Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Christopher Buehlman · Capítulo 90 de 134

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Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Capítulo 92

 

Anneke respira com dificuldade, tentando se acalmar. A casinha está se

movendo, balançando, fazendo com que ela queira vomitar o líquido

fino do uísque revirando-se na barriga.

O homem barbudo está sentado à frente, o idiota com cabeça careca

que algemou e vendou Anneke. Ela consegue ouvi-lo grunhir de vez em

quando, dizer um palavrão vez por outra, mas não sabe ao certo o quê: é

semelhante a um mantra zen que irrita muito. Ele parece maluco. Parece

uma mulher que está em trabalho de parto há um tempo, passando ar

pelas cordas vocais porque não tem mais nada. Algo entre a impressão

infantil de um fantasma e um cântico indiano em um filme de Velho

Oeste ruim dos anos 1960.

Hee-ee-ee-ee-uh-ee-ee-ee-EE-uh-ee-ee-ee-oh merda oh merdaaaaa-

unh uh-uh-ee-ee-ee.

Ela imagina que é assim que um cara faz antes de bater a cabeça dez

ou quinze vezes na parede.

Se não fosse por uma toalha úmida sobre os olhos, ela saberia que ele

estava tentando desesperadamente terminar de costurar a última das

nove bonecas de aniagem. Toda cheia de trapos, pelos e serragens de

ferro, os pés em lonas cortadas e costuradas em forma de coturnos, os

olhos com dois botões iguais, barras costuradas com sangue. Sangue

dele. Ele enfia um dedo ou um braço e costura. O balançar da casa não

contribui, mas ele sabe que não deve decepcioná-la.

Anneke se lembra do que viu dentro da casinha: era um casebre, do

tipo que se aluga no lago, mas havia se compactado em si, a coisa toda

do tamanho da cozinha agora, as paredes unidas, mas ainda intactas,

essas paredes descoloridas onde os equipamentos modernos tinham sido

retirados. Ela só viu um equipamento, um tipo de forno antigo.

Brilhando com a brasa, vermelha.

E então o barbudo a prendeu a um elo de ferro na parede, antes de

vendá-la. Anneke não viu, durante o breve e desigual esforço, que ele

também está acorrentado à parede por um tornozelo.

Ela está chateada consigo mesma por não ter lutado mais e mais cedo.

Poderia ter sido uma adversária à altura para ele se não estivesse

assustada e não tivesse sido arrastada pela propriedade — a camisa de

Anneke está rasgada, o traseiro e as costas ardem, e a poeira cai dos

bolsos quando ela se move.

E então o colar.

É como se o colar tivesse uma pulsação.

E é pesado.

Ela percebe que fica sonolenta e sente os membros pesados quando a

casa se move mais depressa.

Isso está acabando comigo.