Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Christopher Buehlman · Capítulo 46 de 134

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Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Capítulo 47

 

 

Como Andrew tem um tempo para matar antes de anoitecer, dá uma

volta pelo bairro. Há canteiros de obra por todos os lados, como sempre:

ruas destruídas bloqueadas com fitas laranjas, turistas se esbarrando no

que sobrou da calçada, pisando com cuidado entre pilhas de coisas de

uma loja nova ou outra. Na Royal Street, as mulheres com fantasias de

carnaval dançam no calor enquanto câmeras se viram e pessoas da

equipe de gravação levam as pessoas para Orleans: algumas se

amontoam nas beiradas com telefones em punho para filmar as cenas

das dançarinas.

No Dauphine, a mulher que gerencia uma perfumaria está gritando

com o dono do salão de tatuagem ao lado porque a nova pintura roxo-

metálica está deixando um cheiro forte. Ele dá um breve tchauzinho para

ela e entra. Ela grita enquanto ele se mantém de costas e continua

gritando na porta, até que ele sai segurando um ukulele e toca

acompanhando o que a mulher diz, fazendo com que ela fale mais alto,

arregalando os olhos, furiosa. Andrew quase é atingido no olho pelo

dedo dela, que não para de gesticular, e ri ao passar por eles, tendo o

bom senso de não responder quando ela grita “Qual é a graça?”.

A camisa de Andrew está ensopada quando ele chega à altura de seu

antigo apartamento em St. Ann, um pequeno flat no segundo andar que

foi anexado ao hotel Sanson. Ele fica diante do prédio e olha para cima,

percebendo que o apartamento parece muito mais organizado e

convidativo agora. Plantas penduradas descem majestosamente em

cascata das varandas. Uma mulher com um roupão turquesa olha para

ele sem pudor. Ela é como uma gata de varanda bebendo algo vermelho

de um copo transparente de plástico: suas cores combinam tão bem com

o gesso verde-água às suas costas que ela poderia ser paga para ficar ali.

— Tarde — diz Andrew.

Ela levanta o copo e inclina a cabeça de leve, com a delicadeza do

inebriamento diurno.

Ele sente falta de seu apartamento no Bairro Francês, mas o vendeu

depois do Katrina. No fim das contas, não ia lá com frequência para

justificar o gasto, e normalmente não é muito difícil encontrar um hotel

em New Orleans.

Normalmente.

 

Andrew segue outra vez para o sul e então sai na Bourbon e entra à

direita na Frenchman.

A loja de vodu da Frenchman fica debaixo de um letreiro de madeira

que exibe um morcego com uma peruca do século XVIII. O morcego

segura um pequeno crânio em uma das patas e um baralho de tarô na

outra, ecoando a imagem da águia americana com o ramo de oliveira e o

conjunto de flechas. A srta. Mathilda, uma negra enorme com vestido de

estampa indiana, aconselha um homem tímido com terno de lã.

— Esse tipo de serviço não é barato porque é de verdade. O senhor

compreende? Não é brincadeira.

Ela olha para Andrew quando ele entra.

O homem com terno de lã também.

Ela pisca para Andrew, olha de novo para o homem, usa o dedo para

virar o rosto para si. Ele sente dor. Ela continua.

— Você terá que me trazer um vídeo de seu pai, além de um ou dois

objetos pessoais dele, de preferência coisas que ele costumava mexer

bastante.

O homem olha para Andrew outra vez.

A srta. Mathilda diz:

— Ele é um amigo meu, podemos falar na frente dele.

Ela mal consegue conter o sorriso.

Ela vira o rosto do homem mais uma vez com o dedo e crava os olhos

nele.

— Em mais ou menos duas semanas após a entrega da fita,

entraremos em contato. Não se esqueça, a fita precisa ser VHS.

— Sim, senhora.

— Você tem uma gravação em VHS de seu pai?

— Fazendo o quê?

— Qualquer coisa.

— Natal. Pode ser do Natal?

— Adoramos o Natal na loja de vodu da Frenchman.

— Mas só tenho uma cópia. E ninguém faz VHS hoje em dia.

Ela pega um cartão de visita dos dentes do crânio de um gato.

— Esse cara em Tchopitoulas faz. Toque a campainha embaixo das

escadas. E não se assuste se ele atender de cueca. Cá entre nós, ele está

um pouco alterado, mas é o melhor na cidade para cuidar de eletrônicos

antigos.

— Como eu...?

— Como você pode saber que é verdade?

Ela estica um dedo, apontando a unha preta com um triângulo

brilhante, que parece uma estrela, para uma porta vermelha cheia de

relatos.

— Aquela sala. Você vai assistir pela primeira vez naquela sala. Caso

seu pai não fale com você, você não precisa pagar.

Os olhos dele dançam pelo rosto dela, à procura de uma pegadinha.

— Sério?

— É claro. Como já disse, isso é de verdade. Não precisamos enganar

ninguém.

— Três mil redondos? Sem taxa?

Ela assente.

— Para onde a fita vai?

— Não posso dizer.

— Isso é legal?

Ela abre um sorrisão.

— Meu amigo, ninguém me perguntou isso antes.

 

Quando o homem sai, Andrew e a srta. Mathilda trocam um abraço de

urso, riem e conversam.

— Há quanto tempo está aqui, bonitão?

— Não muito.

— Você tem cheiro de vodu.

— Culpado.

— E boudin. Andou comendo boudin?

Ele confirma com um meneio de cabeça.

— Cadê o meu?

Ele dá de ombros, sorrindo. Ela é cerca de uma década mais jovem do

que ele, mas sempre faz com que Andrew se sinta com doze anos. Ele

decide que da próxima vez trará boudin para ela.

— Mas e aí? Aquele cara. Você acha que ele vai querer um alçapão?

— Pode ser.

— Que coincidência. Digo, eu estar entrando bem na hora.

— Não tanto quanto você imagina.

— Como assim?

— Meu caro sr. Blankenship, ofereço seu serviço diversas vezes por

dia, na maioria dos dias. A todos que permanecem no altar dos mortos

com esperança ou tristeza nos olhos. E, claro, a quem compra uma vela

para acender ou pendurar uma foto. Veja quantas!

A árvore de metal em cima do altar de cera está repleta de fotos dos

mortos. O incenso continua aceso.

Ela continua.

— É que poucas pessoas têm esse dinheiro hoje em dia. Até mesmo

para falar com os benditos mortos.

— Eu tenho.

— Se você tivesse, não teria aberto mão daquele apartamento

pequeno e lindo.

Ele pisca duas vezes, estreita os olhos como se estivesse prestes a

pedir um favor.

Ela se adianta.

— Está visitando um amigo, não é?

— Sim.

— Tem exposição de armas na cidade esta semana — diz ela.

— Aham.

— Os hotéis estão todos lotados.

Ele se envergonha do planejamento malfeito.

— Isso mesmo.

Ela pega algo perto da caixa registradora.

Levanta três chaves de metal como se abrisse três cartas de baralho.

— Escolha.