Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Christopher Buehlman · Capítulo 120 de 134

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Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Capítulo 122

 

Precisamos voltar um pouco agora.

E voltar à casa de Anneke Zautke e à coisa que ela despertou. A coisa

que ela disse para ficar na cama. A coisa obedeceu — coisas como

aquela são bem obedientes no começo, pois a obediência vem de um

desejo profundo de agradar o criador. No entanto, assim como um cão

que recebe a ordem de ficar, o desejo de permanecer perto do dono logo

encobre a lembrança da ordem.

A criatura escuta a confusão do lado de fora, quando Anneke é

arrastada para a cabana e observa aquela coisa engolir sua criadora. A

coisa se esconde da bruxa quando ela olha para baixo no caminho, e

então entra na casa e chora.

Depois de chorar tudo o que pode chorar, decide seguir Anneke.

Como a magia levou a coisa à vida, ela sente a magia.

Sabe para onde a cabana foi.

Ela a segue, caminhando no acostamento da estrada.

Descalça.

Camiseta branca com um círculo vermelho, caracteres japoneses que

dizem À procura de uma namorada japonesa.

Sem sutiã.

Segurando a calça jeans folgada com uma das mãos porque é a calça

de Anneke, que veste dois tamanhos acima.

Como caminhar sozinha à noite no acostamento da estrada é algo

muito atraente, um homem com nariz vermelho e jaqueta laranja de

Syracuse para o carro e pergunta se ela quer sair.

— Quero uma carona — diz ela.

— Para onde?

— Não sei. Mas eu digo quando chegar lá.

Ele diz que “Não sei” é o lugar preferido dele.

O homem para em uma estrada na zona rural perto de uma plantação

de milho e faz sexo com ela.

Ela olha para a estrada onde a magia passou o tempo todo.

Chacoalhando-o e apontando.

Ele está demorando porque a setralina atrasa os orgasmos.

Também porque já está pensando nas palavras que vai usar para

descrever seu peccadillo ao padre Maldonado no domingo.

— Rápido! — diz ela, estapeando o rosto dele, o que faz com que o

homem voe longe.

— Foi ao menos um pouquinho bom para você? — pergunta ele,

colocando a camisinha dentro de um copo vazio de refrigerante, que

coloca dentro de uma caixa vazia do McDonald’s, que coloca dentro de

uma sacola de plástico, como a pior matriosca do mundo.

— Não me importa — diz ela. — Me leve para a estrada agora.

— Quanto eu te devo?

Frustrada, ela bate na orelha dele e aponta a estrada.

A raiva que ele sente na dor logo se torna culpa quando percebe que

pode ter se aproveitado de uma garota demente.

A garota-coisa faz com que ele dirija devagar, apontando.

— Dog Neck Harbor, né? — diz ele.

— Não fale mais. Não gosto do seu jeito de falar.

Ele liga o rádio.

Quando chegam à Willow Fork Road, a sensação de magia fica mais

forte.

Ela sorri, bate as mãos um pouco, ri.

— Até onde? — pergunta ele, assoando o nariz em um guardanapo,

tirado de um bolso da jaqueta.

A fumaça do óleo de uma máquina de guerra em chamas sobe do

quintal, mas ele não consegue ver.

A neve cai no para-brisa, mas ele acha que é chuva.

Seu ângulo na estrada não permite que ele veja o homem decapitado

nem o corvo que se alimenta dele.

— Aqui! — grita a garota-coisa.

O homem de jaqueta para o carro, procura a carteira.

Tira duas notas de vinte e, junto, um papelzinho de biscoito da sorte,

como uma língua pequena e branca.

Ela já saiu do carro e está correndo.

Ele lê o papel no colo, as letras vermelhas e alegres proclamando

O AZAR NÃO VAI ALCANÇÁ-LO SE VOCÊ FOR EMBORA!

Ele vai embora.

A criação de Anneke não sabe para onde ir agora.

A magia grita da casa, mas também da mata e do tanque em chamas.

A magia aqui é muito mais forte do que qualquer coisa na casa de

Anneke.

Ela sente a criadora em todos os lugares: Anneke saturou esse lugar

com sua presença. Mas a magia é mais forte na casa. A casa com a porta

e a abertura no telhado e as covinhas onde os projéteis bateram e a casa

se reformou.

A coisa bonita com roupas grandes entra pela porta da frente.

Escuta uma mulher gemendo de desconforto no andar de cima.

Quase não vê a parte fria que atravessa para subir a escada para a

biblioteca.

A parte fria a segue.

 

Andrew-em-Marina está gemendo, deitado em posição fetal, quando ele

(ela) vê a linda garota-coisa adolescente entrar na biblioteca, parecendo

confusa.

A coisa o(a) vê.

— Moça bonita da pintinha, onde está Anneke?

Ela tem exatamente a voz de Anneke.

Andrew (Marina) quase entende, entenderia completamente se ele

(ela) não estivesse tão ocupado(a) respirando de modo firme e mantendo

os músculos meio tensos.

Então, a garota bonita estremece.

Sua essência de vida é algo frágil, uma criação totalmente nova,

tremulando como uma fronha em um varal. O vento que bate nela é um vento frio e forte, de fato.

Não há luta.

O espírito inexperiente se dissolve como se nunca tivesse existido.

Desligado, o corpo da garota se encolhe, bate a cabeça no chão com

um tum seco.

Os olhos azuis meio italianos da garota se abrem de novo.

E se estreitam.

A garota sorri um sorriso de lobo, curvando o lábio superior um

pouco demais.

Vomita muito — o macarrão e o queijo branco que eram da despensa

de Anneke.

É a camiseta de Anneke.

Cheira a cigarro Winston.

Andrew-em-Marina quase compreende o que a garota era antes. Sabe

bem o que a garota é agora. Para de respirar e apertar — a bruxa velha

encontrou seu hospedeiro.

É a camiseta de Anneke.

Andrew-em-Marina entende de repente.

Tenta dizer:

— Ah!

Parece mais:

— Aff!