Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Christopher Buehlman · Capítulo 88 de 134

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Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Capítulo 90

 

 

Anneke sai, só quer um pouco de ar fresco no rosto.

A coisa está na cama, esperando por ela.

Ela disse para esperar, e a coisa esperou.

Está bem obediente.

Ela fecha a porta ao sair, hesita, mas não cai.

Do lado de fora, a noite está brilhante com o luar.

Ela olha para a frente, vê a lua embaçada por suas lágrimas, seca os

olhos com as mangas.

Os pelos dos braços se eriçam um pouco.

Estou com frio?

Não.

Isso é magia.

Olha para o caminho que leva à sua casa, vê uma figura. Pela

sensação de magia, ela espera que seja Michael Rudnick, mas está

enganada. Ela acabou de se despedir de Michael em Vermont.

É uma mulher em um roupão preto de seda. Um véu de pesar cobre

seu rosto, mas ela é bem bonita.

Ela parece distante mas, quando Anneke se dá conta, percebe que está

perto, como se alguém tivesse avançado o filme, mas pode ter sido

apenas efeito do uísque.

O véu sobe.

É uma bela mulher, com maçãs do rosto protuberantes e olhos

puxados, bem azuis. A pintinha mais bonita perto do canto de sua boca.

Ela está me enfeitiçando.

Certo.

Não me importo.

O olhar da mulher é tão puro quanto o coração azul de uma geleira.

Ela se lembra da Rainha de Neve de Hans Christian Andersen.

Ela quer me beijar!

Um lábio se roça no dela.

Quente, não frio.

Seu hálito é de chá, menta e um pouco de alho.

Não é desagradável.

Longe disso.

Anneke se inclina para a frente para um novo beijo, mas a mulher se

afasta.

Sorri.

— Quero lhe dar algo — diz a mulher.

Sotaque russo.

— O quê?

— Hum... qual é a palavra em inglês? Um colar.

Ela cria

De onde?

um círculo de ferro com uma serpente comendo a própria cauda.

Como um objeto de uma escavação arqueológica. Algo protegido por

vidro em uma exposição de museu.

— É lindo.

— É velho. Você gostaria de usar?

Isso é errado.

Ela escuta a própria voz dizer:

— Sim.

Esta é a filha de Baba Yaga.

Andrew me contou sobre a pintinha.

Mas ela ajudou ele!

Ajudou a fugir!

— Abaixe a cabeça!

Anneke consegue se desvencilhar do feitiço o suficiente para dizer:

— Não faço isso.

A mulher inclina a cabeça, ainda sorrindo.

— Uma pena. Agora acho que vai doer.

A mulher dá um passo para trás e joga o colar em Anneke.

O colar se envolve no pescoço dela.

Agora, o objeto começa a arrastá-la para trás, pelo caminho para

longe de sua casa. Anneke enfia os dedos por baixo para evitar o aperto

da garganta.

Enquanto é arrastada pelo colar, vê a mulher caminhando atrás, de

modo casual, distraída.

Anneke vê uma pedra solta, do tamanho de um ovo pequeno, mas

melhor do que nada. Usa magia, lança a pedra contra a mulher, que voa

forte, mas sem direção. Anneke escuta quando a pedra cai na mata.

A mulher ergue uma sobrancelha e morde os lábios, aplaudindo com

ironia.

— Você deveria me ensinar a fazer isso — diz ela. — Os americanos

não fazem isso? Prometem ensinar os alunos? Você deveria ser a minha

professora.

Continua andando.

Chinelos nos pés, bordados.

É a pessoa mais linda e perigosa que eu já vi.

Elas passam por uma casa, o segundo vizinho mais próximo.

Uma senhora que Anneke nunca conheceu muito bem.

A mulher está levando o lixo para a calçada, de camisola de flanela,

com um laço bem feito na cintura.

Olha para as duas, balança a cabeça e cumprimenta:

— Boa noite.

— Boa noite — responde a bruxa.

— Que cachorro lindo — diz a vizinha, apontando Anneke. — Qual é

a raça?

— Um borzoi.

— Você mora aqui perto?

A bruxa responde:

— Estou passando uns dias com uns vizinhos — diz em inglês, e

então prossegue: — Você está me entediando — diz em russo.

A mulher começa a dormir ao lado da lata de lixo, em pé.

O colar vai arrastando Anneke.

A russa continua andando.

Um bolso se abre no jeans de Anneke.

Agora, o colar a coloca de pé.

Na sombra de algo bem grande.

Não é possível, porra.

Uma casinha.

Uma casinha de veraneio.

Com patas de galinha muitos grandes.

Abre as janelas para olhar para ela.

Dois olhos retangulares.

Dentro, o brilho leve da brasa, como se de um forno aberto

— Izba, Izba, devore essa mulher.

A pata de galinha pega Anneke pela cintura, sua força irresistível, e a

enfia pela porta aberta.

A porta se fecha com força.

Anneke não está sozinha.