Bem-Vindo à Casa dos Espíritos
Capítulo 80
Nadia xinga embaixo d’água, seguindo o Jaybird Sally. Tem
acompanhado o barco desde que ele saiu da Marina de Oswego por volta
do meio-dia, em parte porque gosta do nome do barco, em parte porque
um dos dois homens que sempre pesca ali é bonito de um jeito meio
bruto: a barba curta cobre o tipo de queixo que costuma ser visto em
soldados e atletas.
Ela é muito boa em fazer as coisas sem ser notada: pessoas comuns a
enxergam como madeira solta na água ou um peixe, a menos que ela
queira chamar atenção. Para os mais atentos, ela sabe ficar na sombra de
um barco, se disfarçar de madeira e lodo e antecipar olhares em sua
direção, submergindo antes.
Quando o barco para, ela escuta pedaços da conversa entre os dois
homens enquanto flutua, o ouvido tomado pelas ondas.
— Vou a Rochester amanhã... aquela casa de três quartos que tivemos
em leilão. Eu estarei... mudar na semana seguinte, instalar um carpete
novo... cobre... o que mais precisar.
— Fico puto que... coisas assim... encanamento e reformas... porque...
arrumam as coisas. Sem classe.
— Nenhuma.
Os homens falam sobre negócios e passam a falar sobre mulheres, e
Nadia começa a se arrepender por estar ouvindo. Era melhor quando ela
não sabia como o cara bonito é comum, quando podia fingir que ele era
um oficial da cavalaria com um sabre brilhante e um casaco de lã, não
um corretor de imóveis com uma amante e uma esposa distraída. Ela
está prestes a entrar em um estado de tédio total quando os homens
ligam o motor. Outra corrida! Mas não é bem uma corrida. Ela segue o
barco, sem perdê-lo de vista, nadando em zigue-zague atrás.
E então acontece.
Uma garrafa de vidro bate na água e fica ali.
Nadia não sabe se alguém no barco vê sua mão branca se esticar e
recolher a garrafa, mas não se importa.
Está irritada.
Não passou a manhã toda tirando aqueles pedaços nojentos de
mexilhão-zebra do barco destruído para deixar esses arruaceiros sem
educação poluírem seu lago. Tão burgueses. Ela sabe que essa palavra é
bolchevique e odeia bolcheviques, mas burguês, com sua sugestão de
novo-rico e mal-educado, descreve bem os indivíduos no Jaybird Sally.
— Sam Adams — diz ela, olhando para o colono de roupa marrom
no rótulo azul, e o ar escapa de sua boca em uma onda de pequenas
bolhas. Ar parado. Ela usa os pulmões apenas para fumar e para falar.
Quando o Jaybird Sally para de novo, ela vê a isca de peixe aparecer
na água e observa um belo salmão-rei nadar em direção ao anzol. Nadia
afugenta o salmão, ainda segurando a garrafa de cerveja.
Nada de peixe para vocês, burgueses!
Mas isso não basta.
Ela usa o punho para bater no fundo do barco com força.
Não com força suficiente.
Ela toma um pouco de distância e nada contra o casco.
Gosta da sensação.
Ataca outras várias vezes, batendo no Jaybird Sally com os ombros e
a cabeça: dois dos golpes abrem talhos abaixo da linha da água.
Principalmente a última cabeçada.
Esse buraco não é brincadeira.
Aproximadamente do tamanho de três faixas de bacon dispostas de
ponta a ponta.
O lago começa a entrar para dentro do barco.
Nadia espia pelo buraco, percebe que o capitão assustado a vê.
Ele usa o nome do Senhor em vão.
O alarme toca quando o primeiro dispositivo de nível de água é
acionado e o bombeamento começa.
Ela encosta os lábios no buraco e diz:
— Não jogue lixo no meu lago.
E se afasta, nadando.
Percebe que estava tão irritada que disse aquilo em russo, nada de
volta e repete a frase, desta vez em inglês, acrescentando “burgueses
imbecis” para aproveitar.
O homem bonito, ainda no convés, segurando a amurada enquanto
espera outra colisão, vê o braço fino e pálido da rusalka lançar a garrafa.
Observa a garrafa girar e aterrissar no meio do barco com um estrondo.
Ele vai se esquecer do que viu quando os outros chegarem e o capitão
começar a gritar “SOS” no canal 16 do rádio VHF.
Quando o convés do Jaybird Sally começar a se inclinar, ele vai
colocar o colete salva-vidas, vai enviar uma mensagem à esposa e outra
à amante, e enfiará o telefone celular em uma bolsa estanque.
— Não se preocupe — diz o capitão. — Não vamos afundar.
Ele aponta.
Eles já teriam ouvido o helicóptero, não fosse o alarme.
O helicóptero do Canadá está vindo com um P250 que puxa quatro
mil litros de água por minuto do navio.
É claro que a rusalka poderia enfiar o dedo na abertura e deixá-la tão
grande a ponto de nem uma bomba canadense dar jeito.
Ou poderia virar o barco: isso seria difícil, mas não impossível.
Não.
Não por uma garrafa.
Mas se uma única bituca de cigarro cair na água...
Quando o Jaybird Sally encontrar equilíbrio, ela vai permitir os
reparos. O mergulhador puxará muitos cabelos compridos e ruivos da
abertura no casco.
O barco não vai ser destruído hoje.
O corretor de imóveis vai pescar de novo.
Mas, sem lembrar exatamente o motivo, nunca mais vai jogar lixo
para fora do barco.
Nadando dentro da água, perigosa como é, Nadia passa pelo navio da
Guarda Costeira que está indo ajudar o Sally.
E faz uma saudação a ele.
Mais tarde.
Nadia pega uma gaivota descuidada que parou para boiar no lago
com tanta delicadeza que suas companheiras nem sequer saem voando.
Ela se alimenta, com voracidade a princípio, sangue e penas para
todos os lados, e então sem pressa, saboreando a carne dos ossos como
uma garota em um piquenique. Quer nadar de novo ao barco, policiá-lo
outra vez antes de voltar a ter pernas e passar a noite protegendo seu
mago.
Está ansiosa para voltar a ter vagina.
Espera que ele esteja pronto para o sexo.
Afogar todos aqueles abortos encaroçados de Andrew Blankenship a
excitou de verdade.
Tanto que ela decide não esperar.
Nada até a planta nuclear de Niagara Mohawk, transforma-se em
mulher e flutua na correnteza morna.
Dá prazer a si mesma.
Grita tão alto que um segurança do lugar observa a água.
Mas só vê pedaços de madeira.
Quando se aproxima de seu navio naufragado, o sol está se pondo,
lançando tons lavanda e rosa pelo céu todo, e a água reflete as cores em
sua superfície ondulante.
Um contorno em preto se destaca.
Um barco.
Muito pequeno dessa vez.
Um barco a remo, do tipo que você pode alugar no Fair Haven Beach
State Park.
Quem o levou ali deve ter remado por horas.
Ela vê uma forma.
Um homem.
Ela mergulha e nada por baixo da água, aproximando-se.
Ele está tocando violão, tocando bem.
Canta uma música em russo.
Improvisada, talvez, sem rimas, mas cantada com uma voz grave
cheia de dor e doçura.
“Eu amei uma garota com tatuagens de pardais no peito.
Dois pardais no peito.
Ela tentou me amar também, mas foi difícil
Encontrar meu coração
Meu coração não podia voar como o dela
Eu não tinha pardais no peito
Não tinha pardais no peito.”
O homem no barco é jovem.
O céu não está muito iluminado, mas ela enxerga bem no escuro. Ela
vê que ele é barbudo, assim como os rapazes de sua cidade eram
barbudos. De onde é aquele sotaque? De algum lugar rural. É um rapaz?
Fios grisalhos se misturam aos cabelos pretos na cabeça mas, apesar
disso, sim, é um rapaz. Vinte e poucos anos.
Ele a vê.
— O que está fazendo tão longe? — pergunta ele.
— Da costa? Posso fazer a mesma pergunta a você.
Ela não quer dar a impressão de que está flertando, mas sabe que é a
impressão que fica.
— Não. Não da costa.
Um pelicano sobrevoa silenciosamente uma área de terra ali, nada
além de uma forma escura. A ave posiciona um peixe na bolsa sob o
bico, preparando-o para ser engolido.
— De casa — acrescenta ele.
— Casa.
Ele sorri para ela.
É um sorriso bonito.
— Você é russo? — pergunta ela.
— Tão russo que praticamente sou feito de neve.
— De qual vilarejo?
Ele ergue uma sobrancelha.
— Por que diz vilarejo? Você acha que sou um agricultor?
Um planeta, mas ela não sabe qual, brilha meio fraco na noite fresca.
— Cidade, então. Qual cidade?
— Da sua cidade.
— Você não é de São Petersburgo.
— Sou, sim! — declara ele, com um sotaque do interior. — E não sou
agricultor.
— O que é, então? Além de mentiroso?
Ela sorri ao dizer isso.
— Um soldado.
É fácil imaginá-lo em um cavalo com um casaco de lã e um sabre,
botas finas expondo as canelas magras. É fácil imaginá-lo beijando-a,
indo para dentro da água com ela, para o barco. Ela sabe onde vai
colocá-lo.
— Gosto de soldados — diz ela.
— Então se aproxime!
Ela se aproxima.
— Quero beijar você! — solta ele de repente, como um garoto que
diz isso pela primeira vez.
Será que ele consegue me ver?
— Você tem um belo sorriso.
Ela ri.
— Você é de um vilarejo de homens cegos! Meu sorriso é o que tenho
de pior.
— E você cheira à cidade de Samarcanda.
— Se houvesse um mercado de peixe em Samarcanda, talvez. Está
sendo cruel? Isso é um jogo?
Ele só sorri para ela.
Você nem imagina qual é meu jogo.
Ela acha que está na hora.
Caminha para a lateral do barco, faz um gesto com o dedo para que
ele se aproxime.
Ele se inclina.
Faz cócegas no nariz dela com a barba.
Ela ri.
Estrelas atrás dele agora.
O planeta levemente vermelho... deve ser Marte.
A lua já não está mais minguante.
Ele encosta seus lábios nos de Nadia.
Frios.
Mais frios do que os dela.
Ela se afasta, olhando para ele.
— Quem é você? — pergunta ela. — Você me parece familiar.
— Sou seu amante — responde ele.
— Você não é Nikolai. Não é o rapaz que agarrei.
— Não. Sou seu novo namorado.
— Você está morto? — indaga ela.
— Estou muito vivo.
— Seu nome?
— Moroz.
Geada?
Ele mostra para ela o dedo indicador.
Olha para ela com intensidade e seriedade ao enfiar o dedo na água.
Como se consumasse o casamento entre os dois.
Tirando o hímen dela.
Arde, mas não ali embaixo.
A pele arde de frio onde a água congelou e formou um bloco ao redor
dela.
Ela é o centro de um pequeno iceberg.
Não consegue se mexer.
Começa a falar, mas ele leva o dedo aos próprios lábios:
— Shhhh — pede.
No mesmo instante, cai sobre a cabeça deles uma neve fraca, fina
como as camadas de gelo, sem vir de nenhuma nuvem.
Marte ainda brilha sobre ele.
O pelicano voa ali perto. Ela escuta, mas não consegue virar a cabeça.
A ave aterrissa no barco com o homem, os pés fazendo barulho na
madeira molhada.
Ainda está com o peixe, que cospe da boca.
Não é um peixe.
A coisa aterrissa com um som metálico.
É uma faca.
As estrelas parecem borrar de uma vez e então, quando se tornam
claras de novo, o pelicano vira uma mulher.
Nua.
Segurando a faca.
Bonita, com uma pintinha.
Como os nobres de antigamente.
Ela abaixa a faca ao nível dos olhos da rusalka de modo que a ponta
pareça desaparecer. Nadia percebe que não se trata de uma faca normal.
— Não, não é uma faca normal — comenta a mulher.
Ela leu meus pensamentos!
— E pensamentos tão simples. Que vergonha que uma coisinha tão
bruta como você tenha matado meu Misha. Você se lembra de ter feito
isso? O homem na casinha?
É difícil assentir, mas a rusalka assente.
— Ótimo — diz ela. — Vou quitar metade da dívida esta noite.
Ela passa a lâmina da faca no rosto e no nariz de Nadia, cortando. O
sangue da sereia é espesso, quase não escorre, como se não se lembrasse
de como fazer isso.
Dói.
Quando foi a última vez em que senti dor?
Ela se assusta.
Como ela me cortou?
— Já disse a você, rusalka. Não é uma faca comum. É a Faca da
Santa Olga de Kiev. Ela se alimenta de magia. Transforma criaturas
fantásticas em coisas comuns. Transformou um basilisco em uma
serpente, uma cocatriz em uma galinha e um vampiro em um efeminado
que não gosta do sol. Você — diz ela, lambendo a faca — já está se
tornando uma mulher de novo. Então poderá ter o prazer de morrer uma
segunda vez.
Nadia se lembra de sua primeira morte. As pedras caindo sobre ela, a
brisa em seu rosto tomado por lágrimas, a pressão e um cheiro de pão
preto quando bateu. A sensação de tudo se esvaziando e se destruindo
como um cesto de ovos derrubados. Parece mais perto do que parecia,
mais vívido.
— Não, você não terá a sorte de quebrar o pescoço. E não vai
congelar. Congelar é fácil. Você vai morrer exatamente como meu Misha
morreu. Afogada. Existem coisas bem piores do que se afogar, mas essa
me parece uma forma justa. Você vai para um inferno mais molhado do
que frio.
Dizendo isso, ela balança a mão sobre a água, como se estivesse
tampando uma panela de sopa:
— Esquente o coração e os ossos dela — entoa em russo medieval.
O gelo ao redor de Nadia cede, esmorece, se dissolve.
Seus pulmões se enchem de ar fresco, pois precisam de ar de novo.
Ela afunda na água, bufando.
Não nada com vigor agora.
Consegue romper a superfície.
Escuta partes do que a mulher diz.
Ela não está mais falando com Nadia.
— ...não vai estragar sua vingança... até o barco... onde ela colocou
você. Faça isso... seja livre.
Nadia afunda.
Quando sobe, vê o voo do pelicano.
Ouve o bater das asas.
Algo se esfrega em seu pé.
Uma lampreia?
Elas eram inofensivas antes, mas agora Nadia voltou a ter sangue
correndo em suas veias.
Por um momento.
Estou a quilômetros da costa.
Um barco cheio de homens mortos está abaixo de mim.
Coloquei-os ali em um sonho que tive.
Um sonho longo, muito longo.
O rapaz do barco está remando, murmurando uma canção.
— Espere! — diz ela. — Por favor.
Os remos param, o murmurar é interrompido.
Ela bate os pés em desespero.
Seus olhos humanos não conseguem enxergar na escuridão, nem
mesmo com a luz da lua.
Ela está sozinha.
Ela já está começando a se cansar.
Nesse momento, uma mão forte agarra seu pé.