Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Christopher Buehlman · Capítulo 52 de 134

Páginas do PDF

Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Capítulo 53

 

A foto de Haint aparece no telefone de Andrew.

Ele está sorrindo, com muitos dentes, para a câmera de computador.

Está longe o suficiente para que Andrew possa ver ao redor e atrás

dele — consegue a melhor imagem do apartamento portátil de Haint.

O violinista de dreddy aparece atrás do homem vodu, fumando um

baseado enorme e mal enrolado, que parece prestes a se desfazer. Uma

iguana observa no braço do sofá, com serenidade. Há tijolos à vista atrás

do sofá, uma estante com um tipo de altar, uma Bíblia grande de couro,

um copo de dados. Vinagre dos quatro ladrões. Esculturas esquisitas nas

paredes. A peça visível com mais clareza parece um sol de ferro —

correntes de diferentes espessuras e em diferentes níveis de oxidação

formando um círculo de ferro cujo centro é uma armadilha enferrujada

para urso, montada e pronta.

Não é difícil imaginar o que esse negócio faz se a pessoa errada

entrar.

Nem Haint nem Andrew falam por um momento.

— Gosto que você não diz nem olá. Está esperando notícias e só quer

saber disso. Qualquer outra coisa é besteira.

Andrew pisca os olhos, sente lampejos de alegria: Haint parece

satisfeito consigo mesmo. Deve ter boas notícias.

Será que...?

Haint levanta uma pele de carneiro coberta de sangue seco, uma

abertura em formato de sorriso deixando uma ponta para pendurar. Haint

começa a dançar, exibindo a pele, e então passa a cantar.

— Ding-dong, a cadela está morta, mortinha. Matei ela, ding-dong, a

cadela russa está moooooorta.

O homem do sofá pisca em meio à fumaça do baseado girando acima

de sua cabeça, como se tivesse acabado de se dar conta de que seu excêntrico anfitrião pode mesmo matar pessoas. Parece rejeitar a ideia,

traga de novo, inclina-se para soltar a fumaça na cara da iguana como se

estivesse fazendo um favor ao réptil, que só pisca.

O coração de Andrew está acelerado, a respiração, ofegante. Ele se

lembra da cabana, da última vez em que pensou que ela estivesse morta.

O velho e macabro lance. Ninguém se torna velho sendo morto com

facilidade, mas é uma nova era. A tecnologia pode ter tornado a inimiga

vulnerável. A faca efésia e amaldiçoada de Haint se uniu à foto de

satélite, descendo como o míssil de um avião para matar a bruxa em seu

jardim.

Ajude-me, bombardeiro!

Ele afasta o velho medo, apega-se à nova esperança que Haint lhe dá.

A evidência na pele.

Tanta.

— Você tem certeza?

Haint não fala.

E então desanda a narrar.

— Aquela manchinha ali é minha, sangue meu para aprontar a faca.

O resto, todo o resto, é dela. Eu avistei em minha mente. Ela estava

agachada no jardim, escavando um nabo ou algo assim, e nem sequer

viu o brilho na lâmina da faca. Não que houvesse muito brilho, cara,

porque o lugar ali é mata fechada. Mas eu fiz zip e ela gritou gaa! E foi

isso...

Ao contar, ele anda para trás, pega a iguana pela cauda e bate com

força no chão, segurando para que Andrew consiga ver os últimos

espasmos. Andrew faz força para não demonstrar repúdio em seus olhos,

deixando-os calmos. O cara de dreddy não acompanha a calma de

Andrew. Fica assustado com a velocidade e a brutalidade de Haint,

derruba o baseado no colo, se queima e solta um “PORRA, cara!”.

— PORRA, cara! — imita Haint, jogando o réptil morto sobre ele,

fazendo o músico se levantar, ainda tirando as cinzas quentes da calça.

Gotas de sangue da cabeça da iguana marcam sua camiseta.

— Isso não é LEGAL! — comenta ele, parecendo menos assustado do

que deveria.

Isso é muito pior do que não ser legal!

Saia daí!

Haint olha para Andrew, com as sobrancelhas erguidas de modo

desdenhoso, como se dissesse: Dá para acreditar nesse cara?

— Verifique e traga o lance — diz ele a Andrew.

Parecendo feliz consigo mesmo.

Andrew concorda.

Deveria desligar o telefone, mas não consegue.

Esta é a maior fraqueza de um usuário: a necessidade de saber o que

acontece, como as coisas funcionam, ver o que os outros não veem, por

mais cruel e feio que seja. Principalmente se for cruel e feio.

O cara pega a bolsa de lona, sai batendo os pés atrás de Haint e então

volta na outra direção.

— Cadê a porra da porta? — pergunta.

Haint ergue as sobrancelhas de novo.

Esfrega as mãos pelas laterais cheias de cicatrizes do couro cabeludo,

de frente para trás.

Desliga a câmera.

Deixa o som ligado.

Sabe que Andrew vai ouvir.

Está fazendo isso por Andrew, porque gosta dele e quer que ele fique

surpreso, desconfortável e com raiva.

Haint só respeita outros usuários.

— Você está me dizendo mesmo o que é legal e o que não é legal na

MINHA casa?

— Só quero saber onde fica a porta, eu vou embora.

— Você ACHA que vai embora, mas não vai ainda.

— Olha, tudo bem, cara, só quero a porta.

— Não está tudo bem, cara. É a minha porta, cara, e você só vai usar

quando eu deixar.

— Abaixe isso.

O dedo de Andrew está pairando sobre o botão de finalizar a ligação,

mas é claro que ele não consegue pressioná-lo.

— Aí está você dizendo o que eu devo fazer na minha casa...

Um fala mais alto do que o outro.

— Por favor, só...

— Na porra da MINHA CASA!

— Eu quero ir...

— A casa de um homem é o seu castelo, e você está no meu CASTELO...

— Certo, certo, calma aí... quer dizer, vamos...

— E, no meu CASTELO, você não deve recusar a minha HOSPITALIDADE.

— Certo, por favor, não...

— Coma.

Silêncio.

— Como gosto das coisas que você cozinha e do seu jeito de tocar,

vou dar uma chance pra você. Vou fazer a porta voltar e deixar você sair

daqui se comer essa merda. Inteirinha.

— Por favor.

— POR FAVOR NADA, NÃO ESTOU FAZENDO FAVOR NENHUM, VOCÊ VAI

COMER ESSA MERDA .

Silêncio.

— Tome um pouco de pimenta.

Chamada finalizada.