Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Christopher Buehlman · Capítulo 83 de 134

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Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Capítulo 84

 

É fácil passar batido pela entrada da caverna, localizada entre duas

rochas grandes, quase escondida por galhos de bordo. Três da tarde.

Andrew quer ter certeza de que terá luz do dia suficiente para aquilo:

visitar Ichabod está entre as coisas mais assustadoras que ele faz.

Lança um pequeno feitiço de luz, faz surgir uma esfera âmbar do

tamanho de uma bola de gude duas vezes mais clara que uma vela e

manda para a caverna à sua frente. Como Ichabod poderia apagá-la se

quisesse, Andrew traz um reforço — uma lanterna resistente que

também pode ser usada como instrumento cortante.

Não que bater em Ichabod fosse eficaz, inteligente ou útil.

Apesar dos recentes problemas, Andrew tem certeza de que ele ainda

deve ser obediente desde que a ordem seja simples e faça sentido.

— Ichabod.

Sua voz ecoa baixinho.

A caverna não é enorme, é do tamanho de um refeitório de uma

escola pequena, mas sua escuridão a torna vasta. Andrew olha para

cima, vê um monte de morcegos pendurados.

— Aqui, senhor. — Uma voz parecida com a de um adolescente

entediado é ouvida.

Um movimento à sua direita.

Deve ser uns dos manequins da coisa.

Ele gosta do peso de um corpo, move-se com manequins.

— Você queria me ver? — pergunta Andrew.

Acordar e ver

 

VENHA PARA A CAVERNA, POR FAVOR!

 

escrito com rolhas de vinho no teto foi desconcertante.

As rolhas tinham caído assim que a mensagem foi lida.

Mas não sobre Andrew: isso teria sido grosseiro.

Ele não faz ideia de onde a coisa pegou as rolhas.

Não quero ir para a caverna.

Ele pensou em invocar Ichabod em casa, mas teme dar ordens agora,

por não saber o controle que ainda tem sobre ele.

Vou à caverna.

 

— Queria ver você, com certeza — diz ele.

Um manequim feminino entra no círculo de luz, com uma echarpe de

penas em volta do pescoço, os olhos pintados olhando sem ver.

— Esta pode ser a última vez antes de você morrer. Na verdade,

tenho certeza de que será, a menos que aceite minha oferta. Venha e

sente-se.

— Prefiro ficar de pé.

— Se insiste. Mas eu me sinto um péssimo anfitrião. Não quer

entrar?

— Já está bom aqui, obrigado. Gosto de poder ver a entrada.

A entidade agora usa um sotaque do Sul dos Estados Unidos.

— Não consegui deixá-lo à vontade. Já não vejo mais razão para

viver.

O manequim leva o punho à cabeça.

E cai amontoado.

Ele escuta passos.

Outro manequim aparece, dessa vez um masculino, usando apenas

roupa íntima, bem à vontade naquela roupa íntima estranhamente sem o

sexo do manequim. Carrega uma cadeira, que coloca no chão, antes de

fazer um gesto, apontando.

Andrew suspira.

Ele se senta.

Agora, o manequim fica atrás do mago, pega e leva a cadeira ocupada

para frente, sem qualquer esforço.

A bolinha de gude que lança luz acompanha Andrew.

Uma mesa aparece, uma mesa dobrável e simples.

Manequins e bonecos, femininos e masculinos, de diversos tipos e

cores, se sentam ao redor da mesa, como se estivessem em uma reunião.

Copos e garrafas de plástico estão por toda parte da mesa,

completamente vazios com exceção de uma abelha, uma vespa ou um

inseto morto dentro.

O manequim que carrega Andrew pousa a cadeira no chão.

Cai amontado.

Agora, o boneco bem à frente de Andrew, um boneco de testes cor de

carne, sem traços definidos e com rodinhas pretas e amarelas dos dois

lados da cabeça, ganha vida e se inclina para a frente, apoiando os

cotovelos na mesa, segurando o queixo nas mãos.

A voz de um britânico velho é ouvida.

— Quer beber?

— Ichabod, por favor, diga logo o que quer.

— Quero ser um bom anfitrião, senhor. Por favor, me permita essa

honra.

Agora, o boneco deita o rosto na mesa, como se tivesse adormecido

enquanto estudava.

Outro manequim, esse masculino e meio parecido com um asiático,

acorda na cadeira, pega uma garrafa e um cálice da escuridão a seus pés

e coloca na mesa. O cálice e a garrafa deslizam para a frente. A lanterna

de Andrew sai do bolso, acende-se, ilumina o rótulo da garrafa.

— Croata — diz a voz britânica —, muito robusto, sedimento no

fundo como as pedras na víscera de um anjo.

— Tenho certeza de que é delicioso.

O lacre prateado sai como se tivesse sido cortado por uma faca

invisível e então, emitindo um som, a rolha salta do gargalo da garrafa.

— Ichabod, não posso mesmo.

A garrafa fica suspensa, derramando líquido no cálice de vinho diante

de Andrew. O cálice se move na mesa como se um sommelier experiente

estivesse mexendo.

O cálice se aproxima.

Tem cheiro de sexo, tinta e luz da lua. Tem cheiro do pós vida de

uvas sagradas, as melhores uvas.

— Não.

Com essa recusa, os insetos nas diversas garrafas se debatem e

zunem, uma mariposa preta presa em resíduo de xarope sem conseguir

fazer nada além de tremer pateticamente.

Eles param.

— Nova etiqueta mundial — diz a voz britânica.

A garrafa e a o copo escorregam para um lado.

O manequim asiático cai.

O boneco de testes se senta, aponta para Andrew.

— Você.

— Eu?

— Sim.

— Eu o quê?

— Precisa.

— Preciso que você pare de enrolar.

— É uma ordem, pai?

— Não. Mas é. Diga o que pretendia ao me trazer à sua caverna.

— De mim. Você precisa de mim.

— Continue.

— Para ajudar você.

Andrew ergue as sobrancelhas ao ouvir aquilo.

— Com ela — diz a entidade.

Andrew estreita os olhos.

— Ela. Sim. Mas quem é ela?

— Uma velha amiga.

— Que idade?

Agora, o boneco de testes se encolhe.

Outro boneco, um manequim feminino com um sutiã meia-taça

enorme e óculos presos na cabeça com um prego entre os olhos, levanta-

se e se aproxima de um projetor antigo. E liga. O ventilador do lado de dentro do projetor entra em funcionamento. Uma imagem ilumina a

parede da caverna.

Uma mulher bonita com uma pintinha.

Atravessando o aeroporto.

Marina.

O coração de Andrew bate apressado.

— Filha dela?

A máquina para de funcionar.

— Ela chegou com o nome de Marina Yaganishna. Acho que esse

nome o assusta.

— Ela me ajudou contra a mãe dela.

— Desta vez, ela não está aqui para ajudar.

— A rusalka matou seu meio-irmão. Foi por isso?

— Você não tem tempo para se preocupar com o motivo.

Andrew inspira e expira, acalmando-se.

— Diga o que quer.

— O que você desejaria no meu lugar?

Andrew olha ao redor.

— Isolamento.

Todos os manequins se levantam de uma vez.

Isso assusta o mago.

Eles apontam para ele.

Um coro de vozes, homens, mulheres e crianças:

— Pare de enrolar.

E então todos caem, como se estivessem mortos.

A luz de Andrew se apaga.

Está escuro.

O projetor é ligado de novo — a imagem na parede da caverna muda

de Marina Yaganishna para um demônio. Andrew o reconhece como o

tolo demônio preto e branco nos trilhos do trem do filme de 1957, A

Noite do Demônio. Não parece tão tolo em uma caverna escura cheia de

manequins animados.

— Pare de tentar me assustar. Você não é um demônio.

A imagem paralisada na parede se move, torna-se a cena do filme. A

criatura solta fumaça e caminha para a frente quando o som de um trem

é ouvido.

— Tentar? Você acha que eu não sei que seu coração está batendo

bem depressa? Diga o que pediria no meu lugar.

Andrew abre a boca.

E volta a fechá-la.

Vê a própria imagem dentro do filme.

Ele é o homem gordinho com a barba, que corre nos trilhos do trem,

tentando chegar ao pedaço de papel soprado à frente pelo vento, antes

que se queime e passe a ser nada.

Ele olha para as mãos, para o terno.

Preto e branco.

O demônio está vindo.

Um trem vem da outra direção.

O papel voa.

Ele sai para pegá-lo, a luz do trem em seu rosto.

No filme, o homem estava atrasado demais, mas Andrew-como-o-

homem pega o papel.

Abre.

Uma palavra datilografada.

Ele volta a se ver sentado na cadeira, apenas assistindo ao filme.

Ele diz a palavra liberdade conforme o trem atropela o gordo e seu

apito é ouvido.

O projetor se desliga.

Totalmente escuro.

Exceto pela lanterna na mesa, o restrito facho de luz iluminando

apenas a mesa e o boneco de testes.

A voz de Ichabod — agora a voz do pai de Andrew — fala, de

nenhum lugar em especial:

— Se você prometer me libertar quando acabar, vou ajudá-lo contra

ela.

— Eu adoraria libertar você. Mas não quero ver você por aí fora de

controle. Afinal, você desejaria isso? Se fosse eu?

Ele pensa.

— Sim — responde. Agora usa a voz de Andrew. — Mas eu conheço

minhas motivações. São muito melhores do que você pode imaginar.

Você não tem ideia do quanto protejo você.

— Contra o quê?

— Contra si mesmo.

A água pinga.

— Explique.

A água pinga.

— Ichabod.

— Sim, sim. Estou apenas pensando nas consequências das minhas

palavras. Algo que deveríamos fazer com mais frequência, não

concorda?

Pinga.

Agora, o boneco de testes acorda, se inclina para a frente, iluminado

pela lanterna, como se passando por um interrogatório de baixa

tecnologia.

— Você sabe por que me conjurou?

Pinga.

— Sim, foi um exercício acadêmico. Eu fiz isso... só para ver se

poderia.

Pinga.

Pinga.

— Sabe o que eu teria feito se isso fosse verdade? Se você tivesse me

chamado para algo tão mesquinho e egoísta quanto um teste de poder?

Não, Andrew. Os encarnados chamam os da minha espécie por

pouquíssimos motivos. Todos esses motivos não passam de

subcategorias de duas motivações. Amor extremo ou ódio extremo. Qual

você acha que era o seu caso?

Algo muito desagradável acontece no subconsciente de Andrew.

Sarah.

A entidade continua.

— O que aconteceu depois de você bater o carro?

Ele se concentra.

Nada vem.

— Eu estava bebendo muito naquela época.

— Imagino.

— Tenho buracos na minha memória. Como um queijo suíço.

— Você se machucou. Bastante. Lembra-se de ter usado o gesso? De

ter invocado alguma bruxa-enfermeira mágica para tricotar seus ossos?

Fisioterapia convencional teria sido inesquecível, pelo que entendo

dessas coisas. Onde Sarah estava naquela noite?

— Ela estava...

Nada vem.

— Estava... em casa?

— Isso foi uma pergunta, não uma resposta.

Pinga.

O algo desagradável na mente de Andrew chuta como um bebê, se

remexe. Ele respira forte e o coração acelera.

Quero você na biblioteca esta noite.

Quero que me coma naquela cadeira de couro.

— Acho que sei onde você quer chegar com isso, e ela morreu

depois. Morreu de aneurisma.

— Sim — diz Ichabod. — Mas não era assim que ela tinha que

morrer.

— Cale a boca — diz Andrew.

— Não podemos deter a morte. Apenas atrasá-la.

— Cale essa BOCA.

— É uma ordem, senhor?

— Sim — diz Andrew.

Quase não dá para ouvir.

— Protocolo, senhor.

— Eu, Andrew... eu...

— Sim. Bem, enquanto você se recompõe, quero mostrar algo.

Depois disso, você não estará em condições de negociar. Por favor,

compreenda que, a menos que concorde em me libertar, você não tem

qualquer chance contra a criatura conhecida como Baba Yaga.

Andrew pega um frasco de rivotril no bolso.

Engole um comprimido.

— Ataque de pânico? Sim, estresse extremo e culpa podem ser a

causa. Coisas horrorosas. Não é o tipo de amparo que um guerreiro

precisa quando está prestes a lutar.

— Por favor, Ichabod.

— Concorde em me libertar e mostrarei algo que você não quer ver.

— Por favor.

— Ah, outra coisa. Os riscos são mais altos do que você pode

imaginar. Você sabe onde ela mora agora, certo? Uma zona de exclusão

abrangente é perfeita para quem busca solidão, ausência de leis e uma

lealdade feudal de pessoas simples e supersticiosas que vivem da terra.

E ainda assim, o tédio, como você bem sabe, é um companheiro

constante daqueles que dominaram a maior parte da pequena pirâmide

de Maslow. Talvez ela deseje ver se pode recriar sua condição deserta

ali.

A planta nuclear?

— Ela não causou o derretimento do reator número quatro na planta

de Tchernóbil, claro: aquela coisa é estranhamente sentimental em

relação aos eslavos. Mas garanto a você que ela não tem reservas desse

tipo em relação aos Estados Unidos.

— Você está inventando isso.

— Acho que não dá para saber se estou ou não. Mas está na hora de

você se lembrar de algo que o fiz esquecer.