Bem-Vindo à Casa dos Espíritos
Capítulo 104
Kolya e Vanya se ajoelham no caminho cheio de neve da mata perto da
casa.
A mulher se aproximou enquanto eles jogavam baralho: um jogo
improvisado em que precisavam inventar insultos para a mãe e as irmãs
do outro (“Meu rei de espadas diz que seu três de paus foi enfiado na
garganta de sua mãe pelo pênis do tenente”) enquanto os tanques eram
abastecidos. Ela se sentou ao lado deles e dividiu a vodca. Disse que, se
eles fossem com ela, poderiam se livrar da iminente batalha com os
alemães. Só teriam que matar um americano para ela.
— Não vai ser fácil — avisou a mulher. — Ele é um mago e tem
muitos truque. Vocês podem morrer. Mas escolhi vocês de uma lista de
mortos, pois sei que vão morrer se lutarem com os alemães. Kolya, você
será alvejado por um atirador enquanto mija. Vanya, um morteiro de 88
milímetros cairá tão perto de você que nenhuma parte sua será
encontrada e reconhecida.
Vanya vinha sendo perturbado por um pesadelo recorrente, em que o
sol se punha ao seu lado e o queimava todo. Ninguém conseguia
encontrá-lo, nem a mãe, caminhando pelo campo com um ícone de
Jesus.
Kolya odiava mijar exatamente por ter muito medo de atiradores.
Era como se ela tivesse visto dentro do coração deles.
— E os alemães? — perguntou Vanya.
— Deixem com meu amigo Frost — respondeu ela. Um lobo branco
com costelas aparentes caminhou entre as árvores, e então Vanya não
teve certeza de tê-lo visto. — A Rússia vai ser o cemitério de Hitler
mesmo sem vocês.
— Vou poder mijar sem medo? Você promete que eu não vou levar
um tiro enquanto mijar? — Kolya perguntou.
Ela assentiu.
Então, eles concordaram e os três beberam vodca com uma gota de
sangue dentro para selar o acordo.
Depois, Kolya e Vanya sonharam que eram crianças pequenas com
pele áspera e estavam famintos, por isso comeram a carne de um
homem.
E então saíram de um casebre que era, na verdade, um caminhão, mas
andava com patas.
E agora estão ali, juntos.
Atirando em uma casa.
Kolya atirou em um pássaro estranho que estava olhando para eles.
Vanya pensou que havia atirado em um homem, viu o vulto à sua
frente, apertou o gatilho com paciência e sentiu a emoção que um tiro
bem dado traz, mas o homem não foi atingido.
À direita deles, um russo aparece em chamas, gritando.
À esquerda, um motor tenta ser acionado, e então é.
O chão treme.
Como uma coluna de blindados passando, mas muito mais forte.
— Meu Deus — diz Vanya.
Kolya aponta o rifle, mas ele parece algo inútil em suas mãos.
Os faróis de um carro batido desconhecido foram acesos no quintal
da frente, à esquerda dos russos. Outro soldado soviético que eles não
conhecem estava se protegendo atrás de uma grande rocha perto do
carro, metralhando o sótão.
Agora, o capô do carro se torna uma boca.
Uma boca de ferro de um novilho.
O soldado dá um salto para trás, assustado.
Depressa, como um gato comendo um rato, o carro se abaixa sobre o
homem, amassando-o.
O carro se torna a cabeça de um gigante feito de árvore, raízes de
árvore, pedregulhos e outros carros.
Esse gigante tem chifres.
Chifres de touro.
É um homem de metal. Pedra e madeira. Com um crânio de touro
com chifres compridos feitos de ferro.
Faróis no lugar de olhos.
Ele sai do chão, deixando para trás um buraco do tamanho de um
pequeno porão.
Derrubando poeira e pequenas pedras.
Um caminhão enferrujado se desfaz em pedaços, tornando-se peças.
A armadura de um soldado grego — protetores do joelho, do abdome
e malha — se enrola em dois segundos no corpo de madeira, pedra e
aço.
O soldado soviético ainda continua pendurado na boca.
A criatura o cospe.
É tão alta quanto a casa.
O que cai no quintal não é um homem, e sim um boneco sem vida.
Menor do que um gato.
Com botões no lugar dos olhos.