Bem-Vindo à Casa dos Espíritos
Capítulo 10
Anneke se apoia no carro ao lado de Andrew e quase encosta seu quadril
no dele.
— Então, se eu ficar boa nessa coisa...
— Sim.
— Se eu me tornar uma iluminada, como você diz...
— Você é iluminada.
— Mas se me desenvolver.
— Sim.
Eles estão próximos o bastante para se beijar e provavelmente se
beijariam — o clima entre os dois é forte —, se já não tivessem
explorado aquele beco sem saída. As estrelas continuam cantando,
baixinho, estraçalhando corações.
O motor 302 inteiro esfria e se prende sob o capô do Mustang.
— Também vou atrair alguma coisa estranha?
Um vento frio silencia as árvores.
Andrew volta os olhos amendoados para cima e observa o
firmamento. Como se dissesse veja por onde corre o sangue de Cristo.
Como em A Trágica História do Dr. Fausto, de um tal de Christopher
Marlowe.
Que também brincou com.
Fogo.
Atraiu coisa estranha.
A faca de um assassino em seu cérebro insubstituível.
Um satélite passa, um grão claro de pó de pirlimpimpim, uma
segunda mão substituindo a mão rápida de um avião distante e mais
abaixo. As maravilhas que uma pessoa vê pelo preço de um inclinar de
cabeça, um segundo de humildade e presença.
— A entidade veio porque eu a invoquei usando um livro de feitiço
muito perigoso, que me alertaram para não usar.
Puxa! Isso é o inferno, mas não estou fora dele.
— Mas você atraiu outras coisas. Salvador, por exemplo.
— Eu criei Salvador.
— Eu sei. Mas tem aquela moça lá. Do lago. A sereia morta.
— Ela não é exatamente uma sereia.
— Você disse que ela tem cauda.
— Na água.
— Não é uma sereia?
— Não a do tipo que você está pensando.
— Mas ela morreu.
— Ela morreu.
— Só que não de verdade.
— Ela voltou com uma cauda.
— Já vi ela aqui, sabe.
— Tem certeza?
— Se tenho certeza? Ela cheira a boceta de peixe.
— A gente se acostuma.
Anneke ergue uma sobrancelha para ele como quem diz É mesmo?
Então você está fodendo ela?, e ele fecha os lábios e pisca os olhos duas
vezes, respondendo E se eu estiver, minha sáfica incomparável?
— Eu avisei a ela para não perturbar você.
— Bem, avise de novo. Eu vi aqueles olhos de fuinha nas árvores
mais de uma vez e ela deixa aquele cheiro horroroso. Ela me assusta de
verdade. Qual é a palavra, mesmo? Para o que ela é.
— Rusalka.
— É melhor que ela não esteja bisbilhotando aqui tentando causar um
acesso de ciúme em mim ou algo do tipo. Porque (a) não tem nenhum
motivo para sentir ciúme...
— Bem, nenhum motivo já é motivo demais.
— Nenhum motivo para sentir ciúme e (2)...
— (b).
— Certo, (b) não estou aqui para brincadeira.
— O que isso quer dizer?
— Vamos esperar que roosalsa não descubra.
— Rusalka. Como em “uma rusalka”. Plural: rusalki. E o nome dela
é Nadia.
— Que bonitinho. Eu costumava dar nomes a meus peixes também.
— Faça-me um favor e nunca a contrarie. Ou a ameace.
— O que devo fazer se ela estiver andando pelo meu quintal?
— Apenas... Bem...
— Conversar com ela, sei.
— Só não se aproxime da água se ela estiver por perto. Não deixe que
ela convença você a chegar perto da água. Se ficar com medo, ligue a
calefação. Ela odeia calor.
Com uma cara séria, Andrew encara Anneke, que pergunta:
— Ela é perigosa?
Andrew não responde.