Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Christopher Buehlman · Capítulo 44 de 134

Páginas do PDF

Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Capítulo 45

 

 

Isto é o que Andrew faz em uma reunião do AA.

Ele cumprimenta o diretor Bob quando entra, comentando mais uma

vez como Bob está feliz. Como está maldita e inegavelmente feliz. O

homem foi preso quatro vezes por dirigir embriagado e por homicídio

culposo, foi solto, perdeu dois casamentos, um barco e uma carreira

como capitão de navio. Agora trabalha no brechó da igreja, não tem

onde cair morto, mas ainda assim...

— Andrew! Não vemos você há uma ou duas semana. Sentimos sua

falta!

— Devo ter sentido que você sentia a minha falta, Bob! Aqui estou.

Bob dá um abraço como se Andrew fosse seu irmão: não há falsidade

alguma no gesto.

Bem diferente do abraço do próprio irmão de Andrew, apesar de isso

não acontecer há um bom tempo.

Talvez quinze anos, desde que Charles deu a Andrew algo além do

aperto de mão de praxe.

Bob está sóbrio há quinze anos, um senhor de respeito.

Bob não tem nada em comum com Charles.

Bob escolheu o Jesus-de-sandálias-e-burrinho, sabe que o Jesus-que-

traz-grana, de Charles, é outra coisa.

Os olhos de Bob brilham como se ele tivesse descoberto que Deus é

seu Papai Noel e como se soubesse que você entenderá que Ele também

é o seu, mas no tempo certo. Antes, Andrew se sentia dividido, porque

era inspirado por Bob e ficava profundamente ofendido com isso: afinal,

como um cara velho que não é muito bonito, que não é capaz de fazer

um feitiço, que não consegue pagar uma porra de refeição em um

restaurante e que não transa desde a queda do Muro de Berlim é feliz

daquele jeito? É meio como ser iluminado, mas Bob nunca vai aprender um feitiço num livro e nunca fará as coisas acontecerem no planeta.

Toda a magia acontece na mente de Bob, que parou de tentar mudar o

mundo e só mudou o modo como olha para ele.

É sabedoria, se você conseguir lidar direitinho com ela.

Por que construir uma casa grande, se você está feliz em um barraco?

Por que desejar um carrão novo quando a manivela manual para abrir

o vidro ainda funciona tão bem e Chancho conserta sua lata-velha

cobrando tão pouco?

Se alguém cagasse no bolso da camisa de Bob, talvez ele corresse

para espalhar a merda em seu pomar de mirtilos.

Entre a introdução ao lado hostil da magia e a morte iminente do pai,

Anneke precisa de Bob.

Como está sendo perseguido pela velha megera russa que o prendeu e

torturou vinte e nove anos atrás, Andrew também precisa de Bob.

Bob não sabe ao certo o que há de errado na vida desses dois, eles

não compartilharam o que estão sentido esta noite, mas está feliz por

terem vindo. Lê algo do Livro Grande e então fala sobre perdão.

Andrew tem dificuldade para se concentrar na mensagem.

Ele não está pensando em perdão.

Está pensando em defesa pessoal.

Está pensando em vingança.