Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Christopher Buehlman · Capítulo 39 de 134

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Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Capítulo 40

 

Andrew escuta Anneke vomitando na pia e caminha até ela.

O cheiro de uísque, café e chocolate torna o ar irrespirável quando ele

entra no banheiro de hóspedes.

— Você foi ao Dino’s — diz ele.

Ela assente, inclinada, secando a boca.

— E ao Gulch.

Anneke assente de novo.

Olha para ele, com um brilho nos olhos, e Andrew não sabe se tem a

ver com vergonha ou por ter vomitado.

Ela percebe o barulho de um aspirador de pó.

— O passeio acabou.

A vergonha da recaída começa a tomar conta, mas ela varre o

sentimento para baixo do tapete.

— E a rusalka?

Anneke ficou fora por uma hora.

Nadia se entediou e saiu depois de dez minutos, mas Andrew só

ignora a pergunta.

— Você está bem?

— Não.

Melhor do que deveria estar porque ainda não caiu no fundo do

poço. Isso vai continuar acontecendo até você cair.

— Voltou a beber?

— Não.

Ele olha dentro dos olhos dela.

Os olhos dela dizem que sim.

Ela olha para trás, controlando a vontade de olhar para baixo.

A Anneke que Anneke quer ser não abaixa a cabeça.

— Bem, talvez o passeio não esteja totalmente terminado. Quero

mostrar um filme para você.

— Certo — diz ela. — Desde que não seja Papillon.

 

Eles descem a escada até a sala de vídeo.

Andrew acende as luzes, diminui a claridade, na verdade, usa o

interruptor da parede.

Vai ao baú de cedro com tranca. Dentro, há cerca de cinquenta fitas

em fileiras, em ordem alfabética, com faixas de fita crepe: as fitas da

esquerda são dos famosos — Muhammad ALI, Isaac ASIMOV, Sir Winston

CHURCHILL , Harry HOUDINI (sem som), John LENNON etc. As da direita,

em menor número, não seguem ordem alfabética e muitas não têm

indicação de sobrenome: Marisol, PAPAI, SARAH, tia Katie, Bill BARNETT.

Uma caixa à parte, trancada, está no fundo do baú.

— O que tem aí dentro? — pergunta Anneke.

— Você sempre quer o fruto proibido, não é?

— E você não?

— Sim. Acho que todos queremos. Todos queremos fazer isso. A

caixa tem fitas de pessoas mortas.

— Por que está trancada?

— As fitas são perigosas. Ainda podem lançar feitiços. Um deles não

está morto... deixou a fita como uma apólice de seguro. Mas você

precisa de um tipo diferente de feitiço, acredito.

Andrew pega a fita com a etiqueta de Bill WILSON, do canto esquerdo,

ao fundo.

— Isso não é... — diz ela.

— Sim.

Ela olha para a fita.

Balança a cabeça em negativa.

Andrew coloca a fita em cima do videocassete, diante da TV.

Abraça Anneke, que permite.

Os dois se acomodam no sofá de couro, o índice da intimidade se

movendo e se afastando de “amigos”, embora ainda não chegando a “amantes”. Andrew só abraça Anneke, faz cafuné em seus cabelos, até

que ela, enfim, concorda.

Ele então coloca a fita.

 

Bill fala.

— Cada membro do AA sabe que precisa se conformar com os

princípios da recuperação. A vida de vocês depende da obediência a

princípios espirituais...

— Ele consegue nos ouvir? — sussurra ela.

— Ainda não.

Andrew beija a cabeça da mulher, separa-se dela o suficiente para

manter o decoro, prepara-se para abrir o alçapão.

— ...Se ele for longe demais, o castigo será inevitável e rápido. Ele

adoecerá e acabará morrendo...

— Bill Wilson. É Andrew Blankenship.

Bill continua, distraído.

— ...Ele passa a entender que nenhum sacrifício pessoal é grande

demais para a preservação dessa parceria.

— Bill, está me ouvindo?

Aparentemente não.

— Ele aprende que o clamor dos desejos e as ambições pessoais

devem ser silenciados internamente sempre que possam prejudicar o

grupo.

— Bill Wilson.

Bill o ignora.

Andrew para a fita.

Volta.

Dá play.

A mesma coisa acontece, ou melhor, deixa de acontecer.

— Tem algo errado.

— Não brinca — comenta ela.

Ele passa a lenga-lenga de novo, avança um pouco.

— ...fica claro que o grupo deve sobreviver ou o indivíduo não

sobreviverá.

— Bill Wilson, olá.

Bill continua.

Mas algo muda.

Seu sotaque da Nova Inglaterra se torna eslavo.

— ...E, quando o indivíduo não sobrevive, opa, opa! É uma tragédia,

pequena no grande desenrolar do mundo, mas significativa para aqueles

que conhecem o membro e se importam com ele...

Andrew olha atordoado para a tela.

Ele percebe a magia.

Ela também.

— Puta merda — diz ele.

— O que está acontecendo?

Ele põe a mão no joelho dela, inclina-se para a frente, confuso e

assustado.

— ...e, se existe um Deus, talvez signifique muito para ele. Mas não

existe Deus nenhum.

Bill está irritado — sua cabeça vira e ele cospe faísca quando diz

Deus.

Andrew comenta:

— Não é a mesma fita. Ele não diz essas coisas.

Anneke sente a pele se arrepiar no lado esquerdo.

— ...Claro, um homem nunca diz que não existe Deus. Um homem

não diz que está negando Deus, se quiser colher os benefícios da

sociedade “civilizada”.

Bill levanta da mesa e se aproxima de uma janela com cortinas.

A câmera o acompanha.

— Ichabod? — pergunta Andrew. — Exijo que você pare de mexer

com essa fita.

Nada. Não é coisa de Ichabod. A entidade não deixa um tépido

formigamento de magia em uma sala: é um tipo de vazio morto e

comum.

Essa sala está formigando.

Na televisão, Bill pega a cordinha de regulagem das cortinas e se vira

para olhar para a câmera.

— Mas quando um homem sabe profundamente como a sociedade

pode não ser civilizada, como às vezes ela pode ser totalmente grosseira,

nós o perdoamos por se dizer ateu.

Bill puxa a cordinha.

O filme se remexe, sai do enquadramento, fica branco, volta.

Uma junção ruim.

Bill está de pé no mesmo ponto, mas as cores mudaram.

Luzes laranjas e vermelhas tingem tudo.

O som de aviões planando lá fora.

Bombardeiros?

Ajude-me, bombardeiro!

Do lado de fora, fogo.

Uma cidade em chamas.

Stalingrado?

A janela que Bill abre fica no terceiro ou quarto andar de um prédio

que balança, quando uma bomba explode perto.

Surge um coro de gritos.

— Ai, Deus — diz Anneke.

O filme estremece de novo.

As cores desbotadas do interior da fita original voltam.

A cortina foi fechada, ou nunca foi aberta, e Bill está sentado à sua

mesa outra vez.

Só o jarro de ferro escovado se foi.

Uma garrafa quase vazia de uma antiga vodca soviética entrou em

seu lugar, um Joseph Stálin bonito e moreno no rótulo: NENHUM PASSO

PARA TRÁS !

A gravata de Bill está solta e folgada, e os primeiros botões da camisa

estão abertos. Os cabelos estão despenteados. Ele está bêbado.

Os sons da guerra desapareceram.

Um músico sem talento toca um violino em outra sala.

— Está vendo para onde você me levou? — pergunta ele, em russo,

com sotaque ucraniano, olhando para Andrew.

— Pare — diz Andrew, apontando de modo autoritário para a

televisão.

— Pare! — diz Bill Wilson, embriagado, em inglês, imitando-o, rindo

e apontando.

Andrew aperta o botão de desligar no controle.

A televisão desliga.

E então volta a ligar.

Bill aponta para Andrew e diz, em russo:

— Você acha que escapou, não acha? Mas seu tempo acabou. Nós

sabemos onde você está. E estamos chegando.

As legendas aparecem em amarelo, sem dúvida para o bem de

Anneke.

— Você vai morrer, seu merdinha. Seu corno. Fraco. Pequeno. Bosta.

— Quem é você?

Bill W. sorri, mas não é um sorriso agradável.

A imagem congela.

A celuloide queima exatamente no lugar da boca, queima quase todo

o sorriso. Os olhos dele também queimam.

O violino para.

Agora, a tela da TV começa a esfumaçar no lugar da boca e dos olhos.

Anneke se levanta, coloca o sofá entre ela e a TV.

— Cristo! — grita Andrew.

A televisão pega fogo.