Bem-Vindo à Casa dos Espíritos
Capítulo 33
— Pensei que você estivesse morto. Você parecia bem morto.
Ela usa um rolo de papel e um frasco de álcool para passar no lábio
superior dele e no queixo. Enquanto as partes etéreas de Andrew
estavam nas profundezas do lago Ontário, seu corpo teve uma grande
hemorragia nasal. O outro lastro também cedeu, mas Anneke não o
soltou.
Ele está de jaqueta de couro, debaixo de um cobertor.
— Preciso trocar minha calça.
Ela encosta a cabeça no peito dele mais uma vez.
Salvador caminha atrás dela.
— Peça para Jeeves buscar uma calça nova. Não quero que você ande
ainda.
— Salvador, por favor, traga uma calça jeans.
Feliz por ter uma tarefa, o homem de palha desaparece do celeiro e
segue em direção à casa principal.
— Bem, como você é meu padrinho, acho que é a única pessoa a
quem posso dizer que quero uma bebida agora.
Ele assente, estremecendo.
O frio do lago ainda está em seus ossos.
— Você sabe o que foi o pior? Quando achei que Elvis tinha mesmo
saído do prédio, meu primeiro pensamento não foi: “Ah, Deus, meu
amigo morreu”. Meu primeiro pensamento foi: “Vão pensar que eu
matei ele. Vou voltar pra prisão”. Isso não é horrível? Como pessoa,
quero dizer. Quem consegue ser tão egoísta?
Ela não vai chorar.
Ele se esforça para se desvencilhar de Anneke, vai até a porta do
celeiro, inclina-se e vomita. A água fria do lago sai da boca dele.
Anneke leva um lenço de papel aos lábios dele.
— Não entendi nem metade do que aconteceu hoje — comenta ele.
— Mas tem alguém vindo atrás de mim. Alguém perigoso. E acho que
sei quem está por trás disso.
— Quem?
— Não quero dizer o nome. Mas acho que está na hora de eu mostrar
minha casa da maneira adequada. E também está na hora de eu contar o
que aconteceu comigo na Rússia.
O cheiro do lago se torna horrível, pior do que antes.
— Está na hora de você contar para mim também — diz a mulher nua
com os dreadlocks ruivos. Ela caminha pingando para dentro do celeiro,
olhando para Anneke de modo territorialista.
Anneke também olha para ela.
— Tem um cigarro para mim?
— Você sabe onde está o maço.
Nadia atravessa o celeiro e enfia a mão no bolso da jaqueta.
Anneke a observa, esforçando-se para não reagir ao cheiro dela.
Nadia apanha um maço amarelo-claro de cigarros, mas o cigarro que
ela puxa está pela metade.
— Merda — diz ela, cheirando a guimba amarela de tabaco.
Anneke oferece a ela um Winston.
A rusalka pega.