Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Christopher Buehlman · Capítulo 45 de 134

Páginas do PDF

Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Capítulo 46

 

New Orleans em junho é como uma sauna ensolarada e perigosa, cujo

vapor parece vir da virilha e das axilas de seus habitantes. O centro da

cidade é uma mistura de ruas coloniais onde turistas pisam em ossos:

eles bebem licores destilados do suor dos africanos mortos, cujos netos

foram empurrados e humilhados para esperar pelo afogamento

centenário, mas alguns não esperam em silêncio. É fácil levar um tiro

aqui, receber uma facada ali ou perder os dentes acolá, mesmo nos

lugares mais bem iluminados que cheiram a rum e suco de fruta, mesmo

quando policiais observam da sela dos cavalos e moradores gordos de

Iowa e Michigan dormem em hotéis caros, sonhando com o próximo

café da manhã.

Haint aprecia isso no Bairro Francês. Gosta de caminhar entre os

sujeitos que recebem ajuda do governo e os cegos e sentir a

condescendência deles: Haint é outra curiosidade em uma cidade repleta

de curiosidades, um negro com a pele quase azul marcada de propósito,

com a coroa de cabelos grisalhos e um domo careca que traz uma fileira

de cicatrizes que ele causou a si mesmo com um ferro quente.

— Gostei de sua carta — diz Haint a Andrew, os dois homens suando

sem parar. — Você escreve as palavras de um jeito claro com a caneta,

as letras claras, nenhuma malfeita.

— Eu enviei um e-mail para você — comenta Andrew.

Haint escolhe cada uma das palavras seguintes com cuidado, como se

explicasse as coisas a uma criança bem-intencionada, mas desapontada.

— Estou falando. Sobre o caminho. Vi ele na minha mente.

Visualizei seu e-mail como uma carta.

Haint é um daqueles usuários meio malucos cuja conversa deve ser

peneirada para separar a ilusão da magia em si. Isso costuma ser difícil.

— Você escreve forte com a caneta — continua ele. — Você diz que o

que diz é o que aquilo diz. Trago homens assim dentro do peito.

Ele coça a careca da cabeça com o quepe sujo e desengonçado, um

quepe que mais segura do que usa. Em seguida, dá outra mordida na

jambalaia, que considera morna na temperatura (ainda que não no

sabor), uma paella com molho quente Crystal acumulado como sangue

alaranjado ao redor da borda do prato.

— Você vai me ajudar? — pergunta Andrew.

— Outra coisa que gosto em você é que não tenta agir como se não

sentisse medo.

Andrew assente.

— Qualquer pessoa esperta estaria com medo daquela velh... dela.

Dela, quero dizer. Eu nem sabia que ela era real. Ouvi histórias

macabras, mas imaginei que fossem só histórias. Mas se ela é uma

realidade de verdade, e ela é bem velha, vai fazer Marie Laveau parecer

uma escoteira, deixando de lado o orgulho do time da casa e tudo. Sim,

vou ajudá-lo. Mas fique com o livro. Não uso livros e não leio bem o

suficiente no meu idioma a ponto de ter esperança de ler em russo.

A parte a respeito de “não ler bem o suficiente” é uma mentira

deslavada. Haint lê como um estudioso de Oxford, mas esconde sua

inteligência atrás de um monte de gírias.

O e-mail de Andrew oferecia um dos tesouros que ele levou para casa

em 1983, um belo tomo sobre invisibilidade escrito na época de Pedro, o

Grande. Um livro particularmente valioso por motivos estéticos e

práticos.

No entanto, o que Haint acabou de dizer mostra a Andrew que o

homem já sabe desaparecer e não está interessado em obter algo para

repassar.

— Quero a mão.

— Você já tem uma Mão da Glória. Que inferno, eu soube que você

tinha três delas.

— Nenhuma como aquela. A minha abre cadeados, acende e apaga

luzes. Muito útil, não me entenda mal. Mas você sabe o que aquela mão russa faz, não?

— Faz corações pararem de bater.

— Funciona, não funciona?

— Sim.

— Como você sabe?

— Sabendo.

— Provavelmente você derrubou um esquilo de uma árvore com ela.

Mas nunca tentou em uma pessoa, porque você não é assim. Já eu, eu

sou assim. É por isso que me procurou.

Andrew assente. Claro que Haint já tinha ouvido falar da Mão da

Glória letal de Baba: Haint é um colecionador de assassinatos, um

homem que reuniu um arsenal de artefatos que tiram a vida. Dizem que

tem uma faca turca que, quando usada em um pedaço de pele de

carneiro, corta ou fura o que o usuário quiser cortar ou furar, mesmo do

outro lado do oceano, desde que ele tenha visto o alvo e consiga

imaginá-lo com clareza. Anos atrás, Haint levava uma câmera Polaroid

pendurada no pescoço para o caso de querer captar uma imagem.

Agora, Steve Jobs o armou com um smartphone.

Se você tiver uma conta no Facebook ou se sua imagem puder ser

procurada no Google, dizem que esse homem pode cortar sua garganta

por mais distante que você more do apartamento dele, na Frenchman

Street. Ou na Carondelet. Ou onde quer que Haint esteja na semana —

também dizem que o apartamento de Haint é, na verdade, um saco preto

de lixo que ele pode jogar pela janela de qualquer lugar abandonado e

sair em questão de minutos.

Ele recebeu o e-mail de Andrew com o endereço de usuário

hoodoohowdoyoudo@gmail.com. Até o ano 2000, quando finalmente

passou a usar o computador, Haint costumava enviar cartas a uma caixa

postal com o nome de Sam E. DiBaron. Era a mesma caixa postal que

usava para organizar matanças, mas nunca por dinheiro.

Sempre por coisas.

Nunca por coisas que ele queria tanto quanto a Mão da Glória de

Baba Yaga.

— Você pode fazer isso?

— Se eu não puder, você também não pode.

— Isso não é uma resposta.

— Não. Porque não tenho uma. Não sei se ela pode morrer: se não

puder, não sei se consigo me esconder dela.

— Eu consegui.

— Eu sei. É o único motivo que me leva a considerar o assassinato

dessa merda. Como está o boudin?

Andrew assente, de maneira apreciável.

— Eles nunca incluem no cardápio, porque não conseguem vender

antes que azede. Só em dias especiais, às vezes. Normalmente, você não

pede boudin no restaurante... o que costuma querer é boudin no posto de

gasolina, um boudin que a mãe de alguém fez em uma tenda ao ar livre

em Grosse Tête ou Scott ou na Breaux Bridge, se você tolerar os

babacas de lá. Mas não é ruim. Eles sabem o que estão fazendo. Tem um

cozinheiro branco de dreddy que toca violino pra caramba também. Vou

ouvi-lo tocar hoje à noite. Quer ir?

— Muito. Valeu.

Haint bebe a cerveja e usa um fósforo pequeno para reacender o toco

de charuto que colocou em cima da tampa da garrafa. Na terceira

baforada, uma mulher na mesa à direita tosse com delicadeza, atrás de

uma mão pequena. No mesmo momento, o homem de camisa polo de

costas para eles se vira, lançando um olhar de reprovação.

Provavelmente foi esse palhaço que colocou as músicas de Jack

Johnson no jukebox da internet.

Haint bate discretamente na mesa com os nós dos dedos e um alarme

de carro começa a tocar na Decatur Street. O homem olha para baixo e

se desculpa para sair, mexendo nas chaves. Quando passa pela porta,

Haint rapidamente pega o fósforo entre os dois dedos, com o polegar, e o

homem tropeça, tentando impedir a queda com a mão. Seu pulso fratura

com um barulho alto e ele grita. A mulher se levanta, esquecendo que

não gosta de fumaça de charuto e que há ali homens negros sem camisa.

A garçonete corre para ajudar, limpando as mãos no avental.

O cara de barba espia pela porta da cozinha e um adolescente começa

a filmar o incidente com o telefone, ignorando as reprimendas da mãe. O

jukebox engasga, abortando a canção que estava em andamento e

começando a tocar “They Can’t Take That Away From Me”, na voz de

Billie Holiday.

Haint mantém contato visual com Andrew durante todo o tempo,

fumando o charuto. Brincos que não combinam brilham nas orelhas do

homem vodu.

— Talvez você possa.

— Talvez eu possa — concorda o homem, com os olhos brilhando.