre o retrato. Você vê fantasmas, também, e

ouve vozes. Às vezes, você acha que é louco, outras vezes, que está

possuído. Mas, na verdade, você só está acordado.

Que azar.

— Quero ir embora, tio.

Arthur ergue uma sobrancelha para o rapaz, sugerindo que uma

conversa sobre educação acontecerá na volta. Só que então olha para o

relógio, um Timex grande, estilo anos 1970, com uma pulseira prateada.

Salvador oferece café aos dois.

Arthur recusa educadamente.

Ele vira um pouco o pulso para checar o relógio outra vez.

Andrew percebe que Arthur não tem celular e o adora por isso.

Marcus fica olhando, repentinamente tranquilo, como se conformado

com o problema mental que está tendo.

— Bem, acho que a sra. Simpson vai chegar com o carro em breve, e

é melhor não a deixarmos esperando. Obrigado pela hospitalidade, sr.

Blankenship.

— Agradeço pela conversa.

Os três homens se levantam.

Salvador está de pé entre eles, na porta da frente, então Marcus se

dirige até a porta lateral, depois de sair da cozinha.

— Ah, não! — fala Andrew. — As escadas ali são perigosas. É

melhor voltar por onde veio.

Salvador dá um passo para o lado, em leve reverência.

Esta é a minha casa e você deve sair pelo mesmo lugar por onde

entrou.

— Não se esqueça do que eu falei sobre a biblioteca — diz ele a

Marcus. — Isso pode explicar um pouco as coisas.

— Obrigado — disse o jovem baixinho, mas ele só quer ir embora.

Ele não volta a olhar nos olhos de Andrew.

Controla-se para não sair correndo à frente de seu ponderado tio, não

descer correndo o caminho ladeado por árvores e entrar no SUV quente

onde a sra. Simpson cantarola músicas dos anos 1950 junto com o rádio,

e Jesus e os anjos ainda se defendem do mundo cruel e confuso do

demônio.