Bem-Vindo à Casa dos Espíritos
Capítulo 47
Como Andrew tem um tempo para matar antes de anoitecer, dá uma
volta pelo bairro. Há canteiros de obra por todos os lados, como sempre:
ruas destruídas bloqueadas com fitas laranjas, turistas se esbarrando no
que sobrou da calçada, pisando com cuidado entre pilhas de coisas de
uma loja nova ou outra. Na Royal Street, as mulheres com fantasias de
carnaval dançam no calor enquanto câmeras se viram e pessoas da
equipe de gravação levam as pessoas para Orleans: algumas se
amontoam nas beiradas com telefones em punho para filmar as cenas
das dançarinas.
No Dauphine, a mulher que gerencia uma perfumaria está gritando
com o dono do salão de tatuagem ao lado porque a nova pintura roxo-
metálica está deixando um cheiro forte. Ele dá um breve tchauzinho para
ela e entra. Ela grita enquanto ele se mantém de costas e continua
gritando na porta, até que ele sai segurando um ukulele e toca
acompanhando o que a mulher diz, fazendo com que ela fale mais alto,
arregalando os olhos, furiosa. Andrew quase é atingido no olho pelo
dedo dela, que não para de gesticular, e ri ao passar por eles, tendo o
bom senso de não responder quando ela grita “Qual é a graça?”.
A camisa de Andrew está ensopada quando ele chega à altura de seu
antigo apartamento em St. Ann, um pequeno flat no segundo andar que
foi anexado ao hotel Sanson. Ele fica diante do prédio e olha para cima,
percebendo que o apartamento parece muito mais organizado e
convidativo agora. Plantas penduradas descem majestosamente em
cascata das varandas. Uma mulher com um roupão turquesa olha para
ele sem pudor. Ela é como uma gata de varanda bebendo algo vermelho
de um copo transparente de plástico: suas cores combinam tão bem com
o gesso verde-água às suas costas que ela poderia ser paga para ficar ali.
— Tarde — diz Andrew.
Ela levanta o copo e inclina a cabeça de leve, com a delicadeza do
inebriamento diurno.
Ele sente falta de seu apartamento no Bairro Francês, mas o vendeu
depois do Katrina. No fim das contas, não ia lá com frequência para
justificar o gasto, e normalmente não é muito difícil encontrar um hotel
em New Orleans.
Normalmente.
Andrew segue outra vez para o sul e então sai na Bourbon e entra à
direita na Frenchman.
A loja de vodu da Frenchman fica debaixo de um letreiro de madeira
que exibe um morcego com uma peruca do século XVIII. O morcego
segura um pequeno crânio em uma das patas e um baralho de tarô na
outra, ecoando a imagem da águia americana com o ramo de oliveira e o
conjunto de flechas. A srta. Mathilda, uma negra enorme com vestido de
estampa indiana, aconselha um homem tímido com terno de lã.
— Esse tipo de serviço não é barato porque é de verdade. O senhor
compreende? Não é brincadeira.
Ela olha para Andrew quando ele entra.
O homem com terno de lã também.
Ela pisca para Andrew, olha de novo para o homem, usa o dedo para
virar o rosto para si. Ele sente dor. Ela continua.
— Você terá que me trazer um vídeo de seu pai, além de um ou dois
objetos pessoais dele, de preferência coisas que ele costumava mexer
bastante.
O homem olha para Andrew outra vez.
A srta. Mathilda diz:
— Ele é um amigo meu, podemos falar na frente dele.
Ela mal consegue conter o sorriso.
Ela vira o rosto do homem mais uma vez com o dedo e crava os olhos
nele.
— Em mais ou menos duas semanas após a entrega da fita,
entraremos em contato. Não se esqueça, a fita precisa ser VHS.
— Sim, senhora.
— Você tem uma gravação em VHS de seu pai?
— Fazendo o quê?
— Qualquer coisa.
— Natal. Pode ser do Natal?
— Adoramos o Natal na loja de vodu da Frenchman.
— Mas só tenho uma cópia. E ninguém faz VHS hoje em dia.
Ela pega um cartão de visita dos dentes do crânio de um gato.
— Esse cara em Tchopitoulas faz. Toque a campainha embaixo das
escadas. E não se assuste se ele atender de cueca. Cá entre nós, ele está
um pouco alterado, mas é o melhor na cidade para cuidar de eletrônicos
antigos.
— Como eu...?
— Como você pode saber que é verdade?
Ela estica um dedo, apontando a unha preta com um triângulo
brilhante, que parece uma estrela, para uma porta vermelha cheia de
relatos.
— Aquela sala. Você vai assistir pela primeira vez naquela sala. Caso
seu pai não fale com você, você não precisa pagar.
Os olhos dele dançam pelo rosto dela, à procura de uma pegadinha.
— Sério?
— É claro. Como já disse, isso é de verdade. Não precisamos enganar
ninguém.
— Três mil redondos? Sem taxa?
Ela assente.
— Para onde a fita vai?
— Não posso dizer.
— Isso é legal?
Ela abre um sorrisão.
— Meu amigo, ninguém me perguntou isso antes.
Quando o homem sai, Andrew e a srta. Mathilda trocam um abraço de
urso, riem e conversam.
— Há quanto tempo está aqui, bonitão?
— Não muito.
— Você tem cheiro de vodu.
— Culpado.
— E boudin. Andou comendo boudin?
Ele confirma com um meneio de cabeça.
— Cadê o meu?
Ele dá de ombros, sorrindo. Ela é cerca de uma década mais jovem do
que ele, mas sempre faz com que Andrew se sinta com doze anos. Ele
decide que da próxima vez trará boudin para ela.
— Mas e aí? Aquele cara. Você acha que ele vai querer um alçapão?
— Pode ser.
— Que coincidência. Digo, eu estar entrando bem na hora.
— Não tanto quanto você imagina.
— Como assim?
— Meu caro sr. Blankenship, ofereço seu serviço diversas vezes por
dia, na maioria dos dias. A todos que permanecem no altar dos mortos
com esperança ou tristeza nos olhos. E, claro, a quem compra uma vela
para acender ou pendurar uma foto. Veja quantas!
A árvore de metal em cima do altar de cera está repleta de fotos dos
mortos. O incenso continua aceso.
Ela continua.
— É que poucas pessoas têm esse dinheiro hoje em dia. Até mesmo
para falar com os benditos mortos.
— Eu tenho.
— Se você tivesse, não teria aberto mão daquele apartamento
pequeno e lindo.
Ele pisca duas vezes, estreita os olhos como se estivesse prestes a
pedir um favor.
Ela se adianta.
— Está visitando um amigo, não é?
— Sim.
— Tem exposição de armas na cidade esta semana — diz ela.
— Aham.
— Os hotéis estão todos lotados.
Ele se envergonha do planejamento malfeito.
— Isso mesmo.
Ela pega algo perto da caixa registradora.
Levanta três chaves de metal como se abrisse três cartas de baralho.
— Escolha.