Bem-Vindo à Casa dos Espíritos
Capítulo 92
Anneke respira com dificuldade, tentando se acalmar. A casinha está se
movendo, balançando, fazendo com que ela queira vomitar o líquido
fino do uísque revirando-se na barriga.
O homem barbudo está sentado à frente, o idiota com cabeça careca
que algemou e vendou Anneke. Ela consegue ouvi-lo grunhir de vez em
quando, dizer um palavrão vez por outra, mas não sabe ao certo o quê: é
semelhante a um mantra zen que irrita muito. Ele parece maluco. Parece
uma mulher que está em trabalho de parto há um tempo, passando ar
pelas cordas vocais porque não tem mais nada. Algo entre a impressão
infantil de um fantasma e um cântico indiano em um filme de Velho
Oeste ruim dos anos 1960.
Hee-ee-ee-ee-uh-ee-ee-ee-EE-uh-ee-ee-ee-oh merda oh merdaaaaa-
unh uh-uh-ee-ee-ee.
Ela imagina que é assim que um cara faz antes de bater a cabeça dez
ou quinze vezes na parede.
Se não fosse por uma toalha úmida sobre os olhos, ela saberia que ele
estava tentando desesperadamente terminar de costurar a última das
nove bonecas de aniagem. Toda cheia de trapos, pelos e serragens de
ferro, os pés em lonas cortadas e costuradas em forma de coturnos, os
olhos com dois botões iguais, barras costuradas com sangue. Sangue
dele. Ele enfia um dedo ou um braço e costura. O balançar da casa não
contribui, mas ele sabe que não deve decepcioná-la.
Anneke se lembra do que viu dentro da casinha: era um casebre, do
tipo que se aluga no lago, mas havia se compactado em si, a coisa toda
do tamanho da cozinha agora, as paredes unidas, mas ainda intactas,
essas paredes descoloridas onde os equipamentos modernos tinham sido
retirados. Ela só viu um equipamento, um tipo de forno antigo.
Brilhando com a brasa, vermelha.
E então o barbudo a prendeu a um elo de ferro na parede, antes de
vendá-la. Anneke não viu, durante o breve e desigual esforço, que ele
também está acorrentado à parede por um tornozelo.
Ela está chateada consigo mesma por não ter lutado mais e mais cedo.
Poderia ter sido uma adversária à altura para ele se não estivesse
assustada e não tivesse sido arrastada pela propriedade — a camisa de
Anneke está rasgada, o traseiro e as costas ardem, e a poeira cai dos
bolsos quando ela se move.
E então o colar.
É como se o colar tivesse uma pulsação.
E é pesado.
Ela percebe que fica sonolenta e sente os membros pesados quando a
casa se move mais depressa.
Isso está acabando comigo.