Bem-Vindo à Casa dos Espíritos
Capítulo 98
O homem que costumava ser o professor Coyle sabe de suas tarefas.
Reúna as tropas, ela dissera. Eles vão saber o que fazer. Mantenha a
bruxinha aqui, fique de olho nela, cuide da casinha.
Ele olha para as tropas.
Nove bonequinhas de aniagem.
Uma miniatura de tanque.
Três membros da tripulação de plástico, pintados com cuidado.
Em cima do tanque, o menor homem morto que ele já viu, congelado
atrás da portinhola de cima. Ela o encolheu. Ao lado da torre, o grafite
russo:
MATADOR DE TIGRE
O casebre está quase chegando à casa do Ladrão.
O professor olha pela janela da frente, vê a estrada saltitar embaixo,
no brilho das luzes da rua. Como está sem os óculos para corrigir a
miopia e o astigmatismo, para ele aquelas casas não passam de coisas
embaçadas, com pessoas embaçadas comendo jantares embaçados e
estreitando os olhos para a televisão e fazendo outras coisas que ele
costumava fazer antes. Mas aquele antes não existe mais para ele. Uma
parede de gelo que não derrete o separa do antes. Quando ele era quente.
Sabe que está fazendo barulho, mas não consegue parar, então pelo
menos tenta fazer de modo ritmado. Olha para a bruxinha. Ela olha de
volta, como aqueles leões que Marlin Perkins costumava acertar em
Wild Kingdom, capazes apenas de olhar para você, odiar você, drogados
demais para qualquer tipo de movimento. Ela está assim e é bom que
esteja. Ela chuta forte. Ele nem ficou bravo quando ela quebrou seu
dente e seus óculos, apenas frustrado por ela não ter entendido que os
dois seriam punidos por isso.
Ele se sente frustrado ao ver tudo tão borrado, pega uma lente dos
óculos destruídos, segurando perto do olho. Agora, a rua está nítida. Ele
se sente um gigante.
Um ciclope.
O escravo de uma bruxa.
Diz as palavras da bruxa.
Com dificuldade, por entre os lábios feridos.
Ele acha que sua mandíbula também pode estar quebrada.
Mas a dor é diferente agora, a dor é como uma conhecida.
— Fu, fu, fu.