Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Christopher Buehlman · Capítulo 100 de 134

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Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Capítulo 102

 

 

Onde os outros vizinhos escutam um cão latindo ou uma buzina de

carro, John Dawes escuta um tiro. Ele é tão iluminado quanto uma

pedra, mas passou tanto tempo treinando tiro e encenando batalhas da

Segunda Guerra com os amigos do grupo de reconstituição histórica

que, mágico ou não, ele ouve o som como é.

John estava de pé na frente da geladeira aberta, com mostarda e um

pacote de salsichas na mão, procurando o molho. Sem molho, nada de

cachorro-quente. É assim que acontece. Tinha visto o pote, estava no

processo de avaliar se poderia tirar com a colher a mistura verde para

cobrir uma salsicha vienense, quando ouviu o pop de um tiro de uma

bala de 7,62 milímetros.

Então agora está parado, olhos arregalados.

Ele fecha a porta da geladeira, apaga a luz da cozinha.

Shakedown está latindo no quintal.

Correndo de um lado para o outro.

Bom garoto!

Ligar para a polícia?

Que se dane, a Fruitloop já deve estar ao telefone.

Fruitloop, a viúva da casa ao lado que nunca monta menos de quinze

versões do nascimento de Cristo, está na verdade assistindo ao episódio

gravado de O Preço Certo pela terceira vez. Ela escutou o tiro como um

grito bem estridente de entusiasmo da aeromoça de Iowa que acabou de

ganhar um conjunto de móveis de jardim.

Dawes pega a pistola Luger carregada que havia prendido com fita na

lateral da geladeira, sobe a escada com o máximo de rapidez no escuro,

tirando a fita, abre a porta para o quarto de hóspede que transformou em

um cômodo de atirador e um templo militar alemão. Ajoelha-se a alguns metros da janela, enfia a pistola na cintura e pega seu Liebling, um fuzil

de precisão alemão K98 com mira Hensoldt.

— É isso — diz ele. — Venha para Johannes.

Ele observa a rua.

Escuro demais para ver.

Não conseguia se imaginar acoplando uma mira de visão noturna ao

seu rifle antigo.

Não acredita que aquilo seja um problema — está jogando. Muitas

pessoas atiram em coisas por aqui. Está perto da zona rural. Ele espera

um momento. Observa. Fica entediado. Decide descer de novo e checar

os cachorros-quentes.

A luz se acende.

Ele não virou o interruptor.

Outra pessoa.

— Hunh! — diz ele, pegando e largando a pistola.

Ele dá um saltinho, como se esperasse um tiro.

Como na série Irmãos de Guerra, quando o cara deu um tiro na

própria perna.

Dois soldados muito parecidos com soviéticos estão diante dele, um

com um peitoral de aço de sapador mineiro. Os dois estão sujos e fedem

a cigarros. E a gasolina? E a muito suor. Um deles leva um rifle Mosin-

Nagant. O engenheiro, uma pistola Tokarev e uma baioneta de mão.

Uma baioneta muito bacana, escurecida pela ferrugem.

É neve nos ombros deles?

— Muito engraçado — diz Dawes, a princípio pensando que são dois

caras da equipe soviética de seu grupo de reconstituição histórica. Em

seguida, já não tem certeza.

Ele nunca viu aqueles caras.

O homem do rifle parece ter passado por maus bocados.

Como se não andasse comendo muito bem.

E como se tivesse atirado em pessoas.

O de peitoral olha ao redor, divertindo-se. Sorrindo por baixo do

bigode de leão-marinho.

Algo chama sua atenção.

— Shto eta? — pergunta ele.

Dawes não fala russo, mas o sentido é bem claro.

O homem está tocando um pôster com a ponta de sua baioneta.

O que é isso?

John Dawes tem muitos pôsteres, que estão pendurados na parede há

tanto tempo que nem presta mais atenção. Mas aquele pôster sempre

chama sua atenção. A baioneta segue uma capa estragada de uma revista

de organização nazista chamada Der Pimpf, mostrando um tanque

alemão passando por cima da cavalaria polonesa.

Em seguida, o homem leão-marinho olha para o pôster ao lado, uma

obra de arte homoerótica mostrando um bohunk de camiseta marrom e

gravata preta, com cabelos loiros, uma bandeira com a suástica e um

sorriso aberto. Sem esquecer a legenda: Der Deutsche Student kampft

fur Fuhrer und Volk!

John espera que eles não olhem para o pôster em russo mostrando um

judeu enorme guiando Stálin e um soldado soviético em uma corda.

Eles olham.

— Ti shto fashistskoe gavno?

Dawes entende a palavra fascista.

E adivinha corretamente a natureza nada elogiosa da segunda parte.

— Ti anti-semit?

Lembra que ninguém na equipe soviética do grupo de reconstituição

histórica fala russo.

Uns malditos comunistas, em carne e osso.

A neve no capacete e no casaco dos visitantes derreteu.

Era neve de verdade? Que porra é essa?

Ele olha para o único quadro anacrônico na sala, um pôster assinado e

emoldurado de Rush Limbaugh usando uma peruca grisalha e um

chapéu de três pontas, anunciando sua marca de chá gelado.

Two if by Tea!

From Tea to shining Tea!

Original sweet tea.

Não contribui.

Shakedown continua latindo.

Longe, bem longe.

Como a pistola que Dawes derrubou.

Agora, o leão-marinho pega o rifle de John.

O rifle nazista de John.

Assente e olha para John Dawes.

Sorri.

John molha as calças.