Bem-Vindo à Casa dos Espíritos
Capítulo 83
Anneke abre a porta de casa e entra. Tudo parece menor agora, desde
seu aprendizado na pedreira. Ela está cheia de combustível mágico,
sente que pode ver dentro de rochas, de canecas, até de metal. A volta
para casa foi difícil, pois tudo era motivo de distração e surpresa: casas
de tijolo à vista, montes rochosos, até mesmo uma grelha enferrujada ao
lado de um cartaz de GRÁTIS no acostamento. Sem querer, ela fez a grelha
saltar, derrubando o cartaz. Quase bateu o Subaru no poste de metal de
uma placa de LIMPA-NEVE. Então, por puro reflexo, lançou um segundo
feitiço — mudou a posição do poste com uma mágica tão violenta que
um PANG! metálico foi ouvido ao mesmo tempo em que um Pop! soou, e
a placa voltou ao lugar mais depressa do que a velocidade do som, e o
triângulo amarelo estremeceu do lado errado de uma cerca de um
agricultor.
Isso vai ser difícil de explicar.
Agora, o que andava distraindo Anneke pra valer era seu porão.
As coisas no porão, mais exatamente.
Coisas que nunca tinha mencionado a Andrew.
Ela entra em casa com essas coisas em mente, uma em especial, e
pensa nisso ao mexer na cadeira em que fuma, acendendo três Winstons
na sequência, o azul do lago quase invisível a seus olhos que não se
focam, o incenso Nag Champa envolvendo a pequena estátua de Andrew
em fumaça. Ela apaga o último cigarro no cinzeiro de ossos de camelo,
pega uma chavinha embaixo da estátua, levanta-se e abre o cadeado da
porta do porão.
Quase desce, mas não desce.
Deixa o cadeado aberto perto da porta.
Guarda a chave.
Abre sua garrafa de Maker’s Mark.
Caminha, remexendo-se.
Lembra-se das palavras de Michael.
Todos os novos usuários têm um acesso algum tempo depois de
liberarem seu poder. Pode demorar um dia, pode demorar três meses,
mas, em algum momento, ocorre. Pode durar uma hora, pode durar
uma semana. É como chacoalhar e abrir uma garrafa de refrigerante:
todo o potencial guardado se espalha. Isso é bem perigoso e, quando
ocorrer, você deve segurar a barra. Deixar passar. Assista à TV. Leia um
livro. Faça Sudoku. Mantenha a mente ocupada. Você ainda não sabe
controlar a magia e pode acabar fazendo algo ruim. Será tentador: você
vai demorar anos para ficar forte assim de novo. Tentar lançar feitiços
durante um acesso seria como tentar dirigir um carro aos cinco anos de
idade. Eu me sinto tentado a manter você aqui, mas não sei quando vai
acontecer. Além disso, você não deve ficar perto de estátuas grandes
como essas que tenho aqui: se animar uma enquanto eu não estiver
olhando, ela pode matar você ou decidir ir à cidade brincar de
Godzilla. E pode ser que você não consiga controlá-la.
Está acontecendo agora.
Ela está tendo um acesso.
Tirar a placa do limpa-neve do caminho foi só o começo.
Ela nem se cansou quando terminou.
Ela adora o barato duplo, do uísque e da magia.
Você deve segurar a barra.
Seu mentor disse isso e as instruções de um mentor eram lei.
Pelo menos de acordo com o próprio mentor.
Ele também disse mais uma coisa, mas ela não quer lembrar o que
foi.
Ela tenta, mas não consegue afastar esse pensamento com um gole da
bebida forte e amarga.
E, pelo amor de Deus, não beba.