Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Christopher Buehlman · Capítulo 92 de 134

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Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Capítulo 94

 

Anneke escuta o acidente.

Ouve a buzina.

E reconhece como a do Mustang de Andrew.

— EI! — grita ela com tudo.

Até com magia.

O colar diminui boa parte de sua força.

Mas não toda.

O homem barbudo atinge Anneke.

É mais um tapa esquisito e forte do que um soco.

Ele não bateu em muitas pessoas em sua outra vida e não tem talento

para isso agora, apesar de ter ficado mais forte com o desespero e a

insanidade.

A pancada machuca um pouco, mas agora Anneke sabe onde ele está.

Ela chuta pra valer.

Só se deita sobre o traseiro ardido e dá coices até ele gritar e se

afastar dela, com os óculos quebrados, sangue na barba.

— Credo! — solta ele. — Socorro! Socorro!

Ela quase ri com isso.

Ela tenta sentir o metal nas algemas, imagina se consegue soltá-las

com a mesma energia que usou para mover a placa na estrada.

Não com esse maldito colar em mim.

Agora, percebe o metal do colar.

Imagina que ele se abre.

Ele não se abre.

Ela tenta mais, tenta sentir a estrutura mais básica do ferro que arde

em seu pescoço. O colar se move um pouco, com movimentos bem

leves, uma cobra acordando. Anneke começa a forçar a cauda para longe

da boca. O colar emite um som estridente de metal agonizado.

Alguma coisa está dentro da casinha agora.

Está me vendo.

Sabe o que estou tentando fazer.

 

E assim a casinha desaparece.

 

Uma mulher se agacha perto de um rio, a neve fraca cobrindo o chão,

uma floresta quase desmatada atrás. Novembro? Fim do outono. Uma

mulher lava roupas na água, uma mulher velha com um cachecol

colorido, eslava. É ela? Não. Baba Yaga está se aproximando atrás

dela. Não a mulher da pintinha, mas uma mulher velha com pele

flácida. Mas é ela. Anneke sente vontade de gritar para alertar a mulher

que está lavando roupas, mas a parte de Anneke que vê aquilo não tem

boca. Não é hoje, nem ontem. É antes da época dos trens. Agora, a

mulher do rio percebe a outra, pega um graveto, a mágica toca o ar.

Uma bruxa. Ela segura o graveto, mas antes que consiga apontá-lo a

Baba, esta bate uma vassoura de bétula em uma bétula. Algo muito

parecido com uma serpente vem dos galhos superiores, desce pelo

tronco quase depressa demais para ver uma chuva de folhas marrons

caídas, sobe no graveto e no braço da senhora que estava lavando

roupa e se enrola em seu pescoço. Sua boca se prende aos lábios dela.

Baba Yaga inspira quando a serpente inspira, tirando a respiração da

outra velha. A mulher que estava lavando roupas sofre e morre

sufocada. A serpente rasteja ao redor do pescoço do cadáver, come o

graveto que a mulher estava segurando e então desliza pelo pescoço de

Baba. Devagar. Respira pela boca. Um vento chacoalha o resto das

folhas das árvores perto do rio. Baba se torna menos pálida: seu rosto

assume um tom rosado. Até mesmo o turbante em sua cabeça, de um

vermelho meio desbotado, brilha mais forte, como se tivesse sido tingido

há pouco. Duas velhas babushkas com lenços de cabeça e blusas

bordadas. Elas deveriam estar trocando receitas e reclamando dos

filhos, mas eram bruxas e uma matou a outra com uma serpente de

ferro. Baba Yaga pega as roupas do rio, encosta o cesto no quadril e deixa a mulher morta ali. A vassoura fica para trás, começa a varrer

uma cova para dentro da qual rolará o corpo. Finalmente, quase longe

demais para ver, Baba se vira, coloca o cachecol no pescoço e olha

para trás.

Olha para Anneke.

— O nome é Bruxa do Leite — ela diz em russo que Anneke entende

um pouco. — E serve a mim, não a você.

A mulher entra na mata enquanto os corvos grasnam.

 

Anneke acorda no casebre.

Seus lábios doem onde a boca da serpente encostou, onde tirou a

maior parte de seu fôlego.

A serpente se assentou ao redor de seu pescoço, ferro frio.

O forno fica muito vermelho.

O homem barbudo está deixando escorrer baba com sangue dos

lábios feridos. Está amarrando os pés de Anneke, vocalizando de modo

incoerente sílabas que não são palavras. Com uma força que algo lhe

emprestou, ele empurra Anneke de cabeça para baixo, pendura-a pelos

pés, com as mãos dela ainda presas à parede. É um pouco demais, mas

ele a estica mesmo assim. Ela range os dentes, geme. Consegue não

gritar.