Bem-Vindo à Casa dos Espíritos
Capítulo 76
Mais tarde.
Radha se senta na frente do computador.
Está vestindo o pijama-macacão dos Muppets, um macacão com o
Animal nos dois pés.
O colega com quem divide a casa, um dançarino fabulosamente gay,
um Michael que escreve o nome com y e não faz ideia de que ela é uma
bruxa, só vai chegar do ensaio depois da meia-noite: a estreia de Equus
vai acontecer em menos de uma semana. Ela fez os cenários, três
dançarinos com máscaras de cavalo congelados em movimento
sincrônico contra um fundo verde-pera. As máscaras têm um look
distópico, algo que H.R. Giger poderia ter feito, e os dançarinos parecem
desequilibrados, prestes a cair. Ela sente grande orgulho de sua arte.
Sente menos orgulho do problema persistente que seu computador
parece ter. Mesmo com toda a análise, proteção e digitação de códigos,
parece que não tem jeito. O vírus interferiu na capacidade que Radha
tem de localizar o ucraniano, impedindo que ela o encurrale. Sem falar
que ele encontra e infecta qualquer outro equipamento em que ela tente
acessar a internet.
Sou o vetor.
Ele se esconde em mim de algum jeito.
Trata-se de cibermagia de alto nível.
Como ele faz isso?
Ela está elaborando um feitiço para criar um tipo de anticorpo ao
sistema, e tem certeza de que vai dar certo, mas escrever o código
específico do invasor demora. Além disso, ela tem que conseguir o
sangue de um cão de guarda. Ela já escolheu o cachorro, um pastor-
alemão que latiu para ela atrás do portão branco de ferro fundido de uma
casa a dois quarteirões de seu condomínio, a caminho da loja de doces. Ela poderia fazer o cachorro cochilar com um feitiço mas, como não é
boa com mágica animal, gastaria elementos de que precisa para
encontrar o vírus do computador.
Por isso, vai pegar o tranquilizante com um veterinário.
Ainda que odeie agulhas.
Talvez ela encante ou pague um flebotomista para ir junto.
E, quando a infecção for resolvida, ela poderá partir para a ofensiva.
Radha encontrou um feitiço brasileiro muito ameaçador que liquidifica
ossos e já testou em um filhote de carneiro. O coitadinho fez uma
dancinha espasmódica e soltou fumaça antes de murchar como um
balão. Ela está mais do que pronta para experimentar isso em seu amigo
eslavo.
Ela nunca duelou com outro usuário e, ainda que esteja um pouco
assustada, acima de tudo, está animada. Os americanos têm a melhor
magia de informática, e ela está entre os melhores nos Estados Unidos.
É uma brincadeira para bruxas jovens. Talvez apenas
sealiongod@me.com seja melhor, mas ele está em San Francisco.
Beleza.
Um iogurte grego com amêndoas e mel.
Um cálice de gewürztraminer.
Uma hora de código.
Então, outra taça de gewürztraminer enquanto Mykel esfrega
pomada nas canelas e reclama das escolhas do diretor.
Quando ela volta da cozinha, algo está errado.
O protetor de tela com três cavaleiros se transformou em um GIF: as
figuras agora se movem em loop, fazendo um plié, girando sem parar.
Merda! Ele passou!
Ela tira a colher coberta de iogurte da boca.
Uma das cabeças de cavalo cutuca a tela, aponta como se fosse um
plástico flexível. Acontece devagar e então depressa, como se alguém
acelerasse um filme.
Primeiro uma cabeça de cavalo de verdade, depois o corpo de um
homem de verdade, e o monstro brota do computador, derrubando a cadeira dela.
Os outros dois homens-cavalos simplesmente aparecem atrás, na
entrada mágica.
Ela está prestes a usar o feitiço brasileiro quando se dá conta de que
não tem certeza do que essas coisas são feitas, se elas têm ossos.
Agora, o primeiro monstro parte para cima de Radha, segura seus
ombros e a encosta na parede.
A violência a deixa chocada — ninguém a domina.
Tão forte, tão rápido.
Estou em perigo.
Não.
Eu SOU o perigo.
A primeira regra de um combate mágico é Seja a coisa mais perigosa
na luta.
Acredite e será verdade.
Ela relaxa o máximo que consegue, sente o formigamento da mágica
despertando; no entanto, antes que possa pronunciar um feitiço, a mão
do homem-cavalo chega para cobrir sua boca. Ela morde, mas parece
que ele não se importa. A mão começa a sufocá-la. A segunda criatura
surge por baixo do braço do amigo e morde Radha.
Você arrancou meu mamilo, porra!
Ela não consegue nem gritar.
Lágrimas de dor se empoçam em seus olhos, borrando a imagem da
coisa que está tirando sua vida. A terceira criatura pega o taco de
beisebol que ela deixa ao lado da cama.
Eles têm ossos
Foi um erro não usar o feitiço
Morrendo
Ela se lembra de outro feitiço.
Imagina a parte esquerda do pijama se rasgando, o que de fato
acontece, expondo seu pé descalço. Ela procura a tomada, mas está
longe demais.
Então prolonga a perna magicamente, para o dobro do comprimento,
encontra a tomada e encosta a sola do pé contra ela.
Imagina-se feita de cobre.
Torna-se um conduíte.
O segundo monstro começou a morder sua orelha.
Péssima hora.
Para tocá-la ali.
Radha lança tanta eletricidade nos homens-cavalos que eles
relincham de dor e saltam em seus pés flexionados de homens, em
convulsão.
Ela sente cheiro de pelo equino queimando.
Eles caem.
A traqueia está avariada, mas não destruída.
Ela puxa ar.
Tosse.
O terceiro está quase em cima dela, com o taco erguido, a um
segundo e meio de atingir seu crânio.
O que não chega a acontecer.
Ela estica o braço, batendo a palma da mão no focinho do inimigo,
segurando.
Ela escuta um pop! e vê uma névoa quase cômica de fumaça sair da
cabeça dele, que fica dura, pouco antes da coisa cair e convulsionar.
Agora ela está irritada.
Ela olha para o computador, vê um olho no canto da tela.
Ele pisca duas vezes e desaparece, mas tarde demais.
Radha corre até o computador.
Vê seu reflexo na tela escura, fraca, tornando-se maior, o sangue de
seu seio ferido manchando o pijama.
Ela salta.
Yuri preparou o feitiço há uma semana.
Fez a cabeça de cavalo em 3-D usando a arte da mulher como
modelo. Ensinou as criaturas a matar e a não deixar que a mulher falasse.
Agora está na hora.
Ele precisa conseguir.
Seu feitiço fraco não vai se segurar por muito tempo, queima
combustível demais e, se ela o encontrar, será seu fim. Ele sabe que não
é tão forte quanto ela. Sabe que só é forte porque Baba o fez forte,
colocando nele a magia que roubou de outros.
Só tem uma chance.
Ele observa os monstros ganharem vida, envia as criaturas pela tela,
acreditando que finalmente pegou Chicagohoney85. Acredita que ela
precisa de um computador, como ele, e que se tornará vulnerável sem
isso, como ele. Criaturas assim teriam arrebentado Yuri sem muita
dificuldade.
Mas ela não é fraca.
O feitiço com a tomada é extraordinário.
Genial!
— Xhm — solta ele, vendo tudo como uma partida de videogame que
tomou um rumo indesejado. Em tese, percebe que estará em perigo a
partir de agora, mas só sente isso na prática ao constatar que
Chicagohoney85 o percebe, ao avistar o olho, ao sentir o olhar dela.
Ele desliga a câmera, mas é tarde demais.
Ela passa uma mão pela tela.
Ele volta a clicar no botão da câmera, afastando-se da mão que tenta
pegá-lo.
Sente a eletricidade daquilo, sabe que vai torrar como um amendoim
se for tocado.
Ele grita, afasta a cadeira.
Agora, ela está enfiando a cabeça.
Devagar, como se fosse através de uma membrana transparente.
Ela o vê!
Atrás dela, um dos homens-cavalos, aquele que a mordeu, está de
joelhos, vomitando, quase morto.
Mas ainda vivo.
— Plugue! — diz Yuri em russo.
O homem-cavalo cambaleia para o lado.
A cabeça de Radha está atravessando.
Ele sente uma mágica forte, sabe que vai morrer se ela falar.
A boca da mulher já passou.
Atrás dela, o monstro do quarto desaparece engatinhando para baixo
da mesa do computador, gemendo de dor.
Ela escuta os gemidos.
Escuta o monstro engatinhar, bater a cabeça na mesa.
Sabe o que está prestes a acontecer.
Não há tempo para mudar de direção.
Ela estragou tudo.
Em vez de dizer o feitiço brasileiro que teria feito o homenzinho
morrer de um modo horroroso, ela diz “Não”.
Só isso.
Como uma criança decepcionada.
O monstro puxa o plugue.
A maior parte da cabeça dela e uma mão, decepadas com precisão,
caem no teclado de Yuri. A cabeça rola no chão.
Yuri observa a cabeça se esvaziar no linóleo, uma piscina se
espalhando, os olhos assustados da bela garota olhando para o teto,
vendo, e então não vendo.
O gato vem bisbilhotar e, em seguida, se afasta, com uma pata
molhada deixando marcas no chão.
Yuri desmaia.
No quarto, o corpo de Radha, sem uma das mãos, cortado em uma linha
diagonal que começa no queixo e continua pelas orelhas, cai sobre o
homem de cabeça de cavalo, soltando a carga estocada. Os dois corpos
pegam fogo. O que não deveria ter existido desaparece, assim como os
outros dois monstros.
A polícia vai concluir que Radha Rostami morreu em um estranho
acidente elétrico.
O colega que dividia o apartamento vai dizer ao seu namorado que
foi uma combustão humana espontânea.
Ele nunca mais vai dormir naquele apartamento de novo.