Bem-Vindo à Casa dos Espíritos
Capítulo 36
Manhã.
A casa dos espíritos.
Os pássaros estavam cantando, e ele imagina que continuem, mas
Salvador preenche a casa com o barulho do aspirador de pó, talvez o
som mais doméstico dos sons de fundo da televisão americana.
A noite anterior foi repleta de horrores, mas a manhã parece estar tão
calma que tudo pode ter sido um pesadelo.
Terrível, terrível demais, mas aprendi muito.
Estou pronto para tentar mais.
Talvez hoje, depois que eu mostrar a casa às meninas?
Ele esfrega o umbigo, lembrando-se de como doeu quando a coisa do
lago mordeu o cordão.
Para o inferno com isso.
Nadia fuma e parte para o quintal, lá fora.
Anneke ainda não chegou.
Nada faz o mundo parecer comum como uma boa dose de rede social,
que deixa a alma apática. Andrew para diante de seu Mac, entra no
Facebook e rola a timeline. Assiste ao vídeo do esquilo dramático talvez
pela quinquagésima vez, mas mesmo assim rindo de novo. Passa pelos
convites para eventos, pelos joguinhos bobos, tipo Farmville, por uma
daquelas histórias sensacionalistas de sempre que se torna amarga no
fim com o “compartilhe, se não for um babaca” ou algo do tipo, e então
encontra a foto de Obama que compartilhou. O presidente O com óculos
bacanas, um sorrisão, erguendo a mão em um aceno, com legenda.
DESCULPEM POR EU TER DEMORADO TANTO
A MOSTRAR MINHA CERTIDÃO DE NASCIMENTO
— EU ESTAVA OCUPADO MATANDO BIN LADEN
Trinta e sete comentários.
Ele sabia, quando compartilhou, que era uma má ideia, um pouco
mais errada do que engraçada, mas estava cansado. Não causava
surpresa que aquilo tivesse gerado trinta e tantos comentários: a maioria
de seus amigos é liberal e a maior parte dos conservadores é educada o
bastante para não se meter no post alheio, mas algumas pessoas curtem
atacar uma plateia hostil.
Andrew chama esse esporte beligerante de “cabo de guerra” e, apesar
de nunca participar dessas coisas, seu irmão Charley deveria fazer parte
do hall da fama dos babacas das redes sociais.
Junto com John Dawes, do outro lado da rua.
Os dois se viam no círculo virtual de Andrew com tanta frequência
que viraram amigos, apesar de nunca terem se encontrado pessoalmente.
Aliás, se acabassem se conhecendo, um não gostaria do outro.
Charley é um forte propagandista de Jesus, usando a palavra Dele
para enriquecimento — ou seja, bem longe do Jesus-de-sandálias-e-
burrinho —, e Dawes tem um antigo rifle alemão e um cachorro bravo e
valente. É um cão de três patas (uma das qualidades inegáveis de Dawes
é seu voluntarismo e proteção a cães ferozes resgatados), mas o maldito
animal sabe correr. Andrew detesta passar de bicicleta por aquela casa,
porque corre o risco de parar no hospital e ainda ouvir de Dawes que a
culpa da coisa toda é sua. Charley pensaria que Dawes tem sérios
problemas emocionais (ele tem), e Dawes pensaria que Charley é um
falso imbecil (ele é).
Andrew quer muito que eles saiam juntos qualquer dia desses.
Nesse post, John Dawes (que, diga-se de passagem, nunca esteve no
Exército) está explicando os detalhes operacionais da missão de Bin
Laden, ao passo que Charles Blankenship está questionando o
patriotismo de Andrew, o que faz cerca de uma vez por mês.
Andrew gostaria de saber lançar feitiços pela internet — isso é coisa
de Radha —, porque faria com satisfação aparecerem duas fotos:
1. John Dawes depilando as bolas durante a reprise de A Ilha dos
Birutas.
2. Charles Blankenship, aos dez anos, com a mão no olho e fugindo
da menina negra que ele tentou chamar de crioula em 1965.
(Ironicamente, isso aconteceu em uma Festa de Halloween em Dayton, e
Charley estava vestido de índio, com cocar e tudo.)
Anneke bate à porta.
Ela foi passar a noite em casa e voltou.
Andrew a recebe usando seu roupão japonês, com chinelos Ugg de lã
nos pés.
Um aspirador está ligado, mas é desligado um segundo depois que a
porta se abre.
— Esta é a minha casa e você deve sair do mesmo jeito que entrou. É
importante.
Ele sempre diz isso quando ela vem.
— O que acontece se eu não sair?
— É importante.
Salvador passa atrás de Andrew, levando o aspirador de pó em uma
das mãos e segurando o fio com a outra.
A rusalka já está ali, usando um vestido, quase certamente a pedido
de Andrew. Um vestido de verão simples que fica um pouco curto nela,
molhado na parte de cima, porque os cabelos dela estão sempre
molhados.
Ele está mesmo fodendo com ela. Nariz, apresento-lhe um pregador
de roupas.
Antes de tudo, o café de Sumatra passado na prensa francesa.
Puro para Anneke.
Mel para a rusalka.
Essência de avelã para Andrew.
Salvador conhece como cada um gosta.
Ele se afasta quando o passeio começa.
Primeiro, a escada.
— Certo, esta é barata e básica. Vou mostrar a você.
Ele para no alto da escada.
— Anneke, você topa uma emoção? Pode ser que se machuque.
Ela sorri ao ouvir aquilo.
— Sim.
— Suba aqui.
Ela começa a subir a escada.
Andrew diz:
— Subida escorregadia.
A escada se torna uma rampa muito lisa e encerada.
Ela cambaleia para a frente, escorrega, mas cai de pé.
— Legal! — diz ela.
— Ziggurat.
A escada reaparece.
— Quer tentar de novo?
Ela assente, sorrindo, e volta a subir.
— Planta carnívora — diz ele.
A realidade parece se tornar um borrão.
Anneke tem a sensação de que está caindo, parando.
Primeiro, não compreende por que parece mais baixa, mas quando
tenta dar um passo percebe que afundou na madeira abaixo dela, como
se estivesse em uma areia movediça que ganhou firmeza de uma hora
para outra. Tudo abaixo de seus joelhos está imobilizado.
Sem pensar, ela olha para trás para ver a localização da rusalka.
Os olhos de Nadia estão estreitos e brilhando um verde luminoso
fraco.
— Não faça isso — diz Anneke.
— Fazer o quê? — pergunta ela, com sotaque.
— Olhar para mim como uma presa em uma armadilha ou seja lá o
que signifique essa cara de coitado.
— Ah. É só reflexo.
— Vamos começar de cima para baixo — comenta Andrew, enquanto
Nadia e Anneke sobem a escada. Uma única lâmpada se acende acima.
— Este é o meu sótão. A maioria das coisas aqui tem a ver com a
segurança da casa, então, por favor, não toquem em nada. Nadinha. E
não façam perguntas muito específicas a respeito dos itens. Quando um
feitiço agressivo é colocado em um objeto físico, a explicação dilui seu
poder. Às vezes, até o aciona.
— De que forma acionaria?
— Intenção. Visualização. Se alguém além do próprio criador sabe
exatamente o que o objeto faz e imagina aquilo acontecendo, então pode
fazer acontecer. “Alguém” no sentido de um usuário. Ou alguém com
uma imaginação particularmente fértil. Acredito que isso deva ser raro, e
nunca vi algo desaparecer porque foi explicado, mas já li que aconteceu.
Todos sobem.
As garotas olham ao redor.
O sótão está muito menos cheio do que Anneke esperava.
Algumas caixas de papelão e diversos tubos plásticos selados estão
encostados nas paredes, mas não é isso o que chama atenção.
A coruja se destaca.
O corujão-orelhudo, de olhos vidrados, do tipo grande suficiente para
tirar as águias de seus ninhos, fica no topo de uma estante comprida,
também habitada por um gaio-azul, dois corvos e um beija-flor.
Anneke e a rusalka notam uma forma que lembra um animal em cima
de um baú enorme, velho, coberto com um lençol empoeirado.
Independente do que seja, tem uma cauda longa, de réptil.
Andrew vê as duas observando, aproxima-se e tira o lençol.
— Que porra é essa?
— É um aspirador de pó com tubo Tri-Star antigo, claro. Levemente
modificado.
— Levemente modificado — diz Nadia, mostrando os dentes podres
em um sorriso de agradecimento.
A caixa triangular, que parece um buldogue, forma a base de uma
mescla perturbadora de ferramentas e partes taxidérmicas de animais. As rodas que normalmente sustentariam a parte de trás maior do aparelho
(agora revertida para servir como um peito inflado de uma fera) foram
substituídas pelos braços de um chimpanzé, apoiado em seus ombros,
com as mãos unidas como em oração. Um jacaré bem grande doou a
cauda serpenteante da ponta maior, onde a mangueira já tinha sido
encaixada. A tal mangueira foi passada para a ponta maior e usada como
o pescoço que segurava a cabeça, um tipo de cabeça de galo de latão e
metal com lentes de óculos grandes no lugar dos olhos e as pontas de
facas de cozinha como uma crista. O bico parece totalmente capaz de
furar um pneu de caminhão. Por via das dúvidas, o conjunto leva asas
dobradas de urubu ajeitadas nas costas inclinadas.
— Ele tem um nome? — pergunta Anneke.
— Na verdade, ela tem. E sei que está na forma de um galo... pensei
em chamá-la de “Billy” em homenagem ao cara que a soldou para
mim... mas algo nessa coisa puxa o feminino.
Ele sussurra o nome a ela.
— Electra.
Em seguida, o trio passa por um tipo de tanque de peixes com um monte
de terra até a metade. Cabides entrecruzados ficam por cima e, a partir
dessa estrutura, presos por fios dourados, sustentam uma miniatura da
casa dos espíritos, perfeita em todos os detalhes.
— Mas o quê...? — começa Anneke.
— Não faça nenhuma pergunta sobre isso — Andrew diz. — Vamos
seguir em frente.
— O quarto — diz ele, do modo mais neutro possível.
— Fique na porta — diz ele a Anneke.
— Por que sempre ela? — pergunta a rusalka, magoada. — Quando
vou conseguir fazer alguma coisa?
— Não sei bem como isso vai funcionar com você.
— Porque. Não. Sou. Uma. Pessoa — diz ela, com um pouco de
orgulho ferido.
Sem se impressionar, Andrew responde:
— É. Exatamente. Por. Isso.
Ele se deita na cama e se estica.
— Venha e sente na cama — pede ele a Anneke.
Ela obedece, olha ao redor, tentando descobrir qual vai ser o truque.
Nada acontece.
Ela só fica sentada.
— Agora, volte e repita o movimento, mas desta vez pensando em
me machucar.
— Com prazer — diz a mulher, rindo.
Agora, ela atravessa a sala meio abaixada, com a mão erguida, como
se segurasse uma faca invisível, pronta para atacá-lo no estilo Psicose.
Quando está no meio do caminho, a porta do closet se abre.
— Ah, merda — solta ela.
Dá mais um passo. Tudo acontece depressa.
O telefone no criado-mudo de Andrew toca.
Quatro objetos serpenteantes, castanhos e pretos, caem do closet de
Andrew, em alta velocidade.
Ela tenta cobrir o rosto com as mãos.
Não são cobras.
São cintos.
O couro arde em contato com a pele dela.
— Ah, merda!
Surpreso, Andrew solta um palavrão de dor.
Os cintos envolvem as mãos e os pés, amarrando e imobilizando
Anneke. Um quinto cinto se enrola no pescoço dela, apertando apenas o
suficiente para que ela sinta sua presença.
O motivo do xingamento de Andrew foi que o cinto que ele estava
usando o acertou. Sentiu um ardor do lado do corpo, pois a fivela o
atingiu ao partir na direção de Anneke.
O telefone toca de novo.
Levita sobre a cama, voa até ela.
Encaixa-se na orelha dela.
A voz de Andrew, pré-gravada: “Honi soit qui mal y pense! Tente
não se mexer muito, porque os cintos se apertam quando você luta.
Sobretudo aquele ao redor do pescoço. Vou estar com você assim que
possível”.
A linha cai, o telefone cai, fica no chão.
Nadia aplaude com delicadeza, como se estivesse na ópera.
O mago ajuda a tirar os cintos de Anneke.
— Por que você desperdiçou um grande assim?
— Vou recarregá-lo de novo amanhã. Não é o único aqui.
— O que foi dito em francês?
— Basicamente, pense em coisas boas.