Bem-Vindo à Casa dos Espíritos
Capítulo 50
Andrew dirige antevendo que encontrará pelo menos um cervo, o que
não tem nada que ver com magia: essas matas estão repletas de cervos,
que atravessam a estrada com tanta liberdade que motoristas atentos
sempre ficam de olho na vegetação do acostamento. Esses animais
seguem como em um balé, dali até Buffalo, e se mais deles são vistos na
rota de morte de cervos, a Interestadual 81, isso só ocorre porque o
departamento de estradas corta a grama da rodovia. Na mata, entram em
buracos cheios de mato, escondidos da vista dos motoristas, mas exalam
seu cheiro de poucos em poucos quilômetros para as pessoas que
seguem a pé ou de bicicleta ou nos lentos tratores que percorrem o
espaço entre as propriedades.
Andrew não está em um trator naquela noite.
Ele abriu a capota do Mustang 302, que rosna como um animal
faminto, como algo que estivesse esperando há muito tempo para correr.
Um dia se passou desde a morte de Karl, faltam quarenta e oito horas
para o enterro, e a filha dele está bêbada. Está com as cervejas do pai no
colo, uma garrafa de uísque Tullamore Dew entre os pés, e virou o botão
do volume do rádio quase no máximo. Uma das estações de rock
clássico: como Andrew troca de estação a cada comercial, raramente
sabe qual está ouvindo. Seja lá qual for, “From the Beginning” toca tão
alto que Andrew precisa gritar para falar com Anneke.
— Veja! — diz ele, apontando para o outro lado da rua à esquerda.
Um cervo está tão imóvel que parece feito de pedra, com os olhos
verdes brilhando como garrafas de refrigerante sob os faróis, uma tiara
de vaga-lumes piscando ao redor da cabeça. Anneke não olha, apenas
solta os cabelos pesados e se esforça ao máximo para acompanhar a
música no rádio. Não saber a letra não a impede de cantar.
O mago posiciona a mão em cima da buzina e prepara o pé para frear,
mas o cervo não se mexe e, como sempre acontece com pessoas como
ele, Andrew se pergunta, depois que passa, se realmente viu o animal.
Então relaxa.
Ele viu seu cervo noctívago.
Anneke está observando a estrada agora.
Andrew sente vontade de arriscar aquela travessura que fazia com
frequência antes de ficar sóbrio — a mesma que estava fazendo quando
bateu o ‘65.
Sim, vamos fazer.
Quando vê que a estrada está livre nos dois sentidos, diminui a
velocidade para 35 quilômetros por hora. Apaga os faróis para que
Anneke e ele possam ver o balé de vaga-lumes brilhando nos pontos
baixos na terra à direita e à esquerda.
Exibindo-se.
Anneke adora, sorri com o rosto corado, olhos arregalados como os
de uma menininha no circo. Emerson, Lake & Palmer ainda são ouvidos
pelos alto-falantes, mas sem acompanhamento. Como os vaga-lumes são
lindos. Há uma pequena galáxia deles sinalizando entre si quando a
última luz violeta reluz sobre eles.
— Incrível — comenta Andrew, sem conseguir se fazer ouvir em
razão da música, e então acende as luzes de novo.
— Mais! — pede Anneke. — Bis!
Em vez disso, ele pisa fundo outra vez. Ela aperta a buzina do
Mustang e então uiva da janela como um lobo.
Na ribanceira.
O sussurrar da onda faz com que ele pense na coisa que veio da água
para cima dele em um sonho.
Não foi um sonho.
Você estava voando sem seu corpo e quase não conseguiu voltar.
Mas ele adora essas ribanceiras, assim como Anneke, e com certeza
não vai se afastar só por causa de um cara nojento em um navio afundado. O navio está distante e o casebre russo fica a cerca de dois
quilômetros.
Eles estão seguros.
Os dois bruxos, mestre e aprendiz, estão sozinhos.
Os dois alcoólatras em recuperação, um se esforçando, o outro em
meio a uma recaída, estão sozinhos.
A filha e o melhor amigo sozinhos.
E se beijando.
Quando chegaram, estenderam a manta indiana na grama alta e
rolaram sobre ela, rindo. Apesar da grama alta e da manta, o chão
continua duro sob seus corpos, mas eles querem ficar fora da trilha para
o caso de chegar alguém. O festival Sterling Renaissance vai começar
em breve, e os músicos, atores e vendedores ficam ali nos meses de
verão para cantar, beber e trepar. Os adolescentes da região também
frequentam essas ribanceiras, arrombando os carros estacionados,
fumando maconha e bebendo. Mas agora nada se move além da água do
lago e da brisa. Andrew e Anneke se deitam juntos, protegidos em seu
pequeno reduto de grama.
Escondidos.
Ocultos, no sentido literal da palavra.
E se beijam.
Os dois mal conversaram no caminho desde que saíram do carro,
apenas andaram, pularam a enferrujada cerca de proteção e subiram o
monte que durante o dia tem vista para o lago e para o pequeno
promontório, que ninguém se atreve a escalar. Tinham acabado de
estender a manta quando os lábios dela cobriram os dele, quentes e
embriagados.
E o beijo foi bom.
É bom.
Ela leva as mãos ao cinto dele e Andrew se surpreende ao impedi-la,
sendo bonzinho como uma menina católica.
Ela para e estreita os olhos vermelhos.
— Você não quer?
Ele vê que ela está chorando.
— Tenho medo de que você não queira.
— Você está errado.
As mãos fortes dela voltam ao cinto, mais insistentes: ela abre a
fivela. Andrew se afasta.
— Você está falando sério? — pergunta ela, secando uma lágrima
debaixo do olho com o punho.
— Anneke, você está bêbada.
— E daí?
— Vai se arrepender, só isso.
Ela o empurra para o chão.
Caramba, ela é mesmo mais forte do que eu?
— Não sei se você percebeu. Mas arrependimento?
Está bêbada demais para dizer as palavras que gostaria, mas balança a
cabeça. Ele entende. Anneke não costuma se arrepender ou pelo menos
repete isso para si mesma o suficiente para a frase ter se tornado seu
mantra. Se ela estivesse no Game of Thrones, seu lema seria: “Sim, eu
fiz isso. E você que se foda”.
— Eu preciso disso — diz ela.
Ela está em cima dele agora, com o quadril encaixado, as pontas da
lua atrás de sua cabeça e um embaraço das estrelas ao redor como uma
corte, testemunhas da carência e da primazia de Anneke na cena.
Meu pai morreu e você vai me fazer esquecer um pouco disso. Só um
pouco. Porque quando a tribo é reduzida a um membro, os filhos e as
filhas vão para os campos para procriar.
Isso não será Papillon.
Ela não está rindo com ele agora.
Ela é apavorante.
Isso vai trazer o corvo?
— Você me ama?
Sua silhueta assente.
— Como irmão. Não como marido. Mas faremos isso esta noite.
Ela se inclina e uma lágrima cai de modo bem ridículo dentro da
narina de Andrew, mas a cena continua não tendo graça, e Anneke
agarra os cabelos escuros dele com as duas mãos, com esforço, os
cabelos perto das têmporas. Ela o beija com delicadeza, um beijo
molhado, até a tensão abandonar o corpo dele. Ele sente a reação na
genitália, aquele primeiro formigamento, assim como ela.
Anneke sai de cima e abaixa a calça dele.
Ela nunca caiu de boca nele antes, talvez nunca tenha feito aquilo
com homem nenhum. Como não sabe totalmente o que está fazendo,
acaba machucando um pouco, mas não importa.
Andrew tem a sensação de que aquele ponto de contato quente e
úmido entre eles é o centro geográfico de toda a criação.
É algo muito diferente do que Althea costuma fazer — ele sente
aquilo. Seu coração está tão quente quanto o tutano dos ossos de um
carneiro assado, derretendo da mesma maneira, e ela poderia bicar
abaixo do esterno dele e lamber.
Os dois sabem que vai acontecer.
E acontece.
Com urgência.
Com rapidez.
Ela mal tira a calça jeans.
Ele se espalha sobre o umbigo dela, dentro dela, extravagantemente
como um rapaz de vinte anos, ofegante.
Ela range os dentes para não soluçar, não de prazer, ele tem certeza
de que ela não gozou, mas de pesar, amor contrariado, mortalidade,
gratidão por esse pouco de calor, essa nesga de divindade. Ela segura
Andrew, a barriga suada subindo e descendo.
Ele sabe que vai ouvir o som um segundo antes de ouvir e parece tão
clichê, horrível e óbvio que ele fica bravo por Deus ter permitido que
ouvisse os motores em funcionamento de modo tão previsível e
intratável em direção ao pesar.
Sempre pesar.
Um corvo nas árvores.
Kwaaaar!
Ele tenta se convencer de que é uma gralha, e talvez seja.
Só escuta o grasnido uma vez.
E não tem certeza.