Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Christopher Buehlman · Capítulo 118 de 134

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Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Capítulo 120

 

A mulher que costumava ser Marina Yaganishna está na biblioteca da

casa dos espíritos. Ela não tem sido Marina desde 1983, claro, quando

libertou a alma de sua filha traidora e começou a viver com o corpo dela.

A filha que soltou o Ladrão. A bonita mas fraca, com uma pintinha.

Baba assumiu e fortaleceu o corpo dela.

Agora, a bruxa velha olha para a biblioteca em que o Ladrão havia

guardado os livros que roubou dela.

O Livro dos Pesares.

Feitiços de Amor dos Magyar.

Sobre Como se Tornar Invisível.

Sobre a Alma e sua Mutabilidade e o Melhor Modo de Sobreviver à

Morte.

Ela encontrou a mão também, a Mão da Glória desgastada que tira a

vida.

Estava no bolso da jaqueta do Ladrão, como se fosse uma carteira ou

um molho de chaves!

Ele não respeitava nada. Essa é a doença dos americanos.

E agora ele jaz na neve derretida com um monte de corvos sobre ele,

brigando por seus olhos.

A polícia vai vir logo, ela sabe, mas será fácil afastar os policiais: ela

é boa em encantar, quase tão boa quanto uma vampira.

Vai precisar encher um saco, pegar o que quer, queimar o resto.

Já destruiu a banheira do Ladrão, para que o velho não pudesse

voltar.

Vai queimar o professor na cabana.

Vai queimar a nova bruxa também.

Baba drenou e deixou a velha bruxa à beira da morrer para ficar mais

forte para a luta, para dar força à cabana e aos soldados-bonecos sem comprometer a própria força. Do mesmo modo como costumava exaurir

o Ladrão e tantos outros.

Agora, não vai conseguir nada dela — está inconsciente ou morta.

Vai queimar o homem de palha com uma pintura na cabeça.

Ele está gemendo no quarto do Ladrão e não vai sair dali. Ela pensou

em destruí-lo, mas ele é inofensivo, bom para pegar e espiar, mas não

conseguia pensar sozinho. Vai desfazê-lo e tirar a magia antes de

queimá-lo — é um bom feitiço, com o qual está familiarizada.

A biblioteca está segura agora.

Várias armadilhas foram lançadas contra ela: uma broca se quebrou

em sua cabeça, uma pequena Mão da Glória tentou socá-la, uma cobra

de borracha ganhou vida, mas foi devorada por Baba. Um verme nojento

tentou subir por suas partes pudicas, mas ela se tornou cáustica e o

queimou.

Foi obrigada a brincar de roleta-russa para poder pegar o Livro dos

Pesares: não há como desviar do risco da morte para pôr as mãos

naquele livro.

Mas a morte não é um obstáculo para ela.

Baba é boa demais em resistir à atração, em encontrar outro corpo

quente para se enfiar.

A maioria não sabe como lutar para manter a própria pele.

Na maior parte das vezes é fácil.

E até mesmo uma bruxa pode ser empurrada se for surpreendida.

Agora, ela apanha o saco.

Está pesado — ela ainda não colocou todos os seus livros.

Pegará um livro francês sobre transformação e um texto americano

sobre automóveis. Além de um livro de Santa Delfina que afirma que a

Revelação de São João aconteceu em 1348 e que os anjos e os demônios

lutaram a segunda guerra que destruiu Lúcifer e deixou Mamon no

controle.

Ela se lembra vagamente dessa época, pensa que pode ser verdade

que a ganância e a inveja substituíram a ira e o orgulho como os

principais males do homem.

Uma pena.

Apanha o saco.

Está prestes a sair da biblioteca quando nota uma bela caixa

entalhada, que não tinha visto antes.

Na prateleira sobre a lareira da biblioteca.

Abaixo do quadro de um carvalho.

Ela coloca o saco no chão.

Examina a caixa, uma caixa de cedro e marfim.

Tenta abrir, mas vê que está trancada.

Cospe no buraco da fechadura e a fechadura esfumaça, se abre.

Um coelho?

Um coelho empalhado.

Ela vê seu reflexo nos olhos brilhantes e convexos. Fica surpresa:

sempre se surpreende ao se ver jovem. Ela prefere o corpo de uma

megera, prefere ser subestimada e ignorada, para tomar decisões claras

sem se distrair com um útero rápido e seu alarme para sexo e filho.

Sem falar que sempre pode ficar bonita quando precisa seduzir

alguém.

O que é esse coelho?

Uma relíquia?

Ela tenta sentir a magia, sente apenas uma falta de vida esquisita.

Apanha o objeto.

Quando apanha, o coelho abre a boca e, incrivelmente, um ovo sai

dela.

O ovo se quebra no piso de madeira.

Isso desencadeia uma lembrança na bruxa, mas tarde demais.

— Aqui está o diabo! — diz ela.

E, então, acontece.

 

Andrew Ranulf Blankenship, ou sua morte, ou sua essência de vida, ou

sua alma, se preferir, se lança da casca quebrada, da gema e da clara no

chão de sua biblioteca, disparando até o corpo da sua antiga amante.

Se porventura ele hesitar, ela vai se dar conta e se defender, e ele será

um fantasma.

Ele não dá tempo a ela.

Ele empurra com toda a força, entra no corpo dela e o preenche, sem

deixar espaço para que ela se esconda. Sente-se todo dentro dela de uma

vez.

Por um momento estonteante, os dois ocupam a carne da pobre

Marina Yaganishna, mas a velha bruxa é surpreendida e perde o

equilíbrio.

Tenta se segurar.

Se ela ganhar o controle, ele perde.

Ele faz algo que compreende como encostar o pé no quadril dela e

empurra Baba para cima e para fora, pelo nariz e pela boca.

A boca de Marina Yaganishna se abre e Baba geme como se estivesse

em trabalho de parto. Cerra os punhos. No entanto, não consegue se

segurar. O impulso e o fator surpresa estão ao lado dele, que a empurra

para fora do corpo que roubou.

Antes de tomá-lo para si.