Bem-Vindo à Casa dos Espíritos
Capítulo 65
Os caras dentro do Volkswagen Jetta cinza não são de muitas palavras.
Estão a caminho para vingar Mikhail Dragomirov, que Georgi
acredita ter sido assassinado pela parceira de um tal de Andrew
Blankenship, que mora na Willow Fork Road. A casa deve ser
identificada por um Mustang turquesa do fim dos anos 1960, que os
americanos de certa idade chamam de muscle car.
Sergei Alexandrovich Rozhkov não gosta disso.
Ele também não gosta de Georgi.
Sergei tem quase setenta e sete anos, mas ainda é vigoroso. Ainda é
perigoso. Seu filho que mora no Brooklyn parece mais velho do que ele
agora, desde que os problemas no fígado o deixaram com cor de salmão
passado.
Georgi não é filho dele.
Georgi é sobrinho de um velho amigo, o tipo de amigo para quem
fazemos favores inconvenientes.
Mesmo quando esse amigo está morto.
Georgi parou nos trinta e poucos anos, não é nem totalmente
americano nem totalmente russo, assustado demais para se unir à
multidão, um cidadão honesto que não percebe nada. O homem por
quem passaram na estrada era um policial com uma arma. É claro que
Georgi olhou para ele, chamando sua atenção. O policial olhou para seu
rosto. Não haveria espaço para um homem como aquele na operação
Odessa, mas isso já faz muito tempo.
Além disso, Georgi está apaixonado por sua estranha prima, a
sobrinha, e quer impressioná-la matando quem pode ou não ter
assassinado Misha. A sobrinha acredita que foi Blankenship, um homem
sem importância, que matou Misha por causa de uma prostituta, e ela
não vai dizer como sabe disso.
Sergei tem quase certeza de que Misha se afogou.
É sempre assim. Quando perdemos alguém que amamos, queremos
achar um vilão. E se o vilão fosse o uísque que Misha estava bebendo e
as correntezas no lago? Ele deveria simplesmente beber uma garrafa de
uísque, esvaziar o pente da arma no lago e ir para casa.
Misha era um bom homem, talentoso no xadrez, um gênio com
números, mas vinha de uma família decadente que já viveu dias
melhores. Todos já viveram dias melhores. O mundo se tornou um
playground de idiotas e fanáticos, no qual o centro sempre menor de
homens razoáveis deve trabalhar com mais afinco para manter as luzes
acesas e impedir que as bombas explodam.
Sergei quer voltar para o Brooklyn e sair desse paraíso de bosta de
cavalo e maçãs em que é preciso dirigir para todos os lados.
Sente falta do pastrami na delicatéssen da rua cheia de gregos.
Agora, sobem a Willow Fork Road, procurando uma casa que não
parece estar ali.
— Está certo esse endereço que ela nos passou?
Sergei fala em inglês porque Georgi passa tempo demais procurando
as palavras em russo, o que o irrita.
Georgi responde em russo, mesmo assim.
— Não sei. Diz ela que sim, mas o endereço não está na lista. O
Mustang é conhecido. O... qual é a palavra?... registro de vendas foi
encontrado. Na internet. E essa cor, verde-azulado e claro.
Sergei diz a palavra em russo para turquesa.
Georgi muda para o inglês.
— Sim, biryuzoviy. É uma cor incomum e um carro incomum. Veja
— diz ele, mostrando uma página arrancada de uma revista de venda de
carros, com um Mustang 1968 circulado com caneta vermelha, um
crânio pequeno desenhado mais ou menos perto.
— É um belo carro — comenta Sergei.
Eles chegam ao fim da estrada, fazem um retorno e voltam.
E então dão sorte!
O Mustang turquesa aparece de um caminho escondido por árvores
que parece não levar a nenhuma casa: deve ser o carro procurado. É uma
máquina brilhante. Vira à direita na estrada e parte, usando seu motor da
época do Vietnã para atravessar a longa estrada. O motor faz mais
barulho que o dos carros modernos: parece forte, como um predador. E
clássico. O cara que tem um carro assim deve saber manobrar, deve ter
braço. Sergei pensa que é capaz de gostar mais do cara no Mustang do
que da sobrinha do seu antigo sócio.
Porém, promessa é dívida.
Seguem o carro para fora de Dog Neck Harbor passando por Fair
Haven, onde o carro sai da 104 A e estaciona atrás de um antigo celeiro,
hoje uma oficina, do outro lado da rua, na frente do silo. North Star.
Bom nome.
O motorista já entrou na oficina quando eles param o Jetta.
— Lembre-se — diz Georgi —, ele tem cabelos pretos e compridos
como um índio e é magro.
— E por acaso sou um homem a quem você precisa repetir as coisas?
— Desculpe.
— Deixa eu ver sua arma.
Georgi olha ao redor e então saca o .38.
Sergei pega, abre o cilindro, gira o tambor, com o coração alegre ao
ver o metal. Cartuchos são suas joias preferidas.
— Está pronto. Tente não atirar em mim.
Ele pega a Makarov, solta a trava, coloca de volta dentro do casaco.
Os dois saem.
Abrem a porta, entram como se soubessem o que estão fazendo.
Espreitar é coisa de idiota: as pessoas que parecem ter um propósito
raramente são interrogadas.
Encontram-se em uma sala de fundo, espécie de sala de empregados.
Vários mexicanos cheios de tatuagem estão reunidos em volta de uma
mesa repleta de garrafas de tequila e pratos remexidos com molhos
marrom e verde.
O lugar cheira a chocolate, canela e alho.
Georgi e Sergei ouvem uma voz às suas costas.
Sotaque mexicano.
— Tirem as mãos dos bolsos.
Eles tiram.
— Por que estavam me seguindo?
— Gosto de Mustangs — responde Sergei. — Esperava que um deles
estivesse à venda. Está?
Chancho resmunga.
Os homens à mesa olham para o russo com olhos semelhante ao
arenito. Vários mantêm as mãos embaixo da mesa.
— Por que estavam indo à porta dos fundos para falar sobre comprar
um carro?
— É assim que se entra. Queríamos falar com você.
Chancho resmunga.
Gonzo se aproxima, vê as armas, coloca as mãos sobre os olhos como
o macaco mizaru e sai depressa.
— Para que as pistolas? Sabe, não é legal vir perguntar sobre um
carro à venda pela porta dos fundos.
— Por favor — Georgi começa.
Sergei avisa, em russo:
— Se implorar, eu mesmo vou atirar em você.
Então, em inglês:
— Isso foi um equívoco. Peço desculpas por incomodá-lo. Se
permitir, sairemos agora e não voltaremos.
— Passem as carteiras — fala Chancho. — E coloquem as armas na
mesa. Mas devagar. Bem devagar.
Eles obedecem.
Chancho olha as carteiras, resmunga.
— Tem dinheiro demais nessas carteiras. Se eu ainda roubasse, ficaria
feliz com elas.
Os russos ficam quietos.
— Mas não roubo, não mais — diz ele. — Não dinheiro, pelo menos.
Pega apenas as carteiras de habilitação, devolve as carteiras, sempre
às costas dos russos, que não olham para ele.
Agora, joga as carteiras de habilitação na mesa. A de Georgi cai sobre
um pico-de-gallo.
— Meus primos vão cuidar delas. Podem ser falsas, mas acho que
não. Se algo ruim nos acontecer, algo bem ruim vai acontecer com
vocês. ¿Comprende, pendejos?
— Ponymayu — responde Sergei, assentindo.
Os mexicanos levam a dupla para fora.
Chancho pede que os dois abram a porta do carro.
Eles abrem.
Chancho pega uma faca grande e ameaçadora e faz desenhos no
estofamento. Faz isso de modo impassível, sem pressa, como se estragar
estofados de carro fosse apenas outro serviço oferecido na North Star,
como algo que desejasse fazer bem.
Faz um sinal para que eles retornem ao carro.
Eles retornam.
— Adiós, pendejos. E não pensem em voltar.
Antes de o vandalizado Volkswagen sair da oficina North Star, Sergei
Alexandrovich Rozhkov olha para Georgi.
— Quando você deixa uma mulher lhe dizer o que fazer, é isso o que
acontece.
— Mas...
— Fique quieto. Misha se afogou. Você é um idiota. E eu vou voltar
para o Brooklyn.