Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Christopher Buehlman · Capítulo 75 de 134

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Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Capítulo 76

 

Mais tarde.

Radha se senta na frente do computador.

Está vestindo o pijama-macacão dos Muppets, um macacão com o

Animal nos dois pés.

O colega com quem divide a casa, um dançarino fabulosamente gay,

um Michael que escreve o nome com y e não faz ideia de que ela é uma

bruxa, só vai chegar do ensaio depois da meia-noite: a estreia de Equus

vai acontecer em menos de uma semana. Ela fez os cenários, três

dançarinos com máscaras de cavalo congelados em movimento

sincrônico contra um fundo verde-pera. As máscaras têm um look

distópico, algo que H.R. Giger poderia ter feito, e os dançarinos parecem

desequilibrados, prestes a cair. Ela sente grande orgulho de sua arte.

Sente menos orgulho do problema persistente que seu computador

parece ter. Mesmo com toda a análise, proteção e digitação de códigos,

parece que não tem jeito. O vírus interferiu na capacidade que Radha

tem de localizar o ucraniano, impedindo que ela o encurrale. Sem falar

que ele encontra e infecta qualquer outro equipamento em que ela tente

acessar a internet.

Sou o vetor.

Ele se esconde em mim de algum jeito.

Trata-se de cibermagia de alto nível.

Como ele faz isso?

Ela está elaborando um feitiço para criar um tipo de anticorpo ao

sistema, e tem certeza de que vai dar certo, mas escrever o código

específico do invasor demora. Além disso, ela tem que conseguir o

sangue de um cão de guarda. Ela já escolheu o cachorro, um pastor-

alemão que latiu para ela atrás do portão branco de ferro fundido de uma

casa a dois quarteirões de seu condomínio, a caminho da loja de doces. Ela poderia fazer o cachorro cochilar com um feitiço mas, como não é

boa com mágica animal, gastaria elementos de que precisa para

encontrar o vírus do computador.

Por isso, vai pegar o tranquilizante com um veterinário.

Ainda que odeie agulhas.

Talvez ela encante ou pague um flebotomista para ir junto.

E, quando a infecção for resolvida, ela poderá partir para a ofensiva.

Radha encontrou um feitiço brasileiro muito ameaçador que liquidifica

ossos e já testou em um filhote de carneiro. O coitadinho fez uma

dancinha espasmódica e soltou fumaça antes de murchar como um

balão. Ela está mais do que pronta para experimentar isso em seu amigo

eslavo.

Ela nunca duelou com outro usuário e, ainda que esteja um pouco

assustada, acima de tudo, está animada. Os americanos têm a melhor

magia de informática, e ela está entre os melhores nos Estados Unidos.

É uma brincadeira para bruxas jovens. Talvez apenas

sealiongod@me.com seja melhor, mas ele está em San Francisco.

Beleza.

Um iogurte grego com amêndoas e mel.

Um cálice de gewürztraminer.

Uma hora de código.

Então, outra taça de gewürztraminer enquanto Mykel esfrega

pomada nas canelas e reclama das escolhas do diretor.

Quando ela volta da cozinha, algo está errado.

O protetor de tela com três cavaleiros se transformou em um GIF: as

figuras agora se movem em loop, fazendo um plié, girando sem parar.

Merda! Ele passou!

Ela tira a colher coberta de iogurte da boca.

Uma das cabeças de cavalo cutuca a tela, aponta como se fosse um

plástico flexível. Acontece devagar e então depressa, como se alguém

acelerasse um filme.

Primeiro uma cabeça de cavalo de verdade, depois o corpo de um

homem de verdade, e o monstro brota do computador, derrubando a cadeira dela.

Os outros dois homens-cavalos simplesmente aparecem atrás, na

entrada mágica.

Ela está prestes a usar o feitiço brasileiro quando se dá conta de que

não tem certeza do que essas coisas são feitas, se elas têm ossos.

Agora, o primeiro monstro parte para cima de Radha, segura seus

ombros e a encosta na parede.

A violência a deixa chocada — ninguém a domina.

Tão forte, tão rápido.

Estou em perigo.

Não.

Eu SOU o perigo.

A primeira regra de um combate mágico é Seja a coisa mais perigosa

na luta.

Acredite e será verdade.

Ela relaxa o máximo que consegue, sente o formigamento da mágica

despertando; no entanto, antes que possa pronunciar um feitiço, a mão

do homem-cavalo chega para cobrir sua boca. Ela morde, mas parece

que ele não se importa. A mão começa a sufocá-la. A segunda criatura

surge por baixo do braço do amigo e morde Radha.

Você arrancou meu mamilo, porra!

Ela não consegue nem gritar.

Lágrimas de dor se empoçam em seus olhos, borrando a imagem da

coisa que está tirando sua vida. A terceira criatura pega o taco de

beisebol que ela deixa ao lado da cama.

Eles têm ossos

Foi um erro não usar o feitiço

Morrendo

Ela se lembra de outro feitiço.

Imagina a parte esquerda do pijama se rasgando, o que de fato

acontece, expondo seu pé descalço. Ela procura a tomada, mas está

longe demais.

Então prolonga a perna magicamente, para o dobro do comprimento,

encontra a tomada e encosta a sola do pé contra ela.

Imagina-se feita de cobre.

Torna-se um conduíte.

O segundo monstro começou a morder sua orelha.

Péssima hora.

Para tocá-la ali.

Radha lança tanta eletricidade nos homens-cavalos que eles

relincham de dor e saltam em seus pés flexionados de homens, em

convulsão.

Ela sente cheiro de pelo equino queimando.

Eles caem.

A traqueia está avariada, mas não destruída.

Ela puxa ar.

Tosse.

O terceiro está quase em cima dela, com o taco erguido, a um

segundo e meio de atingir seu crânio.

O que não chega a acontecer.

Ela estica o braço, batendo a palma da mão no focinho do inimigo,

segurando.

Ela escuta um pop! e vê uma névoa quase cômica de fumaça sair da

cabeça dele, que fica dura, pouco antes da coisa cair e convulsionar.

Agora ela está irritada.

Ela olha para o computador, vê um olho no canto da tela.

Ele pisca duas vezes e desaparece, mas tarde demais.

Radha corre até o computador.

Vê seu reflexo na tela escura, fraca, tornando-se maior, o sangue de

seu seio ferido manchando o pijama.

Ela salta.

 

Yuri preparou o feitiço há uma semana.

Fez a cabeça de cavalo em 3-D usando a arte da mulher como

modelo. Ensinou as criaturas a matar e a não deixar que a mulher falasse.

Agora está na hora.

Ele precisa conseguir.

Seu feitiço fraco não vai se segurar por muito tempo, queima

combustível demais e, se ela o encontrar, será seu fim. Ele sabe que não

é tão forte quanto ela. Sabe que só é forte porque Baba o fez forte,

colocando nele a magia que roubou de outros.

Só tem uma chance.

Ele observa os monstros ganharem vida, envia as criaturas pela tela,

acreditando que finalmente pegou Chicagohoney85. Acredita que ela

precisa de um computador, como ele, e que se tornará vulnerável sem

isso, como ele. Criaturas assim teriam arrebentado Yuri sem muita

dificuldade.

Mas ela não é fraca.

O feitiço com a tomada é extraordinário.

Genial!

— Xhm — solta ele, vendo tudo como uma partida de videogame que

tomou um rumo indesejado. Em tese, percebe que estará em perigo a

partir de agora, mas só sente isso na prática ao constatar que

Chicagohoney85 o percebe, ao avistar o olho, ao sentir o olhar dela.

Ele desliga a câmera, mas é tarde demais.

Ela passa uma mão pela tela.

Ele volta a clicar no botão da câmera, afastando-se da mão que tenta

pegá-lo.

Sente a eletricidade daquilo, sabe que vai torrar como um amendoim

se for tocado.

Ele grita, afasta a cadeira.

Agora, ela está enfiando a cabeça.

Devagar, como se fosse através de uma membrana transparente.

Ela o vê!

Atrás dela, um dos homens-cavalos, aquele que a mordeu, está de

joelhos, vomitando, quase morto.

Mas ainda vivo.

— Plugue! — diz Yuri em russo.

O homem-cavalo cambaleia para o lado.

A cabeça de Radha está atravessando.

Ele sente uma mágica forte, sabe que vai morrer se ela falar.

A boca da mulher já passou.

Atrás dela, o monstro do quarto desaparece engatinhando para baixo

da mesa do computador, gemendo de dor.

Ela escuta os gemidos.

Escuta o monstro engatinhar, bater a cabeça na mesa.

Sabe o que está prestes a acontecer.

Não há tempo para mudar de direção.

Ela estragou tudo.

Em vez de dizer o feitiço brasileiro que teria feito o homenzinho

morrer de um modo horroroso, ela diz “Não”.

Só isso.

Como uma criança decepcionada.

O monstro puxa o plugue.

A maior parte da cabeça dela e uma mão, decepadas com precisão,

caem no teclado de Yuri. A cabeça rola no chão.

Yuri observa a cabeça se esvaziar no linóleo, uma piscina se

espalhando, os olhos assustados da bela garota olhando para o teto,

vendo, e então não vendo.

O gato vem bisbilhotar e, em seguida, se afasta, com uma pata

molhada deixando marcas no chão.

Yuri desmaia.

 

No quarto, o corpo de Radha, sem uma das mãos, cortado em uma linha

diagonal que começa no queixo e continua pelas orelhas, cai sobre o

homem de cabeça de cavalo, soltando a carga estocada. Os dois corpos

pegam fogo. O que não deveria ter existido desaparece, assim como os

outros dois monstros.

A polícia vai concluir que Radha Rostami morreu em um estranho

acidente elétrico.

O colega que dividia o apartamento vai dizer ao seu namorado que

foi uma combustão humana espontânea.

Ele nunca mais vai dormir naquele apartamento de novo.