Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Christopher Buehlman · Capítulo 23 de 134

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Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Capítulo 22

 

CHICAGOHONEY85: O Mikhail Dragomirov que você está procurando é Mikhail “Misha” Yevgenievich Dragomirov. Nascido em dezembro de 1943. Foi um dos poucos não judeus de uma organização criminosa que apareceu durante a détente do início dos anos 1980. Vivia em Brighton Beach, que alguns chamavam de Little Odessa, embora ele não fosse de Odessa. Conhecia caras do Exército. Sua família tem elos fortes com os militares russos, sobretudo seu tio-avô Mikhail Dragomirov, de quem herdou o nome e o sobrenome, um coroa parecido com Sean Connery que escreveu muito sobre as táticas do século XIX. O tio-avô morreu de ataque cardíaco em 1905, quando os japoneses acabaram com as táticas russas do século XX. O pai, Tevgeny, também não era nenhum preguiçoso. Uma porrada de medalhas na Segunda Guerra Mundial. Comandante de tanques, T-34. Apenas um efreitor, um artilheiro do Exército russo, mas sobreviveu a três tiros, rastejou para fora de dois tanques em chamas e matou mais alemães do que salsichas Bratwurst podres. Um cara durão de verdade. RANULF: De onde ele era?

— O tio-avô, o durão ou o seu cara?

— Os três.

— O Grande Urso, da Ucrânia. O Papai Urso, de uma vila perto do Volga. O Bebê Urso, de Gorky, agora chamada Níjni Novgorod.

 

Andrew sente um arrepio na espinha e se afasta do computador, como

quem se afasta das lembranças que a palavra Volga causam nele.

Fu, fu, fu, sinto cheiro de ossos russos.

Ele percebe que suas palmas das mãos estão suando e as seca na

calça.

 

— Onde está o pequeno Dragomirov agora?

— Eu que deveria estar te fazendo essa pergunta. Ele desapareceu da casa de verão dele em Sterling. Estado de Nova York. A alguns quilômetros de você, não?

— Não parece meio bagunçado? Antigos acertos de conta?

— Não é bem assim. Todo mundo gostava dele. Era tão bom com números que foi contratado por três chefes para ajudá-los a acobertar esquemas de gasolina, e tão charmoso e engraçado que foi poupado pelos Lucchese quando encontraram Resnikoff. Mas esperou até o começo dos anos 1990, quando eles abriram aquela enorme discoteca, a Rasputin’s. Enquanto isso,

mais russos chegavam aos montes, vários com músculos de ex-Spetsnaz, as forças especiais da antiga União Soviética e da atual Federação Russa. O FBI ficou interessado porque esses caras eram tão grandes quanto os italianos, pelo menos regionalmente. Mikhail Dragomirov sentiu que as coisas estavam esquentando, partiu para São Petersburgo (na Flórida, não na Rússia), se casou com uma aeromoça que também trabalhava como modelo em exposições de barcos e comprou algumas casas. Ela morreu, ele vendeu as casas e agora vive com o cachorro, jogando e entrando em sites de acompanhantes. Ele adoooora as merdas de Vegas. E o Cirque du Soleil. Acho que ele assistiu a Ka sete vezes. E Avenue Q. Se fosse virar comida de peixe, alguém teria feito isso antes.

 

Andrew pisca ao ler a tela e coça o queixo. “Virar comida de peixe?”

Será que foi intencional? Ela sabe sobre Nadia?

 

— Jesus, meu velho, você ficou com uma rusalka? Não sabia que havia uma dessas no Ocidente. Que merda é essa? O cara chega aos Estados Unidos para ser afogado por uma sereia russa?

— Você está lendo meus pensamentos pela internet? Esta conversa está segura?

— O Facebook sabe mais sobre você do que eu. E computadores são minha especialidade. Você ficaria surpreso ;)

 

Ao dizer isso, Radha aparece em um box na tela (meio iraniana por parte

de pai, mas ela diz persa — pele clara, cabelos escuros, ela é incrível),

mostrando as mãos. O texto continua rolando.

 

— Além do mais, não converso sem segurança, exceto na p**** da rede social, como fachada. Se eu não estivesse protegendo isso, conversaria com você pelo Skype, porque você digita como uma foca treinada usando o focinho. Sou a responsável por cerca de quarenta do nosso tipo... Acha mesmo que vou deixar alguém ler isto? Tente imprimir esta conversa, eu te desafio.

 

Como Andrew gosta de desafios, ele imprime. A página não mostra o

texto, e sim uma fotografia: ele no banheiro, com a calça abaixada até os

tornozelos, os cabelos compridos soltos, lendo um exemplar da Timber

Home Living, sua revista preferida. A foto é da manhã daquele mesmo

dia, pelo ângulo do espelho de latão polido acima da pia. Um canto do

seu celular mostra a caixa de descarga do vaso, logo atrás dele, indicando a brecha que ela usou para entrar. Normalmente, os espelhos

de latão são seguros, não podem ser usados como portais, ao contrário

dos de vidro, mas Radha é tão boa com eletricidade e correntes que

conseguiu usar o metal condutivo a seu favor.

 

— Você me assusta.

— Obrigada. Então, olha, você deveria saber que peguei uma mágica com ele. Forte. Não vem dele, mas de alguém perto dele, talvez alguém da família. Talvez a sobrinha. Uma conversa de internet a respeito de uma sobrinha que está vindo ajudar a procurar, mas nada específico. Acho que tem alguém protegendo isso.

— Alguém mais forte do que você?

 

Radha cruza os braços e ergue uma sobrancelha.

 

— Eu não disse isso.

 

Quando ela descruza os braços, está com seis, ao estilo Shiva: apoia as

mãos no quadril de modo desafiador, com os seis cotovelos para atrás,

parecendo um tipo de serafim persa.

 

— Desafio você a conseguir informações sobre a sobrinha.

— Não é justo.

— Desafio você duas vezes.

— O que eu ganho?

— O que você quer?

— Madeline Kahn.

— Certo, vou abrir um alçapão por cinco minutos. Você sabe como funciona, não é?

— Sim, você pode me mandar um DVD de um filme com a participação dela e eu consigo cinco minutos de conversa. Mas ela não precisa fazer isso. Ela pode me mandar pra puta que pariu e pedir que eu caia fora e a deixe em paz.

— Ou ela pode enlouquecer. É mais provável que ela use o tempo perguntando sobre amigos e familiares. Você deveria pesquisar todo mundo que ela conheceu. E vai ser um VHS. Ainda não sei fazer em DVD. — Tem que aprender, cara. Até os DVDs estão ultrapassados hoje em dia. O que você vai fazer quando tudo for feito do computador? É assim agora. — Acho que vou ter que aprender.

— Não consigo abrir alçapões. Já tentei. Vários.

— Então acho que você terá que ir a uma loja de usados para comprar um videocassete.

— Para a Madeline? Certo. E mande A História do Mundo. Quero conversar com ela naquele lance romano. “SIM! Não, não, não, não, não, não, SIM!”

— Tem certeza de que não tem um membro da família ou amigo com quem gostaria de conversar?

— Sou jovem. Todos os meus amigos estão vivos. Apenas familiares mortos já eram velhos. Uma avó bacana em Brick Lane, em Londres, morreu há pouco, mas prefiro falar com Madeline Kahn. “Ahhh, é verdade, é verdade!”

— Como quiser.

— Certo, vou continuar insistindo. Veremos se o camarada Dragomirov tem ativos ou passivos em seu canil.