Bem-Vindo à Casa dos Espíritos
Capítulo 40
Andrew escuta Anneke vomitando na pia e caminha até ela.
O cheiro de uísque, café e chocolate torna o ar irrespirável quando ele
entra no banheiro de hóspedes.
— Você foi ao Dino’s — diz ele.
Ela assente, inclinada, secando a boca.
— E ao Gulch.
Anneke assente de novo.
Olha para ele, com um brilho nos olhos, e Andrew não sabe se tem a
ver com vergonha ou por ter vomitado.
Ela percebe o barulho de um aspirador de pó.
— O passeio acabou.
A vergonha da recaída começa a tomar conta, mas ela varre o
sentimento para baixo do tapete.
— E a rusalka?
Anneke ficou fora por uma hora.
Nadia se entediou e saiu depois de dez minutos, mas Andrew só
ignora a pergunta.
— Você está bem?
— Não.
Melhor do que deveria estar porque ainda não caiu no fundo do
poço. Isso vai continuar acontecendo até você cair.
— Voltou a beber?
— Não.
Ele olha dentro dos olhos dela.
Os olhos dela dizem que sim.
Ela olha para trás, controlando a vontade de olhar para baixo.
A Anneke que Anneke quer ser não abaixa a cabeça.
— Bem, talvez o passeio não esteja totalmente terminado. Quero
mostrar um filme para você.
— Certo — diz ela. — Desde que não seja Papillon.
Eles descem a escada até a sala de vídeo.
Andrew acende as luzes, diminui a claridade, na verdade, usa o
interruptor da parede.
Vai ao baú de cedro com tranca. Dentro, há cerca de cinquenta fitas
em fileiras, em ordem alfabética, com faixas de fita crepe: as fitas da
esquerda são dos famosos — Muhammad ALI, Isaac ASIMOV, Sir Winston
CHURCHILL , Harry HOUDINI (sem som), John LENNON etc. As da direita,
em menor número, não seguem ordem alfabética e muitas não têm
indicação de sobrenome: Marisol, PAPAI, SARAH, tia Katie, Bill BARNETT.
Uma caixa à parte, trancada, está no fundo do baú.
— O que tem aí dentro? — pergunta Anneke.
— Você sempre quer o fruto proibido, não é?
— E você não?
— Sim. Acho que todos queremos. Todos queremos fazer isso. A
caixa tem fitas de pessoas mortas.
— Por que está trancada?
— As fitas são perigosas. Ainda podem lançar feitiços. Um deles não
está morto... deixou a fita como uma apólice de seguro. Mas você
precisa de um tipo diferente de feitiço, acredito.
Andrew pega a fita com a etiqueta de Bill WILSON, do canto esquerdo,
ao fundo.
— Isso não é... — diz ela.
— Sim.
Ela olha para a fita.
Balança a cabeça em negativa.
Andrew coloca a fita em cima do videocassete, diante da TV.
Abraça Anneke, que permite.
Os dois se acomodam no sofá de couro, o índice da intimidade se
movendo e se afastando de “amigos”, embora ainda não chegando a “amantes”. Andrew só abraça Anneke, faz cafuné em seus cabelos, até
que ela, enfim, concorda.
Ele então coloca a fita.
Bill fala.
— Cada membro do AA sabe que precisa se conformar com os
princípios da recuperação. A vida de vocês depende da obediência a
princípios espirituais...
— Ele consegue nos ouvir? — sussurra ela.
— Ainda não.
Andrew beija a cabeça da mulher, separa-se dela o suficiente para
manter o decoro, prepara-se para abrir o alçapão.
— ...Se ele for longe demais, o castigo será inevitável e rápido. Ele
adoecerá e acabará morrendo...
— Bill Wilson. É Andrew Blankenship.
Bill continua, distraído.
— ...Ele passa a entender que nenhum sacrifício pessoal é grande
demais para a preservação dessa parceria.
— Bill, está me ouvindo?
Aparentemente não.
— Ele aprende que o clamor dos desejos e as ambições pessoais
devem ser silenciados internamente sempre que possam prejudicar o
grupo.
— Bill Wilson.
Bill o ignora.
Andrew para a fita.
Volta.
Dá play.
A mesma coisa acontece, ou melhor, deixa de acontecer.
— Tem algo errado.
— Não brinca — comenta ela.
Ele passa a lenga-lenga de novo, avança um pouco.
— ...fica claro que o grupo deve sobreviver ou o indivíduo não
sobreviverá.
— Bill Wilson, olá.
Bill continua.
Mas algo muda.
Seu sotaque da Nova Inglaterra se torna eslavo.
— ...E, quando o indivíduo não sobrevive, opa, opa! É uma tragédia,
pequena no grande desenrolar do mundo, mas significativa para aqueles
que conhecem o membro e se importam com ele...
Andrew olha atordoado para a tela.
Ele percebe a magia.
Ela também.
— Puta merda — diz ele.
— O que está acontecendo?
Ele põe a mão no joelho dela, inclina-se para a frente, confuso e
assustado.
— ...e, se existe um Deus, talvez signifique muito para ele. Mas não
existe Deus nenhum.
Bill está irritado — sua cabeça vira e ele cospe faísca quando diz
Deus.
Andrew comenta:
— Não é a mesma fita. Ele não diz essas coisas.
Anneke sente a pele se arrepiar no lado esquerdo.
— ...Claro, um homem nunca diz que não existe Deus. Um homem
não diz que está negando Deus, se quiser colher os benefícios da
sociedade “civilizada”.
Bill levanta da mesa e se aproxima de uma janela com cortinas.
A câmera o acompanha.
— Ichabod? — pergunta Andrew. — Exijo que você pare de mexer
com essa fita.
Nada. Não é coisa de Ichabod. A entidade não deixa um tépido
formigamento de magia em uma sala: é um tipo de vazio morto e
comum.
Essa sala está formigando.
Na televisão, Bill pega a cordinha de regulagem das cortinas e se vira
para olhar para a câmera.
— Mas quando um homem sabe profundamente como a sociedade
pode não ser civilizada, como às vezes ela pode ser totalmente grosseira,
nós o perdoamos por se dizer ateu.
Bill puxa a cordinha.
O filme se remexe, sai do enquadramento, fica branco, volta.
Uma junção ruim.
Bill está de pé no mesmo ponto, mas as cores mudaram.
Luzes laranjas e vermelhas tingem tudo.
O som de aviões planando lá fora.
Bombardeiros?
Ajude-me, bombardeiro!
Do lado de fora, fogo.
Uma cidade em chamas.
Stalingrado?
A janela que Bill abre fica no terceiro ou quarto andar de um prédio
que balança, quando uma bomba explode perto.
Surge um coro de gritos.
— Ai, Deus — diz Anneke.
O filme estremece de novo.
As cores desbotadas do interior da fita original voltam.
A cortina foi fechada, ou nunca foi aberta, e Bill está sentado à sua
mesa outra vez.
Só o jarro de ferro escovado se foi.
Uma garrafa quase vazia de uma antiga vodca soviética entrou em
seu lugar, um Joseph Stálin bonito e moreno no rótulo: NENHUM PASSO
PARA TRÁS !
A gravata de Bill está solta e folgada, e os primeiros botões da camisa
estão abertos. Os cabelos estão despenteados. Ele está bêbado.
Os sons da guerra desapareceram.
Um músico sem talento toca um violino em outra sala.
— Está vendo para onde você me levou? — pergunta ele, em russo,
com sotaque ucraniano, olhando para Andrew.
— Pare — diz Andrew, apontando de modo autoritário para a
televisão.
— Pare! — diz Bill Wilson, embriagado, em inglês, imitando-o, rindo
e apontando.
Andrew aperta o botão de desligar no controle.
A televisão desliga.
E então volta a ligar.
Bill aponta para Andrew e diz, em russo:
— Você acha que escapou, não acha? Mas seu tempo acabou. Nós
sabemos onde você está. E estamos chegando.
As legendas aparecem em amarelo, sem dúvida para o bem de
Anneke.
— Você vai morrer, seu merdinha. Seu corno. Fraco. Pequeno. Bosta.
— Quem é você?
Bill W. sorri, mas não é um sorriso agradável.
A imagem congela.
A celuloide queima exatamente no lugar da boca, queima quase todo
o sorriso. Os olhos dele também queimam.
O violino para.
Agora, a tela da TV começa a esfumaçar no lugar da boca e dos olhos.
Anneke se levanta, coloca o sofá entre ela e a TV.
— Cristo! — grita Andrew.
A televisão pega fogo.