Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Christopher Buehlman · Capítulo 59 de 134

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Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Capítulo 60

 

14 de julho.

Dia da Bastilha.

Aniversário da queda da Bastilha, em Paris, claro, mas também uma

data muito pessoal para Andrew Blankenship.

Exatos sete anos desde que Sarah teve um colapso no lago Darien.

Aneurisma.

Um pouco depois de andar na montanha-russa.

Uma das piadas idiotas e sem graça da vida.

O suficiente para fazer uma pessoa concluir que existe um Deus e que

ele não é tão legal.

Andrew estava lhe devolvendo os brincos quando ela disse que não se

sentia bem.

Queria se sentar.

Caiu como uma criança fazendo uma brincadeira.

E foi isso.

Ele havia começado a procurar uma aliança, pensava em pedir sua

mão em casamento no Dia das Bruxas.

 

Agora, ele está no topo da escada que leva para a sala de vídeo.

 

Eu não deveria estar fazendo isso.

Por que estou fazendo, então?

Não machuca ela.

É, mas me machuca.

Eu preciso vê-la de novo.

Deus.

Deus.

 

No andar de baixo.

Depressa, antes que você perca a coragem.

Da caixa de fitas VHS, retira uma com a etiqueta SARAH.

Coloca no aparelho.

Pare.

Ele para, mas só porque precisa fechar e trancar a porta da sala de

vídeo.

Salvador não pode e nem deve ver isso.

Volta a se sentar.

Aperta o play.

Aperte o stop.

Não, sério. APERTE O STOP.

 

A mulher lança um frisbee, provavelmente uma hora antes do pôr do sol.

Ribanceira McIntyre.

Em 2004.

Oito anos atrás, antes de o caminho para o promontório se tornar um

monte de terra, época em que uma alma corajosa ou tola podia subir um

tipo de coluna até a plataforma de gramado que permaneceu.

Voltando à mulher.

Cerca de trinta anos, cabelos castanhos e franjas.

Aquele sorriso derreteria um coração de gelo.

Aquele sorriso poderia deter o próprio mal.

É o sol brindando, é o sol na manhã de Natal sem nenhuma guerra.

É um sorriso pelo qual vale a pena desistir da magia.

A calça jeans desbotada, todos os anéis em seus dedos, um deles feito

com uma colher de chá retorcida.

Eu deveria ter me jogado daquele promontório.

Como a rusalka fez há tantos anos.

O que eu me tornei depois de Sarah?

Ela detestava essa parte de você, essa parte cheia de autopiedade.

Não, ela não detestava.

Sarah não detestava.

Agora, a câmera segue algo que brilha no meio da grama alta.

Uma faixa do lago de pano de fundo.

Está mesmo a toda.

Um cachorro.

Um border collie jovem, não deve ter nem um ano, mas já é um

acrobata.

Ele salta, pega o disco vermelho no ar, como se o arrancasse do céu

azul atrás do precipício.

A câmera volta até a mulher, que ri e aplaude.

O alçapão está vindo.

— Ótimo, Sal. Muito bem, espertinho! — diz ela.

O cão solta o frisbee na grama aos pés da dona. Suas botas de cadarço

do brechó. Sarah, que é a rainha dos brechós, tem um metro e sessenta,

cintura fina, calça 36 e qualquer merda de roupa serve nela.

E o brechó pegou tudo de volta.

Ali está o alçapão.

A queda do frisbee é a deixa.

Andrew pode dizer o nome dela, fazer com que ela olhe em seus

olhos, conversar com ela.

Fez isso em três ocasiões, nem mais, nem menos.

Só uma vez estava sóbrio.

Não hoje.

Nem nunca, não é assim que funciona.

Não hoje.

— Esse é o meu garoto — diz ela, e lança o frisbee.

— Uma ajuda para você — comenta o Andrew-mais-jovem.

Sua única contribuição na fita.

Ela olha para a câmera.

Olha para o Andrew-mais-jovem que ela adorava daquele jeito.

O alçapão ainda está aberto.

Se ele falar.

Se ele disser Sarah.

Ela está prestes a falar com o Andrew-mais-jovem.

Ela olha para a esquerda e sorri aquele sorriso.

Agora, Salvador aparece, mas não larga o frisbee.

Quer brincar de pegar desta vez.

Correndo de novo na grama alta.

O que ela ia dizer não é dito, vira risada quando ela corre atrás do

cachorro. Fora de vista. O Andrew-mais-jovem é esperto o bastante para

parar de filmar, colocar a câmera no chão e correr junto. Ao vivo. Em

pouco tempo, o jovem casal vai pegar o cachorro, os cobertores e a

garrafa vazia de vinho e colocar tudo dentro do Mustang, seguir para

casa, de volta para aquela casa, e fazer amor.

O Andrew-mais-velho não é bem-vindo nessa festa.

Vamos dizer... o Andrew-de-agora, certo?

O Andrew-de-agora não é bem-vindo nessa festa.

Mas tudo bem.

Ele não tem certeza de que acredita no tempo e, se não existir tempo,

ele está fazendo amor com Sarah agora mesmo.

Ele costuma pensar com frequência na palavra russa para asa quando

pensa em fazer amor com Sarah. Krihlo. Disse com aquela vogalzinha

russa que parece i, mas na frente da boca, como se estivesse tentando

enfiar um w ali. Aquele a que abre os lábios em vez de fechá-los.

Deus Sarah Deus Sarah Deus

Os anéis dela no criado-mudo.

As botas dela no chão, fazendo com as dele uma cruz gamada feliz.

Seus gemidos baixos e alegres.

Salvador, o cachorro, chorando para poder entrar.

 

Salvador, o homem estranho, bate na porta da sala de vídeo.

Vamos dizer o Salvador-de-agora.

O Salvador-de-agora, então.

O Salvador-de-agora seca o rosto.

Guarda a fita.

Abre a porta.