Bem-Vindo à Casa dos Espíritos
Capítulo 43
Karl Zautke se deita de lado com o tubo de respiração ligado.
Os travesseiros estão encharcados sob sua cabeça. Os nódulos
linfáticos do pescoço, que passaram de bolotas a uvas, causam dor, mas
ele consegue respirar um pouco melhor, o suficiente para dormir. No
entanto, ele resiste para ficar acordado e, quando os grandes olhos azuis
rolam para trás e as pálpebras se fecham, ele faz um esforço para que
fiquem abertas para outra imagem borrada da filha, com seu amigo
bacana mas afeminado, sentado ao lado dela.
Ele se sente tão mal que não quer nem uma cerveja.
Seu pé esquerdo aparece, rosa e enorme, a carne inchada ao redor das
pequenas unhas amarelas.
Karl é grande demais para esse lugar, odeia a camisola do hospital,
odeia estar encharcado de suor. Um dos pequenos desconfortos (entre
muitos desconfortos, grandes e pequenos) em relação à leucemia é a
quantidade de roupa que você tem que lavar, o quanto você transpira.
Suando feito um porco é o seu clichê. A filha tem lavado a roupa dele,
tem feito tudo. Ele não suporta ser um peso, mas transpira mesmo assim.
Ensopa as camisas e as roupas íntimas com tanta facilidade que deixa o
ar-condicionado de três saídas ligado a 19°C de junho a setembro.
Eles continuam ligados em sua casa vazia.
Esta é a terceira internação de Karl por pneumonia em dois anos, e
ele sabe tão bem quanto Anneke que isso é o que mata a maioria das
pessoas com seu tipo de leucemia. Leucemia linfocítica aguda, a mais
lenta. Algo que desgasta, corrói a pessoa. Ele está doente há oito anos,
com vários períodos de melhora que lhe dão a esperança de que pode
viver por tempo suficiente para morrer de ataque cardíaco ou algo que
não seja tão... perturbador. Isso não é vida para um homem, viver o
tempo todo cansado, com medo de uma infecção. Remédio no bolso da camisa. Clareamento nos malditos dentes como um modelo. Ter que
atravessar a rua para longe de qualquer pessoa que esteja tossindo,
principalmente crianças. Karl gosta de crianças. Não é justo que ele
precise se manter longe delas agora, já que não fez nada de errado.
Ele olha para Anneke mais uma vez.
Um pensamento desagradável atravessa a mente de Karl, que o
afasta.
Pensa na filha aprendendo a andar naquela bicicleta azul com fitinhas
nos guidões. A cara que ela fez (dentes expostos, boca entreaberta, um
leãozinho prestes a morder) quando ele tirou as pedrinhas do joelho
ralado e espirrou mercurocromo no machucado. Karl sentiu muito
orgulho quando Anneke voltou a subir na bicicleta no mesmo instante,
pois sabia que ela estava fazendo aquilo por ele, pelo brilho extra em
seus olhos quando sorria para ela.
Nada agrada mais Karl do que observar alguém que ele ama tomar
uma atitude corajosa.
É por isso que Anneke.
Não.
Vai chorar.
Nem a pau.
Seus olhos estão marejados, mas é só.
O pai olha para a filha, a filha olha para o pai.
Aqueles olhos azuis germânicos mantêm a ligação por alguns
segundos, antes de o homem grande rolar os olhos e dormir.
— Não me sinto bem com isso — diz ela.
Andrew segura a mão de Anneke, que permite, embora apertando de
poucos em poucos segundos, como se quisesse mostrar a ele a força de
sua mão, como se fosse orgulhosa demais para deixar sua mão na dele,
absorvendo o calor e o amor de Andrew.
— Ele tem setenta anos agora. Está cansado — comenta ela.
Andrew assente, olhando para ele.
Sua barba esbranquiçada com partes meio ruivas, que o deixam
parecido com um Robert Redford na juventude, parece coçar e não
combinar com ele. Karl só deixou crescer para esconder os nódulos
linfáticos, para que ninguém fizesse perguntas.
— Ele odeia pena. Não suporta pessoas em cima dele — explica
Anneke, com voz de professora, assumindo um papel de controle para
que não sinta muito.
Andrew já sabe esse detalhe a respeito daquele homem, não só
porque o ex-piloto de submarino esperou até que estivesse quase
sufocando para telefonar para sua garotinha e pedir ajuda como também
porque Anneke poderia estar se descrevendo.
O homem nunca pensou muito em Andrew, nunca o conheceu bem, e
nem queria isso. Era bem agradável, só não sabia em que gaveta colocá-
lo de modo a irradiar uma neutralidade benigna em direção ao homem
menor. Não o namorado de sua filha: ela não tinha um. Afeminado,
provavelmente alguém que ela conheceu em “círculos gays”,
independente do que isso significasse. Andrew sempre se sentia
vagamente envergonhado perto dele, até mesmo agora, olhando para as
borradas tatuagens azuis de âncora nos braços dele, a imagem apagada
de um pardal no peito espiando pela camisola aberta. Karl é cem por
cento másculo e ninguém jamais duvidou disso. A parte pequena,
insegura e órfã de Andrew quer a aprovação de Karl e vê a última
chance para conseguir, e ele se sente egoísta por pensar em si mesmo.
Andrew só fica ali, sentado, sentindo os apertos da mão de Anneke,
deixando que ela fale sobre o pai de vez em quando, querendo que ela
encoste a cabeça em seu peito para poder acalmá-la, fazer carinho em
seus cabelos. Só que ela raramente mostra esse seu lado, e nunca na
frente de Karl Zautke.
Andrew se pergunta, não pela primeira vez, como é bom se camuflar
com magia quando o fim se aproxima, independente do que ou de quem
você seja.
Exceto, talvez, por ela.
Ela é velha.
Tão velha.
Não pense nela agora.
Tem espelhos aqui?
Ele se sente aliviado por ver que não. Claro que não tem espelhos —
os doentes não gostam de olhar para o próprio rosto.
Em pouco tempo, Anneke cochila e sua cabeça toca o ombro de
Andrew.
O som do ventilador também faz com que ele sinta sono.
Ela entra no banheiro pelo espelho.
Andrew a escuta, ouve o som que ela faz passando, um tipo de som
que sugere um vidro prestes a se quebrar.
Preciso usar meu guardanapo!
Agora!
Ele pega uma toalha de mão do criado-mudo, que Anneke vinha
usando para secar a cabeça suada do pai. Morna agora e levemente
azeda pelo cheiro do suor da doença de Karl. Não importa — Andrew
joga a cabeça para trás e coloca a venda sobre os olhos.
O tremor começa.
Ele se controla para ficar calmo, mas só consegue fazer isso em
parte.
Fu, fu, fu.
Ela está no banheiro!
O ventilador para.
O monitor cardíaco desacelera, linhas retas, e o bipe comprido
anuncia outra morte na terra do ar-condicionado e das caminhonetes.
Ninguém se mexe.
Nenhuma enfermeira vem.
A porta do banheiro se abre. Andrew sente o ar ficar mais frio.
Com um suspiro e um súbito espasmo no corpo, Anneke morre ao seu
lado.
Baba usou a Mão da Glória que pegou da casinha da bruxa, a que
faz parar o coração.
Como Anneke não é importante para ela, a velha a descarta.
Baba só quer ele.
Ela não vai parar o coração dele.
Ela vai pegá-lo de volta agora, levá-lo de volta à casinha.
De volta para o canil dele.
De volta para ter o sangue sugado.
— Ei! Shh! Você está fazendo barulho.
Anneke está olhando para ele, exausta, irritada, assustada.
Ele assente.
Senta-se com a coluna ereta.
Sente o coração acelerado.
O som do ventilador o confunde.
Ela acaricia os cabelos dele.
E o acalma.