Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Christopher Buehlman · Capítulo 11 de 134

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Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Capítulo 10

 

 

Anneke se apoia no carro ao lado de Andrew e quase encosta seu quadril

no dele.

— Então, se eu ficar boa nessa coisa...

— Sim.

— Se eu me tornar uma iluminada, como você diz...

— Você é iluminada.

— Mas se me desenvolver.

— Sim.

Eles estão próximos o bastante para se beijar e provavelmente se

beijariam — o clima entre os dois é forte —, se já não tivessem

explorado aquele beco sem saída. As estrelas continuam cantando,

baixinho, estraçalhando corações.

O motor 302 inteiro esfria e se prende sob o capô do Mustang.

— Também vou atrair alguma coisa estranha?

Um vento frio silencia as árvores.

Andrew volta os olhos amendoados para cima e observa o

firmamento. Como se dissesse veja por onde corre o sangue de Cristo.

Como em A Trágica História do Dr. Fausto, de um tal de Christopher

Marlowe.

Que também brincou com.

Fogo.

Atraiu coisa estranha.

A faca de um assassino em seu cérebro insubstituível.

Um satélite passa, um grão claro de pó de pirlimpimpim, uma

segunda mão substituindo a mão rápida de um avião distante e mais

abaixo. As maravilhas que uma pessoa vê pelo preço de um inclinar de

cabeça, um segundo de humildade e presença.

— A entidade veio porque eu a invoquei usando um livro de feitiço

muito perigoso, que me alertaram para não usar.

Puxa! Isso é o inferno, mas não estou fora dele.

— Mas você atraiu outras coisas. Salvador, por exemplo.

— Eu criei Salvador.

— Eu sei. Mas tem aquela moça lá. Do lago. A sereia morta.

— Ela não é exatamente uma sereia.

— Você disse que ela tem cauda.

— Na água.

— Não é uma sereia?

— Não a do tipo que você está pensando.

— Mas ela morreu.

— Ela morreu.

— Só que não de verdade.

— Ela voltou com uma cauda.

— Já vi ela aqui, sabe.

— Tem certeza?

— Se tenho certeza? Ela cheira a boceta de peixe.

— A gente se acostuma.

Anneke ergue uma sobrancelha para ele como quem diz É mesmo?

Então você está fodendo ela?, e ele fecha os lábios e pisca os olhos duas

vezes, respondendo E se eu estiver, minha sáfica incomparável?

— Eu avisei a ela para não perturbar você.

— Bem, avise de novo. Eu vi aqueles olhos de fuinha nas árvores

mais de uma vez e ela deixa aquele cheiro horroroso. Ela me assusta de

verdade. Qual é a palavra, mesmo? Para o que ela é.

— Rusalka.

— É melhor que ela não esteja bisbilhotando aqui tentando causar um

acesso de ciúme em mim ou algo do tipo. Porque (a) não tem nenhum

motivo para sentir ciúme...

— Bem, nenhum motivo já é motivo demais.

— Nenhum motivo para sentir ciúme e (2)...

— (b).

— Certo, (b) não estou aqui para brincadeira.

— O que isso quer dizer?

— Vamos esperar que roosalsa não descubra.

— Rusalka. Como em “uma rusalka”. Plural: rusalki. E o nome dela

é Nadia.

— Que bonitinho. Eu costumava dar nomes a meus peixes também.

— Faça-me um favor e nunca a contrarie. Ou a ameace.

— O que devo fazer se ela estiver andando pelo meu quintal?

— Apenas... Bem...

— Conversar com ela, sei.

— Só não se aproxime da água se ela estiver por perto. Não deixe que

ela convença você a chegar perto da água. Se ficar com medo, ligue a

calefação. Ela odeia calor.

Com uma cara séria, Andrew encara Anneke, que pergunta:

— Ela é perigosa?

Andrew não responde.