Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Christopher Buehlman · Capítulo 69 de 134

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Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Capítulo 70

 

Andrew corre para o celeiro, pega algumas pedras de vidro temperado

do vaso, volta correndo e atira por baixo do primeiro carregamento de

lenha que Salvador montou em uma pilha triangular. Diz bhastrika e as

pedras lançam chama e ar quente, como pequenas tochas, até se

consumirem, acendendo um boa fogueira no buraco. No caminho, passa

por Salvador que está trazendo outra carga de achas de lenha e diz:

— Tome cuidado!

E corre para pegar uma pá e luvas.

E uma lanterna.

Ainda não está escuro, mas está ficando tarde.

 

Encontra a primeira batata graças ao aparente montinho de terra.

Usa a pá de cabo longo e o ancinho para arrancar.

Está maior do que antes, apenas um pouco maior do que uma batata

grande, e formou gavinhas.

Traz para cima com a mão, desconfiando de que poderiam brotar

espinhos ou algo assim.

No mesmo momento, brotam espinhos.

— Merda!

Larga na hora, tomando cuidado para não ser acertado. A ponta de

um dos espinhos fica grudada entre o polegar e o indicador da luva

quando a batata cai no chão.

Dá um peteleco e derruba no chão.

A coisa rola para dentro do buraco de novo, começa a usar suas

gavinhas levando tudo junto, cobrindo-se com terra.

— Sua merdinha.

Ele avança com a pá, percebe que a textura não é totalmente de

batata, mais áspera por fora, mais mole por dentro.

Provavelmente está se tornando um animal, e um cheio de sangue.

A coisa escapa da pá, mas não consegue fugir. Por fim, Andrew bate

forte o suficiente para fazer com que a coisa se exploda e sangre. Ainda

está vazando, como um fígado ou outro órgão, enquanto o mago a

persegue para levá-la até a fogueira.

Ele se prepara para ouvir um som.

A coisa dá um grito enorme quando é jogada ali dentro, de maneira

infantil, mas não exatamente humana. Irritada porque não conseguiu

fazer seu trabalho.

Me matar.

Mas como?

Estava crescendo.

O fogo está bem alto agora, e lá vem Salvador com outra carga de

achas de lenha, como o aprendiz de feiticeiro, literalmente preparado

para jogar mais lenha na fogueira.

— Chega, Sal.

Sal coloca a lenha no chão.

— Agora preciso que me ajude a encontrar essas coisas.

Ele levanta a pá: o retrato se inclina de leve, a mão articulada do

autômato tocando a pá quase com carinho, como se fosse uma flor.

A fogueira lança luz âmbar na moldura brilhante do quadro.

As narinas de Dalí parecem aumentar um pouco quando Salvador

sente o cheiro.

Seu quadril se remexe um pouco.

Cheirar as coisas é algo muito parecido ao que faz um cachorro.

Tudo bem, você previu os espinhos, o sangue e os gritos. Você sabe

como ela é, sabe como ela pensa. O que acontece depois? Prepare-se. A

próximo será maior.

Salvador aponta para um ponto no chão: um quarteto de gavinhas se

enfiou com delicadeza para baixo do monte que formou ao se enterrar.

Coisinhas espertas e horrorosas.

Andrew tira a terra com a pá.

Essa é do tamanho de uma abobrinha pequena, não uma batata.

Começa a se enterrar mais.

Ele remexe com a pá até aquela coisa também começar a sangrar,

roncar e se enfraquecer.

Não há espinhos nesta. Será que são todas diferentes?

Agora essa forma uma boquinha, como a de um bebê, mordendo a pá

sem força.

Andrew faz uma careta, ataca mais algumas vezes.

Acaba com a boquinha.

Esmaga bem.

Pega com a pá e leva à fogueira.

Tenho que trabalhar depressa, elas estão crescendo.

A seguinte, do tamanho de um gato, tem gavinhas suficientes para

tentar derrotar a pá. Perde.

O sol se pôs.

Pense!

A próxima precisa ser levada ao fogo em um balde.

Quando as bolhas começam a estalar e doer dentro das luvas de

Andrew, Salvador cava.

A outra se enterra ainda mais antes que a pá acabe com ela, e Andrew

tem uma ideia.

Quando a próxima vai ainda mais fundo, Andrew joga vidro

temperado no buraco.

Bhastrika!

As chamas saem do buraco, lambem a calça jeans de Andrew.

A coisa-batata grita e morre.

Seus vizinhos não iluminados não escutam esse grito.

Escutam um trem.

 

O trabalho vara a noite.

Andrew escava aquelas coisas, encontra abominações ainda maiores,

mais fortes, mais difíceis de olhar. Queima elas, que gritam ou urram,

depois recolhe tudo no balde e leva para a fogueira maior.

A última que Salvador encontra é grande como um filhote de urso.

Quando o mago ilumina o buraco, olhos brilham em sua direção. Ele

faz uma pausa, assustado. Parecem humanos. A coisa começa a se

cobrir.

Ele corre até a casa, pega um magnum .357 Smith and Wesson e um

extintor de incêndio. Segurando a lanterna com uma das mãos, pegando

a pá com a outra, cavando com os calcanhares de prótese, Salvador está

perdendo a pá de jardim para a coisa.

Uma vinha se serpenteou ao redor de uma das pernas de Sal.

Ele está ganindo e rosnando.

Andrew ergue a arma de cano de doze centímetros para a coisa no

buraco.

Que pisca para ele.

Será que ela sabe?

A coisa solta a pá, cobre a cara com gavinhas maiores, gavinhas que

se parecem mãos.

Andrew leva a mão ao gatilho, imaginando o som de uma criança

batendo em uma tampa de uma lata de lixo de metal. Quando atirar, os

vizinhos vão ouvir aquilo.

Será que a coisa vai implorar pela vida?

Implora pela vida, ou tenta, com a boca cheia de terra.

— Por favor...

Parece com o fantasma no carro.

Mágica da floresta eslava.

A coisa quase leva uma mão-gavinha ao cano quando Andrew se

recupera do leve encanto.

A tampa da lata de lixo bate seis vezes.

Um trem assovia.

A coisa no buraco está quase morta.

— Afaste-se, Sal.

O mago joga tantas pedras de vidro temperado no buraco que, quando

diz bhastrika, as chamas sobem, formando um círculo que ilumina o

arbusto e os galhos mais baixos.

Ele usa o extintor.

Vira-se e encontra Nadia olhando em sua direção, satisfeita com ele.

 

São quase duas da manhã quando ele considera já ter encontrado todas

as coisas e que seu trabalho está cumprido. Salvador cobre toda a

propriedade. Os três invadem o quintal do vizinho, Nadia segurando a

lanterna, todos invisíveis: se forem vistos, parecerão moscas perdidas.

Esse feitiço cansa o já cansado mago, mas deve ser feito.

Aproximando-se da porta da frente devagar, vê um texugo correr,

arrastando o saco de ovos em conserva.

Só um texugo.

Só ovos.

Acha graça e ri como as pessoas às vezes fazem no metrô, quando

deixam de se importar com quem está olhando para elas.

De repente, para de rir, lembra-se do que estava fazendo. Estremece

ao pensar no que aquelas coisas podem ter se transformado.

 

Antes do banho, olha para o próprio reflexo no espelho acima da pia.

Olha para a parede atrás do ombro, feliz por ser só uma parede.

Feliz por não ter ninguém às suas costas.

Será que a bruxa velha morreu de verdade?

O que diabos está atrás de mim?

Ele está imundo, os cabelos cheios de pedaços de batata, a pele com

sangue. Sem falar dos olhos.

A veia em sua esclera apareceu de novo.

Dói.

Andrew decide ficar um pouco mais velho, pelo menos até recobrar

as forças. Fios brancos despontam em diversos pontos do cabelo preto

de índio, como fios em uma meia-calça. As linhas ao redor da boca se

aprofundam. Ele aparenta ter cerca de quarenta anos agora, mas se sente

com sessenta. De qualquer maneira, os olhos param de doer, ficam mais

claros.

Seus músculos estão tão doloridos que ele mal consegue abrir a

torneira, mas o banho está bom. Sujeira e sangue correm pelos azulejos italianos e descem pelo ralo.

Está observando o resto da sujeira da noite passada desaparecer pelo

cano quando vê os pés pálidos e compridos dela às suas costas. A

rusalka não consegue resistir à água. Ele é invadido pelo cheiro de água

e maré, que parece estranhamente agradável depois do forte, germinal

odor das batatas. É estranho como o cheiro mudou à medida que aquelas

coisas cresceram, se tornando mais sangrentas, mais mamíferas.

Ele não olha para ela, apenas para seus pés. Ela provavelmente calça

o quê, 39? Os homens da família da rusalka devem ter pés grandes.

Andrew se lembra de histórias que Nadia contou a respeito das botas,

das botas altas e pretas dos tios, que trabalhavam em uma fábrica de

Nova York, onde pintavam gravatas de seda. Ela não passava de uma

adolescente quando eles fugiram da Revolução Russa, mas o bater

daquelas botas a acalmou, fez com que se sentisse consolada e com

saudade de casa, tudo ao mesmo tempo, certa pelo menos de que fazia

parte de uma tribo. Intelligentsia russa. Pessoas que queriam manter

suas casas bacanas, que não podiam fingir que gostavam dos profetas de

olhos arregalados que o maldito Lênin mandava como anjos sórdidos

para aumentar o ódio dos agricultores, fazendo exigências, subindo em

coisas para falar.

Então, lutaram ao lado do Exército Branco.

Dos perdedores.

Mas perdedores civilizados.

Romanos fugindo antes dos vândalos.

Romanovs morrendo no quintal.

A primeira vez que ele uniu essas palavras, romanos, romanov.

Assim como czar vem de Cesar.

Será que Nadia chegou a ver o czar?

Quem se importa?

Ela afoga as pessoas.

Elas imploram pela vida e ela afoga da mesma maneira.

E eu trepo com ela.

Ele sente o sabão deslizar pelo quadril, pelo umbigo.

Ela busca um contato ainda mais íntimo, segura-o na mão, desliza o

polegar pela cabeça.

Ele se afasta.

— Hoje, não — ele diz.

— Quando? — pergunta ela, com o sotaque carregado.

— Não sei. Talvez quando eu me esquecer daquele navio cheio de

gente morta que você mantém. Ou daquelas coisas nos buracos lá fora.

Bem horrível, é tudo tão horrível.

— Você quer que eu vá embora?

Ele para.

Ela começa a sair.

Ela é um monstro.

Mas eu também sou.

Se fizer isso.

— Não — diz ele.

— Ótimo. Você não deveria continuar dormindo sozinho.

Ele balança a cabeça negando, como se concordasse.

— Na verdade, não vou deixar você fazer isso — diz ela em russo.

Ela seca e leva Andrew para a cama.

Ele deixa.

Ela tenta fazer outra coisa de novo, mas ele se encolhe.

Por favor, disse a coisa.

Com terra na boca.

E, então, eu atirei.

Ele mais desmaia do que adormece.

Nadia se lembra de uma parte de si que se importava com outras

coisas além de trepar, nadar, matar e comer peixe no lago.

Segura o mago adormecido nos braços, lembra-se de outros braços

quentes que a seguravam muito tempo atrás.

Calmamente, percebe que é ali que ela deveria chorar, se conseguisse

fazer isso.