Bem-Vindo à Casa dos Espíritos
Capítulo 12
Como se tivesse sido chamado, Salvador desce a escada levando os
lençóis ensopados e fedorentos da suíte em direção à lavanderia no
porão. Se o retrato emoldurado de Salvador Dalí que servia como sua
cabeça conseguisse demonstrar qualquer expressão além dos olhos
arregalados do surrealista, o homem sério talvez pudesse erguer uma
sobrancelha. Ele adora ouvir seu nome.
Salvador vira o olhar pintado para Andrew e Nadia quando desce,
esperando ser chamado, mas não é. Então continua descendo com
cuidado os degraus, com as pernas com próteses de padrão militar.
No porão, Salvador se controla para não espalhar os lençóis e rolar
neles: o cesto no centro abriga o coração desgastado do border collie que
ele fora antes de o mago revivê-lo nessa forma, e esse coração ainda se
alegra com cheiros fortes, sobretudo no caso de peixe e fezes. Ele
inclina a cabeça de retrato em direção aos lençóis, divertindo-se com a
sujeira. Será um crime lavar esses odores deliciosos, mas, como ele ama
seu dono como apenas os cães amam, solta um suspiro canino e abre a
porta da máquina de lavar.