Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Christopher Buehlman · Capítulo 15 de 134

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Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Capítulo 14

 

Andrew acende as lamparinas a óleo na grande mesa de pinheiro que

fica no meio da biblioteca enquanto Salvador permanece por perto. O

mago nunca deixa o homem de palha, cuja mão esquerda de madeira é

mais nova e mais clara do que a direita, lidar com fogo.

O empregado escreve no Traço Mágico pendurado no pescoço,

virando os botões com os dedos hábeis, o quadril de palha movendo-se

lentamente com o fantasma do rabo em movimento.

 

AJUDA?

 

— Vinho — diz Andrew, e Salvador vira o olhar de retrato em direção

ao corredor, partindo naquela direção, antes de dar a impressão de se

lembrar de algo importante.

Ele estremece, emitindo um som parecido com um gemido e

balançando a cabeça. Une as mãos em súplica e olha para Andrew, ainda

choramingando.

— Eu sei, garoto. Isso foi ruim. Eu estava só testando. Água com gás

serve.

Salvador visivelmente relaxa e sai correndo da biblioteca. Andrew

vai até a estante, uma desgastada estante azul, suspensa perto do teto

alto por correias e fora do alcance. Uma boneca com cabelos

desgrenhados e sem olhos está pendurada com um cadarço de sapato

preso à parte de baixo. Um cobertor com estampa indiana cobre os

volumes que esperam ali dentro. Andrew se aproxima da boneca e diz:

— Olá, Sally. Eu me declaro Andrew Ranulf Blankenship, filho de

George Blankenship, neto de Charles Thaddeus Blankenship e

verdadeiro dono desta casa e destes livros.

A boneca movimenta as pernas para começar a balançar devagar.

Depois de três balançadas, ela se lança aos cabelos de Andrew com uma das mãos de plástico. Sente o rosto dele com a outra mão e, satisfeita,

beija sua bochecha e volta a ficar inanimada, pendurada na parte de

baixo da estante. As correias que mantêm a estante suspensa no alto se

afrouxam e ela se abaixa, de modo que Andrew possa alcançar. Ele

afasta a cortina para o lado. A furadeira elétrica que deveria ter sido

acionada e cegado a todos, menos Andrew, treme uma vez para mostrar

que está em funcionamento. A furadeira fica no fundo de dois níveis, ao

lado de uma cobra de borracha e de um punho mumificado com falanges

de ferro (sua Mão da Glória não pega cadeados, não acende velas e não

esmaga corações — pertenceu a um pugilista cossaco que foi enforcado

por bater até matar no amante da mulher e nos dois irmãos do homem).

Na parte de cima, nove enormes livros idênticos com capa de couro

estão organizados de três em três, com a lombada para o lado de fora. O

mago relaxa os dedos ao pegar o livro na pilha mais certinha e tira o

exemplar de baixo. Cada uma das oito armadilhas guarda uma surpresa

desagradável para qualquer pessoa, incluindo Andrew, que começa a

pegar a obra: por exemplo, o livro por baixo do livro de verdade tem

diversos parasitas secos, como vermes dos rios da Amazônia. Eles se

embrenham nas roupas do invasor e seguem em direção à uretra, se for

preciso lutando entre si pela honra de se enfiar e se prender na bexiga

com seus espinhos voltados para trás. Só a oração do pajé de uma tribo

quase extinta faria a coisa sair, mas isso precisaria acontecer dentro de

uma semana; caso contrário, o verme pegará fogo. Não tão depressa

quanto os cartuchos de espingarda (que já pertenceram a Doc Holliday,

um dos maiores mitos do Velho Oeste) que esperam no livro dois, mas

qualquer feiticeiro (e quem mais chegaria tão longe?) teria dificuldade

para se concentrar em algo acima da cintura quando os vermes fizessem

o trabalho deles.

Andrew segura e coloca o livro sobre a mesa, puxando um dicionário

de russo antigo de uma estante comum às suas costas. Depois pega lápis,

um caderno de espiral e se senta para ler. Dos quatro livros que trouxe

para a casa das florestas perto do Volga (cada um com sua estante e

armadilha), este é um dos dois que ele menos entende.

Depois, é claro, do Livro dos Pesares.

Mas esse.

 

Sobre a Alma e sua Mutabilidade e

o Melhor Modo de Sobreviver à Morte

 

Andrew sabe que aquele é o seu livro mais precioso e que qualquer

mago que conheça sua existência não vai poupar esforços para consegui-

lo. Dizem que Rasputin foi protegido por alguns dos feitiços mais fracos

ali e que Koschei, o Imortal, dominou a coisa toda antes da megera tirar

a obra dele na época do czar Alexandre II.

Até o momento, Andrew havia compreendido algumas partes, mas

tem medo de tentar qualquer coisa além de enviar sua consciência, ainda

bem ligada a seu corpo adormecido, a vagar pelas praias do lago ou

através das paredes das casas dos vizinhos.

Ele abriu mão dessa última habilidade depois de observar seu

misantropo vizinho sobrevivencialista John Dawes (do outro lado da

Willow Fork Road, à distância do binóculo), bêbado, depilando o

escroto com uma navalha enquanto assistia a uma reprise de A Ilha dos

Birutas. Aquela imagem assustou Andrew a ponto de ele sentir um tipo

de espasmo e suspeitar de que quase teve um ataque. Ainda não tinha

visto nada que o convencesse de que o inferno era real (ou que não era),

mas sair de seu corpo em repouso enquanto sua alma assombra a casa de

um depilador de saco feliz e solitário parece algo bem perto disso.

Portanto, agora ele limita os experimentos a perambular pela praia e a

dar voos de baixa altitude, e nunca se afasta mais do que dois ou três

quilômetros do corpo. Pretende ir adiante se conseguir descobrir como

voltar sem o reconfortante cordão umbilical astral que o prende. Voltar

para o próprio corpo sem ele é o primeiro passo. Em seguida, e mais

difícil, será dominar outro corpo, algo assustador e ruim. A possessão

temporária é possível, mas a linguagem em Sobre a Alma alerta que

enfiar duas almas em um corpo é desgastante para ambos: o hospedeiro

original pode conseguir empurrar o intruso para fora, direto para o abraço da morte. Se isso não acontecer, a presença de várias almas em

um corpo atrai “outros seres”,

Saia, Ichthus70

cuja companhia pode ser indesejável. A ocupação permanente é,

claro, um assassinato.

E, ainda assim, uma pessoa pode usar essa técnica para viver

eternamente, praticando um tipo de alquimia biológica, transmutando o

peso da idade e dos corpos doentes em corpos saudáveis e jovens. Uma

pessoa pode viver na beleza e no auge da força por séculos.

Andrew tem a forte suspeita de que algumas pessoas estejam fazendo

isso agora mesmo.

Ele costuma pensar que, se entrasse em uma sala cheia de pessoas

que comandam o mundo, os invisíveis que mandam no Estado e dão

ordens aos barões do petróleo, ela se assemelharia à sala de audição de

uma novela na TV: todos seriam adoráveis, pareceriam ter entre 25 a

quarenta anos e, caso isso fosse conseguido pela bruxaria da ciência ou

pela ciência da bruxaria, seria igual a dinheiro. Aqueles que usam a

magia valorizam o dinheiro menos do que os outros, porque sempre

podem fabricar, roubar, ganhar ou conjurar conforme o necessário; a

maioria dos criadores vê aqueles que acumulam dinheiro como nada

além de ratos bajulados armazenando para um inverno que não vão nem

estar vivos para ver. Porém, ao acumular muitos zeros atrás de um

número inteiro, digamos o suficiente para subornar um primeiro-

ministro ou comprar uma floresta ampla, nem mesmo um feiticeiro vai

ignorar isso: muitas pessoas podem estar em busca da juventude

prolongada.

— Mas não da juventude eterna — diz Andrew, baixinho.

Nada é para sempre.

Uma lembrança quase lhe arranca um sorriso antes que ele a afaste,

voltando sua atenção para o problema do cordão umbilical espiritual.

Salvador entra na sala e despeja água Gerolsteiner de uma jarra de

barro (uma das de Anneke) dentro do copo de Andrew, esperando

receber mais uma ordem, embora aceitando ser ignorado — seu dono inclinou a cabeça para estudar e, apesar de ter ficado para trás a época

em que o homem com coração de cachorro precisava tirar duas garrafas

de vinho vazias da mesa e rosquear uma terceira antes de levar o mago

embriagado para a cama pelas pernas, será quase alvorada quando o

mago fechar o livro.