Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Christopher Buehlman · Capítulo 31 de 134

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Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Capítulo 30

 

Andrew-fora-de-Andrew sai correndo do celeiro — mais do que

correndo, trotando. Ele olha para o celeiro, mas não é exatamente como

olhar para trás de si, já que ele não tem pescoço para virar: parece que

ele é meio náutilo, se locomovendo pela água escura, com os tentáculos

atrás dele. Nada corre atrás de Andrew. Ele é nada, não tem nada.

O celeiro fica para trás, a luz passando pelas paredes com tábuas de

pinheiro, banhando a grama alta e as árvores pequenas ao redor em um

dourado fraco. Anneke está lá, fumando seu Winston até o filtro,

guardando com sua consciência o corpo meio ausente enquanto Andrew-

fora-de-Andrew passeia por Cayuga County. Ele se atira, o náutilo se

transforma em coruja, com a atenção voltada para a frente. As árvores se

aproximam e ele passa por elas, sentindo os ritmos mais lentos e baixos,

esvoaçando as folhas como se fosse uma brisa.

Nenhuma droga pode fazer isso.

Agora, segue pela costa sul e oeste, longe de Dog Neck Harbor,

passando baixo pela água, observando as luzes nas janelas, o brilho

azulado da televisão anestesiando pescadores e garçonetes cansados e

um deles pisca — pronto! —, e então os jovens pais começam a se

acariciar à vontade, já que os filhos foram dormir.

Não permita que a coisa veja você.

Não, sério, que porra É essa?

Essa não é a primeira coisa estranha que ele viu ao ficar fora do

corpo. Nem a mais assustadora. Mas pode ser a maior.

Ele se agita e rola, movendo-se devagar, brilhando como se tivesse

luz por dentro. Acha que provavelmente nunca saberá o que é. Sente

aquilo, não percebe malevolência nem boa vontade, apenas poder.

Indiferença. Um deus? Um demônio? Um alienígena? Nenhuma das

opções anteriores?

Se você sente essa coisa, talvez essa coisa possa sentir você.

Seu cordão estremece, quase o levando de volta ao corpo e quase... o

quê? Quase arrebentando?

Não aqui.

Não assim.

E aquilo para.

E começa a seguir na direção dele.

Pensa no Titanic afastando-se de seu iceberg, devagar, tarde demais.

Só que eu sou o Titanic e isso é o iceberg.

Ah, que se foda.

Ele voa mais baixo, sobrevoando a água como um pelicano.

Sabe que está gemendo no celeiro.

O cordão puxa, mas ele resiste.

Ainda não, ainda não aprendi o suficiente, não vou deixar essa coisa

me assustar. Mesmo que ela esteja me procurando, mesmo que devore

minha alma, desafio isso a me encontrar.

(Cuidado!)

Ele se aproxima da costa, sobe uma ribanceira baixa e vai para a

mata.

Agora se move como se tivesse pernas, como um raio.

Um morcego passa perto dele, por ele, pegando mosquitos e

mariposas. Ele se retrai, o corpo se remexendo no sofá, mas então o

morcego passa por ele de novo, e mais uma vez: o animal sabe que ele

está ali, está sentindo o que Anneke sentiu. Ele relaxa, deixa estar. Sente

aquele pequeno coração batendo centenas de vezes por minuto, sente a

mariposa entrando em sua boca, a alegria áspera que é a carne do inseto,

e então deseja que o morcego vá embora e ele vai, perdendo-se na noite.

Atrás de Andrew, um brilho avermelhado na água, ainda longe, mas

se movendo com mais rapidez agora. A trilha de fogo se torna uma

estrada pavimentada e ele se move pela lateral. Há uma casinha à

esquerda, a luz entrando pela janela da frente. Dentro, um sexagenário

de barba e óculos pequenos se inclina sobre um tabuleiro de xadrez, as

pernas cruzadas na altura dos joelhos em estilo europeu, mas Andrew sente que o homem é norte-americano, que treinou para fazer aquilo. Ele

move um peão branco, consulta um livro e então movimenta um peão

preto. Leva uma taça de vinho aos lábios e uma gota meio avermelhada

escorre por sua barba e, então, desaparece dentro dela.

Agora, o brilho está sobre a terra, porém mais longe, na direção de

Rochester. Ele se movia mais depressa quando não estava vendo.

Ou há mais de um deles.

É o seu medo falando. Só tem um. Ele não vê você, não quer você.

Ele voa de novo, movendo-se para a esquerda, de volta em direção à

água.

À sua direita, uma casinha preta, com escada de madeira que conduz

diretamente à varanda dos fundos.

Abaixo dele, a areia seca fica molhada e se torna rochas, aqui e ali

pontuada com restos de madeira ou algas marinhas. Observa a água de

novo e então vê.

Vê a si mesmo.

Um fantasma.

Dentro d’água.

O fantasma de um homem inchado e mais velho nada sob a superfície

do lago. Tem o corpo de um tom verde-acinzentado, como algas, e os

olhos são como dois buracos de luz, vidrados em Andrew.

Ele aparece.

Ah, merda, está na hora de ir.

O cordão balança.

A mão brilhante surge da água e segura algo.

Segura o cordão umbilical invisível que prende Andrew a seu corpo.

E o balança com força.

NÃO!

Balança com mais força.

POR FAVOR!

A cabeça fosforescente inchada do homem morto sai do lago e

abocanha o ar com os dentes negros. Andrew sente algo como dor onde

sua barriga deveria estar.

Agora é dor, uma dor muito forte.

O cordão é roído, mas os últimos fios são resistentes e a coisa não

consegue arrebentá-los.

Frio! Estou com frio!

Andrew tenta se afastar, mas é puxado para baixo por seu cordão

umbilical até um braço morto e gorducho envolver seu pescoço e puxá-

lo para baixo da superfície da água.

Como tenho um pescoço? Ah, merda, minha alma está quase toda

aqui agora, estou prestes a morrer. Socorro! SOCORRO! POR FAVOR!

O rosto morto se vira para ele.

Nenhuma bolha.

Ele não respira.

Mas fala.

Em russo.

— É desagradável se afogar.

Os olhos não cintilam mais. São apenas lâmpadas de um branco

leitoso, como o brilho que os peixes do fundo do mar usam para atrair a

presa.

Em pânico, Andrew tenta pensar no que fazer. Não consegue escapar

da meia chave de braço em que está preso, da massa macia, mas

insistente, lidando com sua não massa, e seu cordão não é forte o

bastante para trazê-lo de volta.

— Com sua permissão, gostaria de mostrar minha nova casa.

Dragomirov!

E eles mergulham.

Cada vez mais.

Eles passam por um cardume de peixes pretos, formas definidas

movendo-se pelas almas divididas. Um navio se aproxima na parte de

baixo, iluminado apenas pela luz fraca de um fantasma.

— Não é linda?

Andrew é derrubado, passa por uma brecha.

Vê um quinteto de esqueletos entre a névoa e os detritos, sentados a

uma mesa posta, com pratos e copos, com restos de suas roupas ao redor.

A rusalka tem andado ocupada.

Talvez tenha ocorrido apenas um afogamento por ano, se todos os

corpos estivessem ali, mas como aquilo começara antes de 1930 ela

deve ter acabado com muitas outras vidas.

Ela é uma mulher de um único desastre, em câmera lenta.

Ela é um monstro.

Agora Andrew, segurado pela nuca, está frente a frente com um

esqueleto sentado no canto.

— Olha. Esse aí sou eu. Você pode ver que as minhas roupas estão

em condições melhores e que aqueles malditos mexilhões não tiveram

tempo de crescer em mim como nos sujeitos esquecidos na sala de

máquinas. Ela cuida de nós, dos recentes. Mantém cada um asseado,

como bonecas em uma casa de brinquedo. Comprei esse jeans na

Nordstrom do International Mall, em Tampa. Cento e cinquenta dólares.

E agora observe. Observe o tratamento dentário que fiz no México, que

maravilha, esses dentes postiços, uma obra de arte com a assinatura do

dr. Hernan Rodriguez de Leon — e para quê? Para sua vaquinha

bonitinha me afogar por nada em um lago frio.

Sinto muito.

— Ao diabo com seu pesar.

A coisa gorda que o segura estremece com força, começa a se

desfazer, pedaços de sua não carne se soltando. Andrew consegue ver

partes daquilo agora, mas a luz está desaparecendo. Está escurecendo no

navio.

— Preciso ir agora, a vaca vai voltar.

Nadia!

— Mas quero dizer uma coisa, sr. Andrew. Você vai se arrepender

logo. Eu sei quem você é e vou contar a ela.

Sua sobrinha?

— Seu maldito filho da puta!

Ele ri agora, chacoalhando, quase sem luz. Sua voz está abafada,

como se estivesse se afogando outra vez.

— Mas vou pedir para ela acabar com você depressa. Se fizer algo

por mim.

O quê?

— Encontrar meu cachorro. Encontre Gasparzinho.