Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Christopher Buehlman · Capítulo 109 de 134

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Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Capítulo 111

 

 

Michael Rudnick olha para o céu pelo novo buraco no telhado.

Partes do telhado pegam fogo, mas se apagam depressa graças aos

feitiços antifogo que Andrew espalhou pela casa.

Michael tem um feitiço muito forte guardado e acha que chegou a

hora.

Ele toca em uma peça de ferro de formato esquisito, pendurada em

volta do pescoço por um cordão de couro.

Ele olha para o céu, tentando ver e sentir.

Sente muitos, em sua maioria bem pequenos, um bem grande.

Deve ser Cachinhos de Ouro.

E ele tem que ser rápido.

E ter sorte.

Escuta o tanque se preparando para um novo disparo.

BAM !

Sente a casa tremer, balançar. Sabe que a sala de estar foi explodida,

uma parede de apoio destruída.

Interrompe o feitiço em que estava trabalhando e agora sente onde o

projétil bateu. Não pode fazer nada em relação aos móveis e

equipamentos eletrônicos perdidos, mas abre as palmas como um

maestro, faz os tijolos explodidos e a madeira voltarem a se unir — a

casa balança e se endireita.

Vê uma coruja empalhada ganhar vida e voar pela janela.

Ótimo — Andrew está aprontando alguma.

Olha para o amigo, vê quando o outro mago pega um comprimido do

bolso da camisa e engole a seco.

Ele está procurando se controlar.

Tem uma magia mais forte do que Michael — a maior parte do

minotauro foi autoria dele, uma mágica com carro.

Mas ele tem uma personalidade mais fraca.

Pode ser que eles vençam se Andrew não perder o controle.

O tanque se prepara de novo, mas Michael está pronto: a casa treme,

mas os fragmentos do projétil não chegam a se espalhar nem por dois

metros antes de a estrutura parecer inalar tudo de volta. Como uma rosa

incendiária se abrindo e se fechando num piscar de olhos, com um eco

como trovão. Os focos de incêndio gerados pela explosão desaparecem

em menos de dois segundos.

Uma mulher xinga sem parar em russo.

Eles sabem que não podem derrubar a casa.

Agora, vão atirar no alto.

Em nós.

Se atingirem o sótão, viramos presunto.

Ele olha para o céu de novo.

Neve caindo, mas sem nuvens.

Sente o que quer.

Exatamente o que quer, do tamanho certo, o mais próximo que

percebe.

Ah, isso vai ser perigoso.

Vai ser a coisa mais difícil que já fez.

Ele realizou aquele feitiço no deserto do Arizona, certa vez, mas não

havia casas por perto: a precisão não estava em jogo.

Ele chama.

 

Andrew manda a coruja e pega um comprimido de rivotril.

Onde está Sal? Sal está bem?

O bombardeio o está afetando.

Dois ataques diretos na casa.

Eles não vão sobreviver a um terceiro.

Acabar com o tanque depende de Andrew.

Seus nervos estão à flor da pele.

Tudo está acontecendo de uma vez.

Marina está em cima do tanque, apontando para o sótão.

A boca de fogo se eleva.

Andrew diz “Abaixe-se!” para Michael, que parece estar observando

as estrelas.

Michael fica olhando para cima, mexendo os lábios.

O que diabos ele está fazendo?

Depressa, coruja.

Andrew se atira no chão, cobre a cabeça, volta os olhos para a coruja.

 

Agora, vê o quintal e o tanque.

O pássaro voa em direção ao blindado, devagar, esforçando-se para

carregar o vaso.

O tanque vai disparar.

Eu poderia olhar para o sótão, observar minha própria morte.

Não, voe mais rápido, coruja maldita.

MAIS RÁPIDO!

E então ele vê.

Com seus olhos de coruja.

Vem da constelação de Cassiopeia. Algo se inclina devagar a

princípio, parece se virar, e então se precipita em alta velocidade,

intensamente, fumegante, quase depressa demais para ver.

Lançando sombras malucas.

É grande, grande o bastante para passar pela atmosfera.

Como é real, muitos conseguem ver.

Recebe desejos de nada menos do que quatro mil pessoas.

Que a cirurgia de minha mãe corra bem.

Que eu consiga entrar na Yale.

Proteja meu amor em Cabul.

Por favor, por favor, por favor, que a Stargate escute meu CD demo.

Desejo que ele me peça em casamento.

Por favor, que não seja maligno.

Quero que Stephanie Daley me beije de língua.

POR FAVOR, ACABE COM A PORRA DESSE TANQUE!

(esse é de Andrew)

A bruxa em cima do tanque se vira, vê o meteoro vindo, estende uma

mão a ele. Consegue fragmentá-lo para que caia não em um pedaço do

tamanho de uma televisão de tela gigante, e sim em vários do tamanho

de bolas de futebol americano e de beisebol. Consegue torná-los mais

lentos para que não vaporizem o tanque.

Ela é muito forte.

Mas não consegue impedi-lo.

Impedi-los.

Um pedaço bate na torre, assusta o canhoneiro morto — o motorista

soviético feito de uma miniatura de plástico.

E derruba a bruxa.

Outro pedaço acerta o lado esquerdo e duas rodas do T-34.

Um erra, levando ao chão uma árvore pequena.

O barulho é fortíssimo.

O meteoro não destrói o tanque, mas faz muitos estragos.

Ganha um tempo.

Para a coruja.

 

O corujão-orelhudo voa em direção ao tanque, segurando o vaso com as

garras. Quase não chega: o vaso é pesado e suas unhas não foram feitas

para carregar coisas assim. Derruba o vaso inteiro, escuta quando se

quebra, vira-se de modo que Andrew possa usar os olhos para ver as

pedras de vidro amarelo brilhando por todo o casco do tanque.

No sótão, Andrew grita a palavra.

— Bhastrika!

WHUMP!

Uma bola de fogo do tamanho da tenda de um paxá se estende acima

do tanque, incendiando partes da madeira e a coruja, iluminando a neve

que começou a se acumular no quintal.

Andrew volta a si, balança o braço que pensou ser uma asa pegando

fogo, prepare-se, olha pela janela com Michael.

O brilho do fogo na neve o faz pensar nas luzes de Natal, e então o

pensamento desaparece com a mesma rapidez com que veio.

Que Natal de merda.

Um esqueleto escurecido está saindo de um tanque em chamas em

seu jardim.

Um esqueleto escurecido em chamas.

Indo em direção à casa.

Os três soldados soviéticos restantes em posição, atrás dele.

Correndo até a casa!

Michael, ainda atordoado com a invocação do meteoro, se encosta na

parede, aponta para a escada do sótão.

Andrew desce para conter o ataque.