Bem-Vindo à Casa dos Espíritos
Capítulo 120
A mulher que costumava ser Marina Yaganishna está na biblioteca da
casa dos espíritos. Ela não tem sido Marina desde 1983, claro, quando
libertou a alma de sua filha traidora e começou a viver com o corpo dela.
A filha que soltou o Ladrão. A bonita mas fraca, com uma pintinha.
Baba assumiu e fortaleceu o corpo dela.
Agora, a bruxa velha olha para a biblioteca em que o Ladrão havia
guardado os livros que roubou dela.
O Livro dos Pesares.
Feitiços de Amor dos Magyar.
Sobre Como se Tornar Invisível.
Sobre a Alma e sua Mutabilidade e o Melhor Modo de Sobreviver à
Morte.
Ela encontrou a mão também, a Mão da Glória desgastada que tira a
vida.
Estava no bolso da jaqueta do Ladrão, como se fosse uma carteira ou
um molho de chaves!
Ele não respeitava nada. Essa é a doença dos americanos.
E agora ele jaz na neve derretida com um monte de corvos sobre ele,
brigando por seus olhos.
A polícia vai vir logo, ela sabe, mas será fácil afastar os policiais: ela
é boa em encantar, quase tão boa quanto uma vampira.
Vai precisar encher um saco, pegar o que quer, queimar o resto.
Já destruiu a banheira do Ladrão, para que o velho não pudesse
voltar.
Vai queimar o professor na cabana.
Vai queimar a nova bruxa também.
Baba drenou e deixou a velha bruxa à beira da morrer para ficar mais
forte para a luta, para dar força à cabana e aos soldados-bonecos sem comprometer a própria força. Do mesmo modo como costumava exaurir
o Ladrão e tantos outros.
Agora, não vai conseguir nada dela — está inconsciente ou morta.
Vai queimar o homem de palha com uma pintura na cabeça.
Ele está gemendo no quarto do Ladrão e não vai sair dali. Ela pensou
em destruí-lo, mas ele é inofensivo, bom para pegar e espiar, mas não
conseguia pensar sozinho. Vai desfazê-lo e tirar a magia antes de
queimá-lo — é um bom feitiço, com o qual está familiarizada.
A biblioteca está segura agora.
Várias armadilhas foram lançadas contra ela: uma broca se quebrou
em sua cabeça, uma pequena Mão da Glória tentou socá-la, uma cobra
de borracha ganhou vida, mas foi devorada por Baba. Um verme nojento
tentou subir por suas partes pudicas, mas ela se tornou cáustica e o
queimou.
Foi obrigada a brincar de roleta-russa para poder pegar o Livro dos
Pesares: não há como desviar do risco da morte para pôr as mãos
naquele livro.
Mas a morte não é um obstáculo para ela.
Baba é boa demais em resistir à atração, em encontrar outro corpo
quente para se enfiar.
A maioria não sabe como lutar para manter a própria pele.
Na maior parte das vezes é fácil.
E até mesmo uma bruxa pode ser empurrada se for surpreendida.
Agora, ela apanha o saco.
Está pesado — ela ainda não colocou todos os seus livros.
Pegará um livro francês sobre transformação e um texto americano
sobre automóveis. Além de um livro de Santa Delfina que afirma que a
Revelação de São João aconteceu em 1348 e que os anjos e os demônios
lutaram a segunda guerra que destruiu Lúcifer e deixou Mamon no
controle.
Ela se lembra vagamente dessa época, pensa que pode ser verdade
que a ganância e a inveja substituíram a ira e o orgulho como os
principais males do homem.
Uma pena.
Apanha o saco.
Está prestes a sair da biblioteca quando nota uma bela caixa
entalhada, que não tinha visto antes.
Na prateleira sobre a lareira da biblioteca.
Abaixo do quadro de um carvalho.
Ela coloca o saco no chão.
Examina a caixa, uma caixa de cedro e marfim.
Tenta abrir, mas vê que está trancada.
Cospe no buraco da fechadura e a fechadura esfumaça, se abre.
Um coelho?
Um coelho empalhado.
Ela vê seu reflexo nos olhos brilhantes e convexos. Fica surpresa:
sempre se surpreende ao se ver jovem. Ela prefere o corpo de uma
megera, prefere ser subestimada e ignorada, para tomar decisões claras
sem se distrair com um útero rápido e seu alarme para sexo e filho.
Sem falar que sempre pode ficar bonita quando precisa seduzir
alguém.
O que é esse coelho?
Uma relíquia?
Ela tenta sentir a magia, sente apenas uma falta de vida esquisita.
Apanha o objeto.
Quando apanha, o coelho abre a boca e, incrivelmente, um ovo sai
dela.
O ovo se quebra no piso de madeira.
Isso desencadeia uma lembrança na bruxa, mas tarde demais.
— Aqui está o diabo! — diz ela.
E, então, acontece.
Andrew Ranulf Blankenship, ou sua morte, ou sua essência de vida, ou
sua alma, se preferir, se lança da casca quebrada, da gema e da clara no
chão de sua biblioteca, disparando até o corpo da sua antiga amante.
Se porventura ele hesitar, ela vai se dar conta e se defender, e ele será
um fantasma.
Ele não dá tempo a ela.
Ele empurra com toda a força, entra no corpo dela e o preenche, sem
deixar espaço para que ela se esconda. Sente-se todo dentro dela de uma
vez.
Por um momento estonteante, os dois ocupam a carne da pobre
Marina Yaganishna, mas a velha bruxa é surpreendida e perde o
equilíbrio.
Tenta se segurar.
Se ela ganhar o controle, ele perde.
Ele faz algo que compreende como encostar o pé no quadril dela e
empurra Baba para cima e para fora, pelo nariz e pela boca.
A boca de Marina Yaganishna se abre e Baba geme como se estivesse
em trabalho de parto. Cerra os punhos. No entanto, não consegue se
segurar. O impulso e o fator surpresa estão ao lado dele, que a empurra
para fora do corpo que roubou.
Antes de tomá-lo para si.