Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Christopher Buehlman · Capítulo 42 de 134

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Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Capítulo 43

 

Karl Zautke se deita de lado com o tubo de respiração ligado.

Os travesseiros estão encharcados sob sua cabeça. Os nódulos

linfáticos do pescoço, que passaram de bolotas a uvas, causam dor, mas

ele consegue respirar um pouco melhor, o suficiente para dormir. No

entanto, ele resiste para ficar acordado e, quando os grandes olhos azuis

rolam para trás e as pálpebras se fecham, ele faz um esforço para que

fiquem abertas para outra imagem borrada da filha, com seu amigo

bacana mas afeminado, sentado ao lado dela.

Ele se sente tão mal que não quer nem uma cerveja.

Seu pé esquerdo aparece, rosa e enorme, a carne inchada ao redor das

pequenas unhas amarelas.

Karl é grande demais para esse lugar, odeia a camisola do hospital,

odeia estar encharcado de suor. Um dos pequenos desconfortos (entre

muitos desconfortos, grandes e pequenos) em relação à leucemia é a

quantidade de roupa que você tem que lavar, o quanto você transpira.

Suando feito um porco é o seu clichê. A filha tem lavado a roupa dele,

tem feito tudo. Ele não suporta ser um peso, mas transpira mesmo assim.

Ensopa as camisas e as roupas íntimas com tanta facilidade que deixa o

ar-condicionado de três saídas ligado a 19°C de junho a setembro.

Eles continuam ligados em sua casa vazia.

Esta é a terceira internação de Karl por pneumonia em dois anos, e

ele sabe tão bem quanto Anneke que isso é o que mata a maioria das

pessoas com seu tipo de leucemia. Leucemia linfocítica aguda, a mais

lenta. Algo que desgasta, corrói a pessoa. Ele está doente há oito anos,

com vários períodos de melhora que lhe dão a esperança de que pode

viver por tempo suficiente para morrer de ataque cardíaco ou algo que

não seja tão... perturbador. Isso não é vida para um homem, viver o

tempo todo cansado, com medo de uma infecção. Remédio no bolso da camisa. Clareamento nos malditos dentes como um modelo. Ter que

atravessar a rua para longe de qualquer pessoa que esteja tossindo,

principalmente crianças. Karl gosta de crianças. Não é justo que ele

precise se manter longe delas agora, já que não fez nada de errado.

Ele olha para Anneke mais uma vez.

Um pensamento desagradável atravessa a mente de Karl, que o

afasta.

Pensa na filha aprendendo a andar naquela bicicleta azul com fitinhas

nos guidões. A cara que ela fez (dentes expostos, boca entreaberta, um

leãozinho prestes a morder) quando ele tirou as pedrinhas do joelho

ralado e espirrou mercurocromo no machucado. Karl sentiu muito

orgulho quando Anneke voltou a subir na bicicleta no mesmo instante,

pois sabia que ela estava fazendo aquilo por ele, pelo brilho extra em

seus olhos quando sorria para ela.

Nada agrada mais Karl do que observar alguém que ele ama tomar

uma atitude corajosa.

É por isso que Anneke.

Não.

Vai chorar.

Nem a pau.

Seus olhos estão marejados, mas é só.

O pai olha para a filha, a filha olha para o pai.

Aqueles olhos azuis germânicos mantêm a ligação por alguns

segundos, antes de o homem grande rolar os olhos e dormir.

 

— Não me sinto bem com isso — diz ela.

Andrew segura a mão de Anneke, que permite, embora apertando de

poucos em poucos segundos, como se quisesse mostrar a ele a força de

sua mão, como se fosse orgulhosa demais para deixar sua mão na dele,

absorvendo o calor e o amor de Andrew.

— Ele tem setenta anos agora. Está cansado — comenta ela.

Andrew assente, olhando para ele.

Sua barba esbranquiçada com partes meio ruivas, que o deixam

parecido com um Robert Redford na juventude, parece coçar e não

combinar com ele. Karl só deixou crescer para esconder os nódulos

linfáticos, para que ninguém fizesse perguntas.

— Ele odeia pena. Não suporta pessoas em cima dele — explica

Anneke, com voz de professora, assumindo um papel de controle para

que não sinta muito.

Andrew já sabe esse detalhe a respeito daquele homem, não só

porque o ex-piloto de submarino esperou até que estivesse quase

sufocando para telefonar para sua garotinha e pedir ajuda como também

porque Anneke poderia estar se descrevendo.

O homem nunca pensou muito em Andrew, nunca o conheceu bem, e

nem queria isso. Era bem agradável, só não sabia em que gaveta colocá-

lo de modo a irradiar uma neutralidade benigna em direção ao homem

menor. Não o namorado de sua filha: ela não tinha um. Afeminado,

provavelmente alguém que ela conheceu em “círculos gays”,

independente do que isso significasse. Andrew sempre se sentia

vagamente envergonhado perto dele, até mesmo agora, olhando para as

borradas tatuagens azuis de âncora nos braços dele, a imagem apagada

de um pardal no peito espiando pela camisola aberta. Karl é cem por

cento másculo e ninguém jamais duvidou disso. A parte pequena,

insegura e órfã de Andrew quer a aprovação de Karl e vê a última

chance para conseguir, e ele se sente egoísta por pensar em si mesmo.

Andrew só fica ali, sentado, sentindo os apertos da mão de Anneke,

deixando que ela fale sobre o pai de vez em quando, querendo que ela

encoste a cabeça em seu peito para poder acalmá-la, fazer carinho em

seus cabelos. Só que ela raramente mostra esse seu lado, e nunca na

frente de Karl Zautke.

Andrew se pergunta, não pela primeira vez, como é bom se camuflar

com magia quando o fim se aproxima, independente do que ou de quem

você seja.

Exceto, talvez, por ela.

Ela é velha.

Tão velha.

Não pense nela agora.

Tem espelhos aqui?

Ele se sente aliviado por ver que não. Claro que não tem espelhos —

os doentes não gostam de olhar para o próprio rosto.

Em pouco tempo, Anneke cochila e sua cabeça toca o ombro de

Andrew.

O som do ventilador também faz com que ele sinta sono.

 

Ela entra no banheiro pelo espelho.

Andrew a escuta, ouve o som que ela faz passando, um tipo de som

que sugere um vidro prestes a se quebrar.

Preciso usar meu guardanapo!

Agora!

Ele pega uma toalha de mão do criado-mudo, que Anneke vinha

usando para secar a cabeça suada do pai. Morna agora e levemente

azeda pelo cheiro do suor da doença de Karl. Não importa — Andrew

joga a cabeça para trás e coloca a venda sobre os olhos.

O tremor começa.

Ele se controla para ficar calmo, mas só consegue fazer isso em

parte.

Fu, fu, fu.

Ela está no banheiro!

O ventilador para.

O monitor cardíaco desacelera, linhas retas, e o bipe comprido

anuncia outra morte na terra do ar-condicionado e das caminhonetes.

Ninguém se mexe.

Nenhuma enfermeira vem.

A porta do banheiro se abre. Andrew sente o ar ficar mais frio.

Com um suspiro e um súbito espasmo no corpo, Anneke morre ao seu

lado.

Baba usou a Mão da Glória que pegou da casinha da bruxa, a que

faz parar o coração.

Como Anneke não é importante para ela, a velha a descarta.

Baba só quer ele.

Ela não vai parar o coração dele.

Ela vai pegá-lo de volta agora, levá-lo de volta à casinha.

De volta para o canil dele.

De volta para ter o sangue sugado.

 

— Ei! Shh! Você está fazendo barulho.

Anneke está olhando para ele, exausta, irritada, assustada.

Ele assente.

Senta-se com a coluna ereta.

Sente o coração acelerado.

O som do ventilador o confunde.

Ela acaricia os cabelos dele.

E o acalma.