Bem-Vindo à Casa dos Espíritos
Capítulo 39
A casinha está cheia de russos. Eles vieram da Flórida, de New Jersey,
de Little Odessa. Alguns americanos, parentes da falecida esposa de
Dragomirov, todos altos, loiros e de olhos azuis, se sentam, com caras de
surpresa, num canto da varanda de trás, quase uns em cima dos outros
por falta de espaço. A intensidade dos russos assusta esses luteranos cuja
aeromoça-modelo se casou com um homem de empregos duvidosos e
associações perigosas. Essa tribo Dragomirov tem olhos arregalados,
cabelos escuros, riso frouxo e pouca paciência.
Eles leem poemas uns aos outros.
Quem lê poemas em uma festa?
Não é exatamente uma festa.
Ao mesmo tempo, não deixa de ser uma.
É como um velório, mas mais sombrio.
Cantorias, histórias, piadas, vestígios de vingança, tudo acompanhado
por olhares cúmplices trocados entre homens que sugerem que mais
coisas serão ditas quando as mulheres e os filhos saírem.
Mikhail Yevgenievich Dragomirov, “Misha”, partiu há um mês.
A família veio hoje para assumir a casa, paga até o fim de agosto.
Seria de se pensar que o patriarca do lado americano da família,
Georgi Fyodorovich Dragomirov, primo do desaparecido, dominaria a
sala. Só que ele está velho agora, tinge as sobrancelhas, e sua azia o
incomoda quando se esquece de tomar o remédio. Ele se esqueceu de
tomar o remédio.
A próxima na fila poderia ter sido sua meia-irmã, Valentina
Fyodorovna, a pedido de quem o ícone da Virgem apareceu na estante
do canto, substituindo o uísque de Misha. Ela foi expatriada
recentemente, mas está triste demais para falar e toda hora assoa o nariz, sempre com dois lenços, sempre atrás da mão manchada, cujas unhas
brilham com o melhor esmalte vermelho.
A pessoa que se destaca não tem nem cinquenta anos — e ninguém
ali a via há um bom tempo. A pequena Marina, que teve uma vida muito
difícil. Marina de Níjni Novgorod, a garota da mata que foi salva da
prostituição por seu Baba, indo então para a universidade. Para o lado da
poesia. Como surpreendeu todos eles quando foram buscá-la no
aeroporto Hancock, em Syracuse.
Ela é a mais inteligente entre eles, e parece envergonhá-los pelo
modo com que os Estados Unidos tiraram a força dos Dragomirov.
Ela é pequena, bombada, bonita. Eles assistiram ao vídeo que ela
enviou como apresentação, para mostrar que tinha o senso de humor do
tio, um vídeo dela fazendo musculação com kettlebell na floresta ao som
de “Volga Boat Song”.
Agora, está ali, diante deles. Com a pele clara e saudável, acentuada
pela marca em seu rosto, com o casaco, até parece uma Romanov
perdida quando a noite cai.
— Meu tio não gostaria nada de ver lágrimas — começa Marina
Yaganishna.
— Bobagem! Ele chorava no cinema. Ele chorava com poesia — diz
uma poeta-sobrinha.
— Ele chorava com a poesia dele.
Eles riem.
Eles a amam.
Eles comeram os petiscos servidos no funeral que ela preparou em
casa,
“Marisha tirou a virgindade do fogão — Misha só usava a grelha e o
micro-ondas!”
com a marmelada que aprendeu a fazer na floresta,
“O Baba dela deve ter lhe ensinado antes de morrer!”
e a entupiram de vodca Stolichnaya e se embebedaram diante dos
olhos limpos e da mente pura daquela garota,
“Garota, o cacete! Ela é um soldado forte como seu tio-avô
Yevgeny!”
que faz aflorar o que cada um deles tem de melhor.
— Alexandr Nikolayevich, você vai desrespeitar a lembrança de seu
tio-avô com um peido tão fraco? Ponha mais creme azedo nesse frango e
peide como um cossaco.
O garoto, que tem doze anos, ri e cora como suco de beterraba ao ver
sua desconhecida tia russa cutucá-lo de modo tão habilidoso. Mais cedo,
ela havia apanhado o smartphone da mão dele e dito: “Nenhum homem
com menos de quarenta anos deve passar mais tempo brincando com um
telefone do que com seu zalupa”.
Seu pai o havia feito rir ainda mais, acrescentando: “Mas eu digo a
ele o tempo todo, solte esse zalupa!”.
Um dos luteranos americanos, aliviado por ter algo sobre o que falar,
explicou para Marina o que era chalupa, a tortilla mexicana do antigo
comercial com o chihuahua falante.
Agora, quando a última luz desaparece do céu, os luteranos se
despedem com largos sorrisos. Marina protege os olhos de modo
engraçado, dizendo:
— Seus sorrisos são tão perfeitos nos Estados Unidos que vocês
chegam a me cegar!
Mulheres e crianças saem da casa até sobrarem apenas Marina e os
homens que conheciam Misha. Ela vai ficar — todos concordaram que
ela pode ficar, se quiser.
Mas agora está na hora da conversa dos homens.
Eles olham para ela de modo significativo, talvez se desculpando um
pouco, e ela compreende que eles vão encher as taças mais depressa e
trocar votos de vingança se o desaparecimento acabar se revelando um
assassinato — a polícia disse que houve sinais de luta, que foi
encontrada a evidência do DNA de diversas mulheres, duas delas
prostitutas conhecidas, uma delas desconhecida. Os primos e os
sobrinhos do desaparecido conhecem os hábitos dele: haverá discussões
sobre cafetões, amantes ciumentos. Os homens de sangue quente vão jurar se encarregar do assunto pessoalmente. Os mais inteligentes não
vão deixar de mencionar — indiretamente, é claro — velhos conhecidos
de Misha que poderiam entrar na lista, homens que sabem manusear
uma pistola Makarov, homens que sabem deixar um mistério.
Ela sai.
Ela ri um pouco quando eles já não podem ver seu rosto.
Eles estão certos quando dizem que Dragomirov era o homem errado
a enganar.
Porém, estão enganados quanto ao motivo.
Marina Yaganishna desce a escada, deixando para trás um rastro de
luz que ilumina o pátio. Tira as botas e caminha descalça até a beira
d’água, quase sem titubear, apesar da quantidade de vodca que bebeu.
Carrega uma garrafa quase cheia consigo. Agora, tira o restante da roupa
e entra no lago com a garrafa.
Fica de pé por um tempo, olhando para baixo, como se ouvisse as
ondas.
O velho Georgi, apontando para a mulher nua, passa a mão no
estômago ardendo, que ele sabe que vai arrancar sua vida em breve, e
diz baixinho:
— Que bom que os americanos foram embora.
Eles riem.
— Ela tem o diabo no corpo — comenta alguém, de modo carinhoso.
Agora, eles observam a irmã abrir a garrafa, despejando-a na marola.
— Ha! Ela está dando bebida a Misha!
— Alguém deveria dizer a ela que ele prefere uísque.
Um silêncio, enquanto os homens continuam observando, mesmo
sem querer.
Marina Yaganishna parece ter trinta e cinco anos, não quase
cinquenta.
— Acho que a menopausa vai vir tarde para ela — sugere Georgi.
Eles riem até cansar e então voltam a falar sobre vingança.
No lago, a mulher despeja vodca na boca de um velho ajoelhado, com
luzes fracas no lugar de olhos.
— Você tem certeza? — pergunta ela.
Ele assente.
— Será feito, então.
— E eu vou ser libertado?
— Acho que sim — responde ela. — A vingança é libertadora.
Ele abre a boca inchada para receber mais vodca.
Ela pegou a garrafa da geladeira, onde um dos luteranos a colocara
por ignorância ao limpar a mesa.
Ela despeja de novo.
— Desculpe por estar fria.
Misha não se importa.
Tudo está frio agora.
Ele engole, aliviado.
Afunda.