Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Christopher Buehlman · Capítulo 65 de 134

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Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Capítulo 66

 

 

Noite.

Uma lua nova, o céu e o lago pretos como petróleo.

A mulher está de pé, nua, em cima da casa, apenas com uma bolsa de

lona sobre o ombro. Prepara duas garrafas, garrafas de vodca cheias de

sangue até o gargalo.

Uma delas tem sangue de galo.

A outra, não.

Toma um gole da segunda e então esvazia as duas em um balde com

uma vassoura dentro. Amarra e pendura as duas garrafas vazias em volta

do pescoço. Usa a vassoura para espalhar o sangue no telhado, sabendo

que verá moscas amanhã, mas não pode fazer nada. As coisas são assim.

Ela não precisa cobrir o telhado todo — não teria como —, mas não

deve deixar dois palmos sem sangue.

É um feitiço antigo, e feitiços antigos são inflexíveis.

Anda para trás em direção à escada, levando o balde, raspando os pés

para não deixá-los sujos. Mais ou menos a cada metro, descansa a

vassoura, tira penas de galinha do saco ao ombro e espalha no telhado,

repetindo um verso em russo e concentrando-se no que quer.

As garrafas às vezes batem devagar, lembrando-a de que os

testículos, os seios e os ovários — todos os órgãos genitivos — existem

em duplas. Três é um número para fortificar, invocar e matar. Quatro é

para proteção e para o clima. Mas o dois é para criação.

Dois bebês, um menino e uma menina.

Dois galináceos, um galo e uma galinha.

Após descer a escada, entrega as garrafas ao Homem-que-Não-Olha-

para-Ela, que coloca as duas no saco de lixo com os ossos. Os ossos da

galinha e do galo, e então os ossos que não são nem de galinha nem de

galo.

E as roupas.

As roupinhas.

Na sacola que será levada para o lago.

Ela fica de pé na varanda observando o Homem Frio.

Moroz.

O Homem-que-Não-Olha-para-Ela não rema — ele vai voltar para

seu quarto rápido como um pássaro e entre o sono e o despertar.

Aprendeu depressa, protege-se de modo obediente, vai para a cidade

para cumprir tarefas e nunca ousa correr. Sabe que o Homem Frio iria

atrás dele e da sua família. Aceitou a situação de modo natural porque é

um covarde. Não um ladrão.

As coisas estão começando a acontecer contra o ladrão.

Ele está forte agora, não como antes.

Ele matou a Baba na mata ou fez com que ela fosse morta.

A cadela na água matou o doce Misha.

A casa dele é cheia de truques.

Ele tem amigos, muitos amigos.

Primeiro, os amigos.

Então, o medo chegará até a ele e vai enfraquecê-lo.

E, então, ela vai fechar os olhos dele.

E vai pegar o que é dela.

Ele se escondeu, mas a mágica está desaparecendo.

Ela conhece a cidade dele, até a rua dele.

Ele se desgastou com outros feitiços.

Ela vai encontrá-lo logo.

A mágica desta noite deve dormir, mas será despertada quando a lua

estiver grande e cheia.

— Espere um pouco — diz ela. — As batatas.

O Homem-que-Não-Olha-para-Ela está amarrando e colocando a

sacola dentro do barco. Escuta o que ela diz e pergunta:

— Batatas? Você precisa de batatas?

— Sim. Deve bastar para ele. Você deve sair amanhã para encontrar

um balde de batatas. Outras coisas também.

— Claro.

— Está com fome?

Ele balança a cabeça, olhando para os pés.

— Você vai ter que comer.

Ele balança a cabeça de novo.

Uma lágrima cai em seus pés.

— Vá já para o canil.

Ele sai, ainda olhando para baixo, os ombros encolhidos.

Ela fareja o ar.

Sorri.

Alho, alecrim, vinho, pimenta do reino.

E carne.

Ela saliva.

O primeiro assado está pronto.