Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Christopher Buehlman · Capítulo 81 de 134

Páginas do PDF

Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Capítulo 82

 

O homem que costumava ser o professor Coyle tenta não tremer

enquanto monta o pequeno tanque de plástico. O kit veio pelo correio

dois dias antes: um tanque T-34 da Tamiya, de escala 1/35. Deve pintá-

lo de branco-gelo e camuflá-lo com lodo e galhos de árvore. A

camuflagem em si já era difícil, mas o modelo era ainda pior. Os olhos

dele não estão tão bons e ele treme. Quando treme, comete erros, e ela

não tolera erros.

Ele já se cortou duas vezes com seu estilete. Procurou durante dez

minutos, engatinhando, por uma roda em miniatura que tinha se

desprendido da lagarta do tanque.

Foram erros pequenos.

Ele coloca o capuz quando ela chega para verificar o andamento do

trabalho. Ela é apenas um contorno para ele.

Quando ele comete erros pequenos, o Homem Frio queima sua pele

com gelo.

Ontem, ele cometeu um erro enorme.

Pegou um saco da gaveta do armário de cozinha, espremeu uma

generosa gota de cola modeladora e enfiou a cara dentro. Respirou

aquilo fundo e abriu uma janela perigosa e agradável em sua cabeça.

Estava sem vinho desde que fora adotado. Só lhe davam carne e pão

mofado para comer, e ele sabia, por algum motivo, que era errado comer

a carne.

Ele precisava de algo.

O barato era bom.

Fazia com que ele se tornasse corajoso.

E tolo.

Ele tentou correr.

Por causa de Jim Wilson.

Não era tão ruim ir buscar a caixa grande no aeroporto.

O Homem Frio tinha ficado esperando no fundo da van alugada.

Ele sabia que, se tentasse correr, o Homem Frio o pegaria e depois

encontraria sua esposa.

Ele havia ido ao balcão da American Eagle no Aeroporto

Internacional Syracuse Hancock e se identificado como o homem que

estava ali para apanhar Jim Wilson.

Jim Wilson era o eufemismo da companhia aérea para restos

humanos.

Ele assinou os documentos, dirigiu a van até onde a caixa poderia ser

carregada.

Pegou a caixa de papelão e a bandeja de perto do caixão sujo de

pinheiro.

Voltou, entregou a ela.

Ela havia feito coisas com o caixão naquela noite, depois que voltou

do lago.

Ela ressuscitou o morto.

 

Ele vira o morto fazendo exercícios, um homem morto e baixo, quase só

ossos, ossos marrons com apenas um pouco de pele. Uniforme militar

saindo do corpo, grande demais agora, medalhas no peito.

Embalsamado tantos anos antes. Agora, fazia exercícios leves,

aprendia a andar de novo, segurava o ombro dela. Mais feitiços. Mais

exercícios. A carne dele estava voltando, começando a voltar, pelo

menos. Ela jogou para ele uma bola de criança no quintal, para melhorar

os reflexos.

Era demais.

Eles mandaram o professor construir o modelo, e ele havia construído

modelos como uma criança.

Mas quando o homem surdo com o casaco de medalhas se aproximou

para observá-lo, instruí-lo, foi demais.

A mutuca fora ruim.

Ela o fizera ficar sem camisa na mata até uma mutuca chegar. Então,

apanhou o inseto e falou com ele com as mãos em conchas, antes de

colocá-la no ouvido do professor.

A mutuca voou para dentro do cérebro.

Agora, quando alguém falava russo com ele, a mutuca traduzia para o

inglês. Falava diretamente com o cérebro dele.

O morto pensava em russo, um russo horroroso.

A mutuca zumbia os pensamentos do morto na cabeça dele.

— Pintamos o marrom com o verde, como galhos. Aqui e ali.

O dedo morto apontava partes da torre do tanque.

Era demais.

Então, quando o morto saiu para aprender a se equilibrar em uma

viga, o Homem-que-Não-Olha-para-Ela cheirou cola.

Ele não se sentia tão bem assim desde que esfriara.

Ele viu com clareza.

Que podia correr e chegar até outras pessoas.

Levar a esposa para algum lugar quente.

Mas foi o morto quem o capturou.

Na estrada, perto da plantação de milho.

Um carro passou, o motorista olhando para a cena, como o morto se

jogava contra os joelhos dele, derrubando-o no chão e subindo em seu

peito, espalhando um fedor horroroso.

O motorista apenas se afastou, não parou.

Talvez não tenha visto.

O morto segurou a mandíbula dele com a mão ossuda e marrom,

Estou fazendo amizade com a morte!

sorriu seu sorriso horrível para ele.

Mexeu o dedo como se fosse uma criança levada.

E o arrastou de volta à força.

Ele foi apenas mais um exercício.

Ela sabia que ele correria, queria que o morto o pegasse.

 

Agora, o tanque está quase finalizado, e está bom.

Ele vai ajudá-la a fazer os homens de botão em seguida.

Ela está formando um pequeno exército para punir o Ladrão.

Para mostrar às bruxas americanas como uma bruxa russa é.

Então, ela vai voltar para casa.

Talvez.

 

Ela gosta dali.