Bem-Vindo à Casa dos Espíritos
Capítulo 85
O homem muito ferido manca no acostamento da estrada, carregando a
bota de caubói porque não conseguiu enfiar dentro o pé quebrado, que
não sente. Ele está bêbado, mas não é por isso. Não consegue sentir o pé
porque tem o foco de um homem em situação de vida ou morte. Sua
amante está morta na mata. Voou para perto das árvores.
Culpa dele.
Culpa toda dele.
Ele havia apagado as luzes por brincadeira, a oitenta quilômetros por
hora.
Ela havia dito “Andrew” em reprimenda, sua última palavra
inteligível.
Ele não pode salvá-la.
Mas sabe de algo que pode.
Estica o polegar e o sueco grande na caminhonete para.
— Vou levar você ao hospital — insiste o homem.
— Você vai me levar para casa — diz Andrew a ele, lançando um
encantamento forte. Bem forte.
— Claro! — diz o homem, remexendo o rosto com um novo tique
que pode ou não ser permanente.
Ele leva o bêbado ferido e maluco para casa.
— Até mais tarde! — diz o sueco, saindo e acenando, o rosto
repuxando.
O coitado só queria ajudar, mas não consigo pensar nele Sarah
Sarah Sarah.
Toda dobrada ao redor da árvore.
Salvador late, salta sobre o dono, tenta lamber as lágrimas, o muco e
o sangue do rosto. Gira com alegria.
— Agora não, Sal — diz o mago.
Ele vai para a biblioteca.
Ajoelha-se diante de um baú.
Abre dizendo seu nome.
No baú, está o revólver do oficial da cavalaria russa, uma bala e uma
lâmina de barbear. Ele carrega a arma, gira o cilindro.
Coloca o cano na boca.
Sarah.
Puxa o gatilho.
Clique.
Um livro aparece.
Ele abaixa a arma.
Couro azul rachado. Entalhado em círculos dourados e prateados.
Cabelos molhados em sangue há muito seco formando letras russas
do século XVI.
LIVRO DE PESARES.
Ele corta o polegar, pinga várias gotas no cabelo.
Ele pensa no que quer.
O livro se abre em uma página perto do fim.
Cartas escritas a mão, tinta, e não sangue, dizem a ele o que fazer.
Ele faz a primeira parte direitinho, apesar da embriaguez.
Ele não está mais na biblioteca.
“Going to California” toca no rádio do carro batido.
A coisa está ali.
Preta, a escuridão parecendo se grudar a tudo ao redor.
Não era mágica, e sim um estranho sentimento morto e antiético à
mágica.
Uma forma grande e sem cabeça que, como está prestes a precisar de
braços e pernas, cria esses membros. Ainda sem cabeça.
O cavaleiro sem cabeça.
Ichabod Crane.
O nome parece Ichabod.
— Ichabod vai ser bom — diz a coisa.
A coisa desdobra a mulher morta de seu ninho horroroso de gravetos
e vegetação.
Pega ela.
Seu tamanho faz com que Andrew se lembre do monstro de
Frankenstein, e agora a coisa filtra a imagem da mente de Andrew se
transformando nela, uma versão em preto e branco. Parecido com o
monstro interpretado por Karloff, mas não tanto. A versão de Karloff
passou pela mente de Andrew, corrompida com uma versão gráfica que
ele viu, e só um pouco de Herman Munster. A coisa pisca para Andrew,
segurando a moça arrasada, que já parece menos arrasada. A coisa passa
a palma da mão pelo rosto de Andrew.
— Esqueça — diz Ichabod. — Por enquanto.
Andrew já está se esquecendo quando cambaleia para casa.
Sabe que encontrará Sarah segura e bem na cama deles.
Segue logo atrás da coisa, muito mais devagar.
Faz uma pausa para tirar o sangue da bota.
Uma caminhonete para.
Sarah vive mais um ano e um dia.
A duração de um noivado no paganismo.
Ela tem um aneurisma no lago Darien.
Depois da montanha-russa.
Senta-se.
Cai.
E é isso.
No ano seguinte, Salvador persegue um veado.
O sueco grande na caminhonete desvia do veado.
Mas não do cachorro.
Andrew bebe por mais dois anos.
Acha que é quando ele chama Ichabod.
Acha que é quando estraga o feitiço para mandá-lo de volta.
Acha que está na hora de parar de beber.
Mas já passou muito da hora.