Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Christopher Buehlman · Capítulo 63 de 134

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Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Capítulo 64

 

Brant McGowan, o delegado de Cayuga County, segue o Toyota

vermelho.

Mantém-se atrás dele quando sai do posto de gasolina Fair Haven e

decide tentar ver o motorista.

Um sequestro de criança em Syracuse deixa todas as pessoas dali até

Watertown ansiosas. É o segundo caso em duas semanas, mas o único

com pistas. O primeiro foi um bebê levado de um carrinho, que

desapareceu ninguém sabe quando ou como. O incidente aconteceu em

Red Creek, e a mãe é a principal suspeita. Na mais recente ocorrência,

um desconhecido tirou um bebê do colo da própria irmã do neném

enquanto voltavam do parque a dois quarteirões de casa. O suspeito

aparece em flashes da câmera de segurança, saindo de seu Toyota Prius

vermelho, e a ação fazia Brant se lembrar de uma aranha-armadeira que

viu quando era criança na seção de insetos e aracnídeos de um

zoológico. Não faz tanto tempo. O delegado McGowan é um homem

jovem.

Assim como o cara do vídeo. Jovem e sujo para estar naquele tipo de

carro.

O delegado McGowan está de folga, voltando para sua casa em

Auburn em seu Saturn — não o tipo de veículo que chamasse atenção,

ainda que ele admitisse abertamente que seus óculos lembravam um

pouco os de um policial.

Acha que o motorista não sabe que está sendo seguido.

Deve ter avistado uns três Toyota híbridos vermelhos desde que viu o

vídeo, mas esse é o primeiro que está sendo dirigido por um homem.

Também é o primeiro que o deixa apreensivo: até agora, ele só viu o

motorista por trás, descobrindo que é um homem calvo e de cabelos

curtos, de idade não determinada. Precisa emparelhar com o Toyota para ver direito, mas as estradas de mão dupla ali no interior não permitem

isso, a menos que seja numa ultrapassagem.

É melhor continuar atrás do Toyota por um tempo.

Acontece que ele continua atrás do veículo até a Marsh Road.

Quando vê o Prius diminuir a velocidade e dar a seta para entrar na

104 A, precisa decidir se vira também: se virar, não haverá mais dúvida.

O cara vai saber que está sendo seguido. Se for o cara. A maioria dos

cidadãos honestos não percebe nada a menos que tenha um bom motivo.

Acaba virando junto, mantendo uma boa distância, quase

permanecendo fora de vista.

Olhou para ele ao virar.

Cara mais velho, barbudo.

Velho demais para ser o cara.

Mas talvez ele não seja o único que dirige aquele carro.

Quando o cara barbudo sobe a rua residencial sem saída, a

brincadeira termina de vez: não pode simplesmente entrar ali atrás dele.

Brant passa pela entrada, para na frente de uma casa, permanece ali até o

Toyota sair de vista.

Não houve um desaparecimento ali, talvez naquelas casas?

Sim... turista alemão ou coisa assim. A polícia estadual disse que

coletou um DNA esquisito, mas não há corpo, não há suspeito.

Uma mulher olha para ele pelas cortinas.

Ele finge estar checando algo no telefone, sai, estaciona um pouco

mais adiante.

Desce a rua em direção às casas, a pé.

Um cara simples andando.

Com óculos de policial.

Eu sou péssimo nisso.

Deixei minha arma no carro.

Nunca vou ser um detetive.

Preciso inventar uma história, caso ele venha falar comigo.

Vê o Prius agora.

E caminha para mais perto das árvores, na sombra, fingindo olhar

para o telefone de novo.

Vê o homem saindo.

Um tipo meio artístico e espertalhão.

Que agora está tirando algo de trás.

Uma gaiola?

Uma gaiola.

Com um galo dentro!

Batendo as asas com desânimo, penas voando.

O homem franze o nariz.

Leva a gaiola para dentro de casa.

O que um cara aparentemente pacífico como aquele quer com um

galo?

Devo falar com ele?

Direi que estou procurando pela casa de um amigo.

Bob?

Genérico demais.

Kyle.

Cara grande de barba ruiva, que vai dar um festão.

Ele vai detestar isso, vai ficar tão puto que não vai parar para

pensar se sou um policial, se não estiver envolvido com o sequestro.

Se não estiver, quem se importa?

Se estiver envolvido, posso assustá-lo.

Está meio inquieto, será que está com medo ou coisa assim?

Eu gostaria de saber o que é.

Se mais alguém vive ali, tenho que ver quem é.

Movimento às suas costas.

Brant se vira, mas seja lá o que fosse parou ou se foi.

Esquilo.

Não, maior do que um esquilo.

Olha para trás em direção à casa.

Tudo quieto e silencioso.

Acho que ninguém mais mora aqui.

Isso é ridículo.

Está de braços cruzados, pesando os prós e os contras de se

aproximar da residência.

Tem alguma coisa esquisita acontecendo aqui, mas esquisito não é

ilegal. Acho que esse não é o cara. E se for, sou capaz de estragar as

coisas em vez de ajudar. Ainda assim, vou informar Syracuse sobre o

carro e o homem-galinha e ver se enviam alguém de plantão para

passar e fazer perguntas.

Ele percebe movimento atrás de si, mas outra vez se vira tarde

demais.

Os pássaros voam perto da copa das árvores.

Brant leva a mão para onde a arma deveria estar.

Ele decide que é uma suspeita oficial.

Está assustado.

Que vá para o inferno.

Volta a descer a rua, sentindo-se observado.

Caminha mais depressa.

O sol forte pinta o fim da tarde, embora não esteja nem perto de

escurecer, e Brant se sente como uma adolescente em um cemitério.

Ri de si mesmo.

Mas continua andando depressa.

Vê seu carro.

Algo está diferente.

Eu deixei o vidro fechado.

Agora está abaixado.

Cheguei a fechar?

Ele se aproxima do carro pelo ponto cego, só para garantir.

Abre o porta-malas com a chave.

Um Volkswagen Jetta cinza passa e o motorista olha para ele,

parecendo desconfiado.

Brant acena sem querer, por instinto.

Passa o cinto de segurança.

Sente-se melhor.

Olha pela janela, não vê ninguém, relaxa um pouco.

Ele se aconchega no banco, mas sente um arrepio percorrer seu

corpo.

Caramba, está frio. Tudo bem, o ar estava ligado, mas caramba.

Vazamento de freon ou algo assim?

Ele liga o carro.

Inclina o espelho para olhar o próprio rosto, considera-se ridículo

com aqueles óculos de cara mau.

Abre o porta-luvas para guardá-los e pega um chiclete.

Então vê.

O chifre.

Confere as janelas e os espelhos de novo, para ter certeza de que não

há ninguém perto do carro, e então olha de novo.

É um maldito chifre, um chifre de um cervo jovem.

Quase pega, mas então pensa no DNA e nas digitais e decide não tocar

no chifre até encontrar um saco plástico.

Está muito frio no carro, frio o suficiente para levá-lo a ligar o

aquecimento.

Ele fecha o porta-luvas e parte com os óculos no rosto, sem mascar o

chiclete.