Bem-Vindo à Casa dos Espíritos
Capítulo 67
Andrew vai com Salvador à oficina North Star, onde o carro de Radha
espera para ser levado para o norte de Chicago. Salvador vai dirigi-lo
por um dia, sem precisar descansar nem dormir, parecendo a todos,
menos aos muito iluminados, um jovem latino bonito. E, como os muito
iluminados estão acostumados a ver coisas estranhas, não acharão aquilo
estranho quando virem um retrato de Salvador Dalí apoiado na janela de
um Mini Cooper, conferindo o ponto cego duas vezes enquanto muda de
pista. Ele vai voltar pelo chuveiro de Radha, talvez a tempo do almoço
de amanhã.
Chancho mostra a Andrew o toque final. Assentos com pele de zebra.
Tinha visto no Facebook um post dela elogiando travesseiros de pele,
dizendo adorar pele de zebra em especial.
Ela vai pirar.
Chancho parece pálido, distraído.
— Você ainda está pensando nos russos, Chancho?
— Neles? Não. Um era um maricas, o outro não se importava. Não o
suficiente para encrencar com a gente. Aqueles dois não vão voltar.
Mas Andrew está pensando nos russos. Acha que pode ser prudente
comprar um pingente que desvia balas, uma peça de bruxaria feita com
Kevlar, aço, prata, sangue de tatu e o dente de alguém que morreu de
causas naturais. Só que o cara que faz isso mora no Rio de Janeiro e não
se importa com fitas de mortos ou carros.
O que o brasileiro quer é uma capa de penas que o transforme em
uma águia. Andrew poderia fazer uma capa assim, mas demoraria
semanas, talvez meses. Pássaros são difíceis, e não é especialidade dele.
O usuário no Brasil não conhece Andrew e tem fama de ser meio fresco
— QPQ. Quid pro quo. Reputação é tudo entre usuários, por isso eles costumam confiar uns nos outros. Não o cara da bala. QPQ. Ele quer
receber no ato da entrega. E Andrew quer o pingente de proteção.
A melhor transformadora, aquela que ensinou Andrew, vive perto de
Québec e poderia fazer a capa de águia em dias. Provavelmente já deve
ter uma ou duas sobrando, para negociar. Ele não sabe o que ela poderia
querer além de uma poção de juventude forte, produto com alta,
altíssima procura. Ela já pediu feitiços de pedras. Nesse caso, ele
procuraria Michael Rudnick, que vai ficar com Anneke até a lua cheia.
Por sorte, a québécoise confia em outros usuários, conhece Andrew e
estaria disposta a esperar. Por azar, ela é velha, muito velha, e não usa
internet. Acha que é algo do mal. Então, Andrew terá que telefonar para
ela de um telefone fixo. De novo. Ela não atendeu na noite passada, mas
isso é comum: ela muda e passa dias como um animal. Todo mundo
sabe que ela está perto de abandonar tudo de vez, transformando-se em
um gafanhoto para passar os últimos anos na Terra voando e rastejando
de quatro.
Há um homem na cidade que entende de pássaros e transformação,
mas que também é velho.
E já ajudou Andrew antes.
O tipo de ajuda impagável e sem possibilidade de novos favores.
De volta a Chancho e seu rosto pálido.
— O que foi?
— Vi um negócio esquisito hoje.
— Você já viu muita coisa esquisita.
— Não como essa.
— Não como o quê?
— Quer ver?
— Não. Sim.
Eles entram na sala de funcionários. Uma AK-47 está no canto,
parecendo despreocupada.
— A polícia do estado deixou aí para eu limpar. Levaram o muerto,
deixaram o cervo. Bem difícil. Veja esse carajo de cervo.
Primeiro, Andrew olha para o carro.
O monte de resto de um carro.
Agora, olha para o animal tampando a abertura onde o para-brisa
deveria estar.
É um baita problema de um carajo de cervo.
Cento e dez quilos ou mais. Quinze pontos ou mais na parede, se o
troféu estivesse intacto. Mas não está. Está atravessado no para-brisa do
Saturn, que também bateu em uma árvore. O cervo está praticamente
fundido no carro.
— Dá pra ver onde eles tiveram que cortar o coitado desse lado,
cortar parte dos chifres do cervo também, onde atravessaram o cara.
Atravessaram tudo. Veja esse assento.
Andrew controla o reflexo de vomitar.
— Mas eu não entendo...
Agora, ele aponta para um buraco no ombro do cervo, outro atrás do
pescoço.
— Balas. O cara atirou nesse cervo. Provavelmente pelo vidro, mas o
vidro foi levado. Levaram também a arma, que ele estava segurando.
Pediram alicates para tirar o corpo, de tão preso nas ferragens que
estava.
Andrew tenta processar as informações.
— Sim, eu sei. Complicado. Mas veja isso...
O dedo engraxado e forte do mexicano indica uma lanterna quebrada,
sangue, pelugem.
— E isso.
Pegadas cheias de lama no telhado, marcas no chão.
— Mais de um cervo, digo eu.
— Sim, e esse estrago na frente foi feito pela árvore, não pelo cervo.
Não por esse cervo.
— Ele não acertou esse cervo?
— Não. Ele acertou outro. Bateu o carro. Quando o cervo veio...
talvez mais de um. Veja... marca de pata, marca de pata. Saindo da mata
e indo ao carro, ao que parece. Foi quando o grandão veio como um tiro
de canhão, passou pelo para-brisa tão depressa que quebrou e enfiou os chifres no coração do cara. Apesar de ele ter atirado, e atirado direito.
Dá só uma olhada.
Ele aponta de novo para as feridas letais a bala.
— Isso é coisa de brujo, não?
Andrew toca o carro.
— Não é?
O mago assente.
Coisa de brujo é a primeira ordem.
Mágica na floresta eslava.
E muito, muito forte.
E então, acontece.
Um jovem aparece, pálido, atingido pelo cervo, remexendo-se no
assento. Usa óculos de aviador. O sangue sai de sua boca, faz bolhas
sempre que ele diz a palavra por favor. Algo que diz muitas vezes.
Chancho não consegue ver, ainda está examinando o telhado e as
marcas de chifre no acabamento do Saturn, como hieróglifos malfeitos
que pudessem explicar como coisas assim aconteciam no mundo.
O fantasma começa a inchar.
Vá devagar, Andrew pensa. Estou vendo você.
ENTÃO, ME AJUDE
O jovem pálido coloca a arma na boca, puxa o gatilho de modo
impotente, cospe sangue em cima da arma e chora.
Me ajude
Como?
A coisa estremece. Aponta a arma para Andrew. A mão tem um
espasmo ao puxar o gatilho. Nada acontece, embora acerte Andrew
várias vezes, depois Chancho, depois a si mesmo.
Pegue eles.
Quem?
Eles, responde.
O espírito fica frustrado por Andrew não entender, começa a ficar
cansado. Fantasmas novos ficam cansados com facilidade.
Vomita líquido preto em si mesmo e desaparece.
O cervo morto se remexe e chuta.
Chancho se sobressalta, se benze.
O cervo se encolhe um pouco, permanece deitado, bem parado, não
se mexe.
Andrew esfrega as têmporas.
— Dor de cabeça?
Ele sorri, balança a cabeça, fecha os olhos.
— Estou com um problema, Chancho. Um problemão.
O mexicano assente.
— Eu disse a você para não causar mais problema. Cabrón!
Chancho bate o punho na coxa, olha com raiva para Andrew.
— É coisa antiga, Chancho. De antes de a gente se conhecer.
— Sim, mas você continua envolvido. Não está vendo? É por isso
que eles ainda podem chegar até você. Saia disso.
— Não é assim.
Chancho ergue os braços.
— Não, é assim — responde ele, indicando a batida, o cervo
inesperado, o assento cheio de sangue.
Andrew assente.
— Vou ficar longe de você até acabar. Depois, vou te ajudar a limpar
isso. Não é bagunça sua.
— Não, vá para casa. Você só vai atrapalhar. E não desapareça
depois. Pare com os livros e com as malditas brujerías.
Andrew ri um pouco, ainda esfregando as têmporas.
Olha para Chancho.
— Percebi que você xinga em espanhol, mas não em inglês. Por quê?
Chancho para.
— Porque sou americano agora. Os palavrões em espanhol estão no
meu sangue. Não consigo controlar. Mas preciso começar de novo com
os americanos.
— Ah — diz o mago, claramente sem se convencer.
O homenzarrão se aproxima, envolve Andrew com um braço forte.
— Vou pedir para os garotos ficarem por perto — comenta Chancho.
— Vou rezar também. Fazer um Jesus descer.
Se fosse possível.
Andrew não sabe se existiu um Jesus e, caso sim, se era Deus ou
homem.
Se fosse um homem, deve ter sido um usuário.
Transformar água em vinho parece.
Bom.
Pra cacete.