Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Christopher Buehlman · Capítulo 102 de 134

Páginas do PDF

Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Capítulo 104

 

Kolya e Vanya se ajoelham no caminho cheio de neve da mata perto da

casa.

A mulher se aproximou enquanto eles jogavam baralho: um jogo

improvisado em que precisavam inventar insultos para a mãe e as irmãs

do outro (“Meu rei de espadas diz que seu três de paus foi enfiado na

garganta de sua mãe pelo pênis do tenente”) enquanto os tanques eram

abastecidos. Ela se sentou ao lado deles e dividiu a vodca. Disse que, se

eles fossem com ela, poderiam se livrar da iminente batalha com os

alemães. Só teriam que matar um americano para ela.

— Não vai ser fácil — avisou a mulher. — Ele é um mago e tem

muitos truque. Vocês podem morrer. Mas escolhi vocês de uma lista de

mortos, pois sei que vão morrer se lutarem com os alemães. Kolya, você

será alvejado por um atirador enquanto mija. Vanya, um morteiro de 88

milímetros cairá tão perto de você que nenhuma parte sua será

encontrada e reconhecida.

Vanya vinha sendo perturbado por um pesadelo recorrente, em que o

sol se punha ao seu lado e o queimava todo. Ninguém conseguia

encontrá-lo, nem a mãe, caminhando pelo campo com um ícone de

Jesus.

Kolya odiava mijar exatamente por ter muito medo de atiradores.

Era como se ela tivesse visto dentro do coração deles.

— E os alemães? — perguntou Vanya.

— Deixem com meu amigo Frost — respondeu ela. Um lobo branco

com costelas aparentes caminhou entre as árvores, e então Vanya não

teve certeza de tê-lo visto. — A Rússia vai ser o cemitério de Hitler

mesmo sem vocês.

— Vou poder mijar sem medo? Você promete que eu não vou levar

um tiro enquanto mijar? — Kolya perguntou.

Ela assentiu.

Então, eles concordaram e os três beberam vodca com uma gota de

sangue dentro para selar o acordo.

Depois, Kolya e Vanya sonharam que eram crianças pequenas com

pele áspera e estavam famintos, por isso comeram a carne de um

homem.

E então saíram de um casebre que era, na verdade, um caminhão, mas

andava com patas.

 

E agora estão ali, juntos.

Atirando em uma casa.

Kolya atirou em um pássaro estranho que estava olhando para eles.

Vanya pensou que havia atirado em um homem, viu o vulto à sua

frente, apertou o gatilho com paciência e sentiu a emoção que um tiro

bem dado traz, mas o homem não foi atingido.

À direita deles, um russo aparece em chamas, gritando.

À esquerda, um motor tenta ser acionado, e então é.

O chão treme.

Como uma coluna de blindados passando, mas muito mais forte.

— Meu Deus — diz Vanya.

Kolya aponta o rifle, mas ele parece algo inútil em suas mãos.

Os faróis de um carro batido desconhecido foram acesos no quintal

da frente, à esquerda dos russos. Outro soldado soviético que eles não

conhecem estava se protegendo atrás de uma grande rocha perto do

carro, metralhando o sótão.

Agora, o capô do carro se torna uma boca.

Uma boca de ferro de um novilho.

O soldado dá um salto para trás, assustado.

Depressa, como um gato comendo um rato, o carro se abaixa sobre o

homem, amassando-o.

O carro se torna a cabeça de um gigante feito de árvore, raízes de

árvore, pedregulhos e outros carros.

Esse gigante tem chifres.

Chifres de touro.

É um homem de metal. Pedra e madeira. Com um crânio de touro

com chifres compridos feitos de ferro.

Faróis no lugar de olhos.

Ele sai do chão, deixando para trás um buraco do tamanho de um

pequeno porão.

Derrubando poeira e pequenas pedras.

Um caminhão enferrujado se desfaz em pedaços, tornando-se peças.

A armadura de um soldado grego — protetores do joelho, do abdome

e malha — se enrola em dois segundos no corpo de madeira, pedra e

aço.

O soldado soviético ainda continua pendurado na boca.

A criatura o cospe.

É tão alta quanto a casa.

O que cai no quintal não é um homem, e sim um boneco sem vida.

Menor do que um gato.

Com botões no lugar dos olhos.