Bem-Vindo à Casa dos Espíritos
Capítulo 122
Precisamos voltar um pouco agora.
E voltar à casa de Anneke Zautke e à coisa que ela despertou. A coisa
que ela disse para ficar na cama. A coisa obedeceu — coisas como
aquela são bem obedientes no começo, pois a obediência vem de um
desejo profundo de agradar o criador. No entanto, assim como um cão
que recebe a ordem de ficar, o desejo de permanecer perto do dono logo
encobre a lembrança da ordem.
A criatura escuta a confusão do lado de fora, quando Anneke é
arrastada para a cabana e observa aquela coisa engolir sua criadora. A
coisa se esconde da bruxa quando ela olha para baixo no caminho, e
então entra na casa e chora.
Depois de chorar tudo o que pode chorar, decide seguir Anneke.
Como a magia levou a coisa à vida, ela sente a magia.
Sabe para onde a cabana foi.
Ela a segue, caminhando no acostamento da estrada.
Descalça.
Camiseta branca com um círculo vermelho, caracteres japoneses que
dizem À procura de uma namorada japonesa.
Sem sutiã.
Segurando a calça jeans folgada com uma das mãos porque é a calça
de Anneke, que veste dois tamanhos acima.
Como caminhar sozinha à noite no acostamento da estrada é algo
muito atraente, um homem com nariz vermelho e jaqueta laranja de
Syracuse para o carro e pergunta se ela quer sair.
— Quero uma carona — diz ela.
— Para onde?
— Não sei. Mas eu digo quando chegar lá.
Ele diz que “Não sei” é o lugar preferido dele.
O homem para em uma estrada na zona rural perto de uma plantação
de milho e faz sexo com ela.
Ela olha para a estrada onde a magia passou o tempo todo.
Chacoalhando-o e apontando.
Ele está demorando porque a setralina atrasa os orgasmos.
Também porque já está pensando nas palavras que vai usar para
descrever seu peccadillo ao padre Maldonado no domingo.
— Rápido! — diz ela, estapeando o rosto dele, o que faz com que o
homem voe longe.
— Foi ao menos um pouquinho bom para você? — pergunta ele,
colocando a camisinha dentro de um copo vazio de refrigerante, que
coloca dentro de uma caixa vazia do McDonald’s, que coloca dentro de
uma sacola de plástico, como a pior matriosca do mundo.
— Não me importa — diz ela. — Me leve para a estrada agora.
— Quanto eu te devo?
Frustrada, ela bate na orelha dele e aponta a estrada.
A raiva que ele sente na dor logo se torna culpa quando percebe que
pode ter se aproveitado de uma garota demente.
A garota-coisa faz com que ele dirija devagar, apontando.
— Dog Neck Harbor, né? — diz ele.
— Não fale mais. Não gosto do seu jeito de falar.
Ele liga o rádio.
Quando chegam à Willow Fork Road, a sensação de magia fica mais
forte.
Ela sorri, bate as mãos um pouco, ri.
— Até onde? — pergunta ele, assoando o nariz em um guardanapo,
tirado de um bolso da jaqueta.
A fumaça do óleo de uma máquina de guerra em chamas sobe do
quintal, mas ele não consegue ver.
A neve cai no para-brisa, mas ele acha que é chuva.
Seu ângulo na estrada não permite que ele veja o homem decapitado
nem o corvo que se alimenta dele.
— Aqui! — grita a garota-coisa.
O homem de jaqueta para o carro, procura a carteira.
Tira duas notas de vinte e, junto, um papelzinho de biscoito da sorte,
como uma língua pequena e branca.
Ela já saiu do carro e está correndo.
Ele lê o papel no colo, as letras vermelhas e alegres proclamando
O AZAR NÃO VAI ALCANÇÁ-LO SE VOCÊ FOR EMBORA!
Ele vai embora.
A criação de Anneke não sabe para onde ir agora.
A magia grita da casa, mas também da mata e do tanque em chamas.
A magia aqui é muito mais forte do que qualquer coisa na casa de
Anneke.
Ela sente a criadora em todos os lugares: Anneke saturou esse lugar
com sua presença. Mas a magia é mais forte na casa. A casa com a porta
e a abertura no telhado e as covinhas onde os projéteis bateram e a casa
se reformou.
A coisa bonita com roupas grandes entra pela porta da frente.
Escuta uma mulher gemendo de desconforto no andar de cima.
Quase não vê a parte fria que atravessa para subir a escada para a
biblioteca.
A parte fria a segue.
Andrew-em-Marina está gemendo, deitado em posição fetal, quando ele
(ela) vê a linda garota-coisa adolescente entrar na biblioteca, parecendo
confusa.
A coisa o(a) vê.
— Moça bonita da pintinha, onde está Anneke?
Ela tem exatamente a voz de Anneke.
Andrew (Marina) quase entende, entenderia completamente se ele
(ela) não estivesse tão ocupado(a) respirando de modo firme e mantendo
os músculos meio tensos.
Então, a garota bonita estremece.
Sua essência de vida é algo frágil, uma criação totalmente nova,
tremulando como uma fronha em um varal. O vento que bate nela é um vento frio e forte, de fato.
Não há luta.
O espírito inexperiente se dissolve como se nunca tivesse existido.
Desligado, o corpo da garota se encolhe, bate a cabeça no chão com
um tum seco.
Os olhos azuis meio italianos da garota se abrem de novo.
E se estreitam.
A garota sorri um sorriso de lobo, curvando o lábio superior um
pouco demais.
Vomita muito — o macarrão e o queijo branco que eram da despensa
de Anneke.
É a camiseta de Anneke.
Cheira a cigarro Winston.
Andrew-em-Marina quase compreende o que a garota era antes. Sabe
bem o que a garota é agora. Para de respirar e apertar — a bruxa velha
encontrou seu hospedeiro.
É a camiseta de Anneke.
Andrew-em-Marina entende de repente.
Tenta dizer:
— Ah!
Parece mais:
— Aff!