Bem-Vindo à Casa dos Espíritos
Capítulo 66
Noite.
Uma lua nova, o céu e o lago pretos como petróleo.
A mulher está de pé, nua, em cima da casa, apenas com uma bolsa de
lona sobre o ombro. Prepara duas garrafas, garrafas de vodca cheias de
sangue até o gargalo.
Uma delas tem sangue de galo.
A outra, não.
Toma um gole da segunda e então esvazia as duas em um balde com
uma vassoura dentro. Amarra e pendura as duas garrafas vazias em volta
do pescoço. Usa a vassoura para espalhar o sangue no telhado, sabendo
que verá moscas amanhã, mas não pode fazer nada. As coisas são assim.
Ela não precisa cobrir o telhado todo — não teria como —, mas não
deve deixar dois palmos sem sangue.
É um feitiço antigo, e feitiços antigos são inflexíveis.
Anda para trás em direção à escada, levando o balde, raspando os pés
para não deixá-los sujos. Mais ou menos a cada metro, descansa a
vassoura, tira penas de galinha do saco ao ombro e espalha no telhado,
repetindo um verso em russo e concentrando-se no que quer.
As garrafas às vezes batem devagar, lembrando-a de que os
testículos, os seios e os ovários — todos os órgãos genitivos — existem
em duplas. Três é um número para fortificar, invocar e matar. Quatro é
para proteção e para o clima. Mas o dois é para criação.
Dois bebês, um menino e uma menina.
Dois galináceos, um galo e uma galinha.
Após descer a escada, entrega as garrafas ao Homem-que-Não-Olha-
para-Ela, que coloca as duas no saco de lixo com os ossos. Os ossos da
galinha e do galo, e então os ossos que não são nem de galinha nem de
galo.
E as roupas.
As roupinhas.
Na sacola que será levada para o lago.
Ela fica de pé na varanda observando o Homem Frio.
Moroz.
O Homem-que-Não-Olha-para-Ela não rema — ele vai voltar para
seu quarto rápido como um pássaro e entre o sono e o despertar.
Aprendeu depressa, protege-se de modo obediente, vai para a cidade
para cumprir tarefas e nunca ousa correr. Sabe que o Homem Frio iria
atrás dele e da sua família. Aceitou a situação de modo natural porque é
um covarde. Não um ladrão.
As coisas estão começando a acontecer contra o ladrão.
Ele está forte agora, não como antes.
Ele matou a Baba na mata ou fez com que ela fosse morta.
A cadela na água matou o doce Misha.
A casa dele é cheia de truques.
Ele tem amigos, muitos amigos.
Primeiro, os amigos.
Então, o medo chegará até a ele e vai enfraquecê-lo.
E, então, ela vai fechar os olhos dele.
E vai pegar o que é dela.
Ele se escondeu, mas a mágica está desaparecendo.
Ela conhece a cidade dele, até a rua dele.
Ele se desgastou com outros feitiços.
Ela vai encontrá-lo logo.
A mágica desta noite deve dormir, mas será despertada quando a lua
estiver grande e cheia.
— Espere um pouco — diz ela. — As batatas.
O Homem-que-Não-Olha-para-Ela está amarrando e colocando a
sacola dentro do barco. Escuta o que ela diz e pergunta:
— Batatas? Você precisa de batatas?
— Sim. Deve bastar para ele. Você deve sair amanhã para encontrar
um balde de batatas. Outras coisas também.
— Claro.
— Está com fome?
Ele balança a cabeça, olhando para os pés.
— Você vai ter que comer.
Ele balança a cabeça de novo.
Uma lágrima cai em seus pés.
— Vá já para o canil.
Ele sai, ainda olhando para baixo, os ombros encolhidos.
Ela fareja o ar.
Sorri.
Alho, alecrim, vinho, pimenta do reino.
E carne.
Ela saliva.
O primeiro assado está pronto.